
“Hoje, a segunda vaga do Senado caminha bem para Rose.” A declaração tem peso, em razão de quem é seu autor: ninguém menos que Euclério Sampaio, prefeito de Cariacica e presidente estadual do MDB.
Como dirigente maior do partido de Ricardo Ferraço no Espírito Santo, Euclério tem participação e influência direta nas tratativas relacionadas à definição da chapa do governador à reeleição, incluindo as duas candidaturas ao Senado. A primeira, como é de conhecimento público, cabe ao ex-governador Renato Casagrande (PSB). A segunda continua em aberto, a dois meses do início do período oficial de campanha.
Mas, como demonstramos aqui, neste ponto do processo, só dois aliados de Ricardo e Casagrande têm chances reais de ficar com essa segunda vaga: a ex-senadora Rose de Freitas e o deputado federal Gilson Daniel (presidente estadual do Podemos, partido que faz parte da mesma coligação e foi um dos primeiros a apoiar Ricardo).
Sem mandato desde o começo de 2023, Rose é um fato concreto nesta discussão, pois já manifestou e reiterou seu interesse em concorrer de novo ao Senado. Gilson surgiu como hipótese, mas ainda não se pronunciou. A princípio, é pré-candidato a mais um mandato na Câmara dos Deputados.
A declaração de Euclério, admitindo o atual favoritismo de Rose, é importante não só por ser ele o presidente estadual do partido de Ricardo e da própria ex-senadora, mas também porque ele, até pouco tempo atrás, resistia a semelhante alternativa para completar a chapa governista. Agora, diante do novo quadro, Euclério reconhece: “Melhorou muito para Rose”.
O prefeito de Cariacica também confirma que, a esta altura do campeonato – após Josias da Vitória (PP) ter decidido não pleitear o espaço –, só há duas opções reais para o preenchimento da posição de segundo candidato ao Senado na chapa da situação, encabeçada por Ricardo: Rose ou Gilson Daniel.
“Acredito que sejam as duas únicas, até porque eu não apoio quem é contra o nosso projeto. E hoje as duas alternativas que são a favor são Gilson Daniel e Rose. Só despontam esses dois nomes para serem apoiados por nós.”
Euclério diz ainda não ter conversado com Gilson Daniel especificamente sobre a possibilidade de ele se lançar ao Senado.
A condição para apoiar Rose
Reiterando que o quadro “ficou bom” para Rose, o prefeito enfatiza qual é a condição para que ela se consolide internamente e obtenha o apoio do núcleo decisório da campanha de Ricardo Ferraço. Trata-se de um núcleo restrito, formado por ele mesmo, Ricardo, Casagrande, Arnaldinho Borgo (PSDB), Marcelo Santos (União) e Da Vitória (PP).
Por essa cúpula, passam todas as definições sobre a coligação majoritária governista. Segundo Euclério, a condição para firmarem apoio a Rose é que ela, por sua vez, explicite seu apoio à reeleição de Ricardo Ferraço no Palácio Anchieta e ao retorno de Casagrande para o Senado.
“Gilson já explicitou o apoio dele a Renato e Ricardo. Preciso que Rose faça isso publicamente. Rose está no nosso grupo, mas eu preciso que ela explicite isso. Digo isso como prefeito e presidente estadual do MDB. É como diz o ditado: à mulher de César, não basta ser honesta. Também tem que parecer honesta. Nossa prioridade é a reeleição do nosso governador. Eu, particularmente, não quero candidato meia-boca, que fique lá e fique aqui”, afirma Euclério, em recado teleguiado à ex-senadora.
A mensagem é clara: o compromisso com a campanha de Ricardo tem que ser incondicional.
“Hoje a definição caminha bem para Rose, a não ser que surja algo que seja muito bom para Ricardo, que já está com a chapa muito boa… mas nada é tão bom que não possa melhorar”, conclui o prefeito de Cariacica e dirigente do MDB.
Parábola e indireta de Euclério para a campanha de Pazolini
Na manhã desta segunda-feira (15), durante a assinatura da ordem de serviço para a implantação da 5ª faixa da Segunda Ponte, Euclério discursou diante da plateia, em Jardim América. Na primeira fila, estavam, entre outros, Ricardo, Casagrande, Arnaldinho, Marcelo Santos e Messias Donato.
Para defender a continuidade do atual governo e dos investimentos estaduais na cidade, Euclério recontou a famosa “Parábola de Jotão”, que consta na Bíblia, no livro de Juízes (9;8-15). Disse o prefeito à plateia:
“Eu quero falar pra vocês que nós temos a chance de continuar sendo governados pela figueira, a oliveira e a videira, que dão frutos, ou escolhermos o espinheiro, que não vai dar sombra e só vai nos causar mal. A cidade nunca avançou tanto. O Estado nunca avançou tanto. E nós temos que continuar com isso!”
O prefeito arrematou assim:
“A figueira, a oliveira e a videira, que dão frutos bons, escolheram ser governadas pelo espinheiro. E elas morreram, porque o espinheiro não dá sombra, só machuca a gente. Vocês querem sair de baixo de uma oliveira, figueira ou videira, para ficarem debaixo de um espinheiro? Querem ver os investimentos pararem?”
Entrando na dinâmica, o público gritou que não. “Então caminhem comigo, caminhem com a gente!”, amarrou Euclério.
Foi uma indireta para a campanha do ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), pré-candidato a governador e adversário do grupo representado por Euclério.
O texto da parábola
Na parábola em questão, a oliveira (planta que dá azeitonas), a figueira (figos) e a videira (uvas) são chamadas pelas outras árvores, nesta ordem, para governá-las. Uma a uma, porém, as três recusam o chamado, pois não querem perder os respectivos frutos.
As árvores, então, pedem a um espinheiro inútil que reine sobre elas. O espinheiro não só aceita a incumbência como ameaça queimar as demais.
Pode-se inferir que, sob o jugo do espinheiro, a oliveira, a figueira e a videira perdem os frutos de qualquer maneira e perecem. Ou seja, no fim das contas, perdem não só os frutos pelos quais tanto prezavam, mas também a própria vida.
Essa interpretação é amplamente aceita e difundida. Mas vale registrar que, embora implícito, tal desfecho não consta no texto bíblico. A parábola de Jotão termina com o espinheiro ascendendo ao trono e ameaçando as outras árvores. Na versão contada por Euclério, a conclusão foi enxertada por ele.
Também considerada uma fábula, a parábola pode ser interpretada como uma severa crítica a governos tirânicos e também à omissão dos justos, a qual dá margem à ascensão de governantes autoritários. Pode ser traduzida pela máxima “quando os bons se calam, os maus governam”.
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Outra indireta
Euclério mandou outra indireta para a Prefeitura de Vitória, atualmente comandada pela prefeita Cris Samorini (PP), sucessora e apoiadora de Pazolini:
“Só espero que o município de Vitória faça parte desta obra [da Segunda Ponte] na Vila Rubim, para que não haja congestionamento, porque Cariacica, Vila Velha e o Governo do Estado, nós estamos fazendo nossa parte”.
Euclério chama Arnaldinho de “prefeitão”
Euclério e Arnaldinho tiveram desentendimentos pontuais nos últimos anos. Quando o prefeito de Vila Velha deu uma guinada temporária para o lado de Pazolini (entre fevereiro e março), os dois naturalmente se afastaram.
Agora Arnaldinho também se declara apoiador de Ricardo e está com os dois pés firmados no palanque governista. E, da primeira fila, ouviu estas palavras do prefeito de Cariacica: “Meu amigo, prefeitão de Vila Velha, da cidade que mora no meu coração”.
Segundo Euclério, o governo Casagrande fez cerca de R$ 2,5 milhões em investimentos em Cariacica desde que ele chegou à prefeitura. E, desde que Ricardo assumiu, em abril, “já mandou uns R$ 200 milhões” para a cidade. “Não fique com ciúmes, Arnaldinho”, brincou o prefeito de Cariacica.