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11 momentos em que a política invadiu a Copa do Mundo

Da mão de ferro de Benito Mussolini à “mão de Deus” de Diego Maradona, de guerras e crises diplomáticas à propaganda oficial de ditaduras, passando por “simples” comemorações de gols... confira aqui 11 momentos em que a Copa do Mundo e a política entraram numa bola dividida dentro das quatro linhas

Escrito por Vitor Vogas

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“Futebol não tem nada a ver com política!”; “Copa do Mundo e política não se misturam!” Nada mais distante da realidade e mais desconectado da própria história das Copas do Mundo de futebol.

Na atual edição, basta observarmos as demonstrações da política migratória de Trump e o tratamento dispensado pelo governo dos Estados Unidos à seleção do Irã, com os dois países em plena guerra, enquanto iranianos residentes no país inimigo protestam, nos arredores dos estádios, contra o regime dos aiatolás.

Esse é só o mais recente de uma longa lista de exemplos que remontam às origens da Copa do Mundo, na década de 1930. Na verdade, ao longo da história, política e Copa costumam entrar em campo de mãos dadas, tal como a Seleção do tetra em 1994.

Da mão de ferro de Mussolini à “mão de Deus” de Maradona, de crises diplomáticas à propaganda oficial de ditaduras, passando por “simples” comemorações de gols… destacamos 11 momentos em que o futebol e a política entraram em bolas divididas dentro das quatro linhas, em meio à euforia geral provocada pela Copa do Mundo.

Boa leitura!

1) 1934 (Itália): palanque fascista

Depois da edição inaugural, em 1930 – realizada e vencida pelo Uruguai –, a segunda Copa do Mundo foi promovida pela Itália. Mais correto seria dizer: foi promovida, pessoalmente, pelo ditador Benito Mussolini. Foi a primeira Copa a ser flagrantemente manipulada e usada para fins políticos.

Pioneiramente – como Hitler faria dois anos depois, nas Olimpíadas de Berlim –, Il Duce compreendeu que o evento de dimensões internacionais poderia ser um instrumento sem igual a serviço de sua propaganda fascista. A Itália precisava conquistar a Copa em casa, para mostrar ao mundo uma “nova Itália”, corajosa, vigorosa e, acima de tudo, vincente (vencedora).

Para atingir tal objetivo, Mussolini fez de tudo: por verdadeiras fortunas, “importou” craques argentinos que haviam sido vice-campeões quatro anos antes no Uruguai e que defenderiam as cores italianas em 1934; sob a conivência de uma Fifa submissa, escalou um juiz de sua preferência para arbitrar a semifinal contra o Wunderteam da Áustria (superfavorita) e a final contra a Tchecoslováquia, efetivamente vencida pelos azzurri. O próprio Jules Rimet, então presidente da Fifa, admitiu que era Mussolini quem estava a organizar o torneio.

Após o título, por ordem do ditador, além da taça Jules Rimet, a Fifa entregou aos campeões um segundo troféu, bem maior e mais vistoso: a Coppa del Duce (Taça do Duque, como Mussolini era chamado). A Jules Rimet era pequena demais para a megalomania do ditador e do regime fascista.

2) 1938 (França): vincere o morire

Segundo capítulo da interferência pessoal de Mussolini nas Copas do Mundo. Na primeira disputada em solo francês, a Itália chegou à final, dessa vez contra a Hungria. Para o regime fascista, com a Segunda Guerra Mundial batendo à porta, conquistar o bicampeonato mundial era uma questão de honra e de superioridade ideológica.

Por razões propagandísticas, o scratch italiano precisava voltar a triunfar… como Mussolini tratou de deixar claríssimo a seus calciatori. Momentos antes da decisão, os jogadores italianos receberam um telegrama do Duce com apenas três palavras e uma ameaça nada sutil: “Vincere o morire”, isto é, “vencer ou morrer”.

Fracassar não era uma opção e, se não regressassem a Roma com o troféu, eles teriam de estar preparados para suportar as consequências.

Resultado ou não desse “estímulo extra”, fato é que a squadra azzurra derrotou os húngaros por 4 a 2, foi campeã de novo de forma invicta e voltou para casa com o bi… para a sorte do plantel.

3) 1938 (França): o fim da Áustria e um herói da resistência

Imagine que um país esteja classificado para disputar a Copa do Mundo, mas deixe de comparecer porque… hum… basicamente, deixou de existir. Pois foi exatamente o que ocorreu com a Áustria em 1938. Com as eliminatórias disputadas em 1937, os austríacos estavam classificados para jogar a competição na França. Só que um detalhe se interpôs no caminho: Hitler.

Em março de 1938, sob o comando do ditador nazista (aliás, austríaco de nascimento), a Alemanha anexou a Áustria a seu território (evento histórico conhecido pelo termo Anschluss). O Terceiro Reich punha em marcha seu projeto de expansão. A Copa foi realizada três meses depois, obviamente sem a presença da Áustria. Oficialmente, a Fifa considerou que o país perdeu a primeira partida, contra a Suécia, por W.O.

Enquanto isso, muitos dos jogadores austríacos foram incorporados ao time da Alemanha. Mas seu grande craque e líder, Matthias Sindelar, negou-se a atuar pela seleção alemã. O mítico atacante ignorava ordens antissemitas e, numa partida entre Áustria e Alemanha em 1938, após marcar um gol, chegou a dançar zombeteiramente perante a tribuna de honra, repleta de autoridades germânicas.

Os clubes austríacos de futebol foram dissolvidos pelo Terceiro Reich, e os jogadores judeus passaram a ser perseguidos e impedidos de jogar futebol. Com origens judias, já sem atuar, Sindelar morreu em janeiro de 1939, sob circunstâncias misteriosas: foi encontrado morto em seu apartamento, junto ao corpo de sua namorada, após intoxicação com monóxido de carbono.

Em setembro do mesmo ano, a Alemanha invadiu a Polônia, desencadeando a Segunda Guerra Mundial.

É importante registrar que a Copa do Mundo Fifa é jogada de quatro em quatro ininterruptamente desde 1930, salvo duas lacunas: não foi jogada em 1942, auge da Segunda Grande Guerra, nem em 1946, primeiro ano pós-guerra. Voltaria a ser disputada em 1950, no Brasil, longe de uma Europa que ainda se reerguia dos escombros.

4) 1966 (Inglaterra): a crise do hino

Na Copa do Mundo realizada na terra dos inventores do football, entre os 16 participantes, a maior surpresa era a estreante Coreia do Norte. Porém, desde a Guerra da Coreia (1950-1953), o país anfitrião não mantinha relações diplomáticas com a nação comunista. Por isso, o hino norte-coreano não poderia ser executado em solo britânico.

Para evitar tal constrangimento, a organização do torneio tomou uma decisão inusitada antes do pontapé inicial da competição: os hinos das duas equipes envolvidas no match só seriam tocados na partida de abertura e na final, à qual a zebra do sudeste asiático tinha escassas chances de chegar. De fato, a Coreia do Norte não chegaria à final. Mas não fez feio, não… longe disso.

Derrotando na primeira fase a Itália (pelo placar de 1 a 0), a Coreia do Norte tornou-se uma das sensações da Copa, eliminando a então bicampeã mundial e avançando às quartas de final.

Assim, poderíamos dizer que os norte-coreanos impuseram à Itália o maior vexame de sua história calcistica… não fossem os resultados recentes dos azzurri, que nem sequer conseguem se classificar para a Copa desde 2014. Ai, minha Itália…

5) 1970 (México): “90 milhões em ação”

Após o fiasco na Copa de 1966 – na qual, defendendo o bi, o Brasil foi eliminado na primeira fase –, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atual CBF) fez uma insólita escolha para o cargo mais importante do país: o de treinador da seleção canarinha. Não porque João Saldanha fosse cronista esportivo e tivesse pouquíssima experiência como técnico de futebol, mas porque era um comunista declarado. E isso em plena escalada da ditadura civil-militar brasileira!

Instaurado em 1964, o regime autoritário recrudesceu em 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5). O Congresso foi fechado; liberdades individuais, cassadas. Teve início o período mais violento da ditadura brasileira, com intensa repressão, prisões arbitrárias, tortura a presos políticos, corpos desaparecidos, exílios, censura a jornalistas, artistas e professores.

Como técnico, durante a preparação para a Copa, Saldanha teve o grande mérito de reunir os grandes talentos que, juntos, viriam a formar a “maior seleção da história”. Mas não duraria muito no cargo. Os desentendimentos com a CBD e com o próprio Governo Federal foram inevitáveis. E a gota d’água foi a famosa entrevista que lhe custou a cabeça.

O então presidente, general Emílio Médici, queria a convocação de Dario “Dadá” Maravilha, centroavante do Atlético Mineiro, e pressionava os dirigentes da CDB, que repassavam a pressão ao treinador. Rogavam a Saldanha que atendesse à vontade do presidente, só para ficarem bem com o governo. Questionado sobre isso, o “João sem Medo” respondeu sem papas na língua: “Nem eu escalo o Ministério nem ele escala o meu time”.

A poucos meses da Copa, Saldanha foi substituído por Mário Jorge Lobo Zagallo, que deu àquela reunião de craques o esquema tático perfeito. Com seis vitórias em seis jogos, o Brasil chegou ao tri, ficando com a posse definitiva da Jules Rimet. E o mundo então assistiu à equipe de futebol mais espetacular da história.

Antes, durante e, sobretudo, após a conquista do tri, o governo dos militares explorou ao máximo a Seleção para fins de propaganda política, com direito a marchas ufanistas como “90 milhões em ação! / Pra frente, Brasil / do meu coração”.

6) 1974 (Alemanha): Alemanha versus Alemanha

Em 1974, a Alemanha sediou pela primeira vez a Copa do Mundo… para ser mais preciso, a Alemanha Ocidental a sediou. Vivíamos o auge da Guerra Fria. A Alemanha estava dividida em duas nações: uma, a Ocidental, integrada ao mundo capitalista; outra, a Oriental, alinhada ao bloco soviético.

Simbolizando essa divisão, havia o Muro de Berlim, erguido no início dos anos 1960. E foi esse mesmo muro que, simbolicamente, se ergueu no meio do campo, num duelo direto entre as duas.

Na última rodada da primeira fase, as duas Alemanhas se enfrentaram, com ambas já classificadas. Mas a Ocidental, além de anfitriã, era muito favorita. Chocando o planeta, a Alemanha Oriental triunfou sobre a rival, por 1 a 0, em jogo carregado de pressão e tensão geopolítica.

Redimindo-se, porém, a Alemanha Ocidental conquistaria o bi em casa, sob a liderança de Beckenbauer, derrotando na final a Laranja Mecânica holandesa de Cruyff.

7) 1978 (Argentina): ditadura e alienação

Em 1978, a Argentina sediou a 12ª edição da Copa do Mundo. Desde 1976, o país vivia uma das mais sanguinárias ditaduras civil-militares da América do Sul (ainda mais cruel que a brasileira e também concomitante à uruguaia e à chilena).

Tendo estudado e aprendido com a cartilha de Benito Mussolini na Itália fascista dos anos 1930, o governo argentino aproveitou a atenção geral para vender ao mundo a imagem de um país vencedor e maquiar os problemas internos e as perversidades do regime do general Jorge Videla, que incluíam o sequestro sistemático de bebês dos presos e presas políticas.

Enquanto multidões lotavam estádios e atiravam rolos de papel higiênico nos gramados, milhares eram torturados e assassinados em instalações das Forças Armadas que abrigavam centros clandestinos de tortura.

Foi um caso clássico do lado B da bola, que também tem na Copa seu ápice: o esporte é emoção, saúde, entretenimento, união e congraçamento dos povos. Mas também pode ser instrumento de alienação das massas, “ópio do povo”, política de pão e circo como distração das mazelas políticas e sociais.

Para a felicidade do povo (e do governo argentino), o plano deu certo: a Argentina foi mesmo campeã, conquistando sua primeira Copa. Para chegar lá, contou com a colaboração da seleção peruana, em um dos mais vergonhosos casos de manipulação de resultados da história do esporte. Mas este é um outro tema…

8) 1986 (México): La mano de Dios e a vingança de Don Diego

Em 1982, na Guerra das Malvinas, a Argentina foi humilhada pela Inglaterra. Humilhada. A resistência do exército argentino diante do inglês foi como a da defesa brasileira sob o ataque da Alemanha na semifinal da Copa de 2014. Foi um dos últimos e melancólicos atos da ditadura do país de um dos maiores futebolistas que o mundo já viu: Don Diego Armando Maradona.

Após ter ido mal na Copa de 1982, Maradona chegou ao México em 1986 no auge. Liderando uma equipe mediana rumo à conquista, virou sinônimo da expressão “ganhou a Copa sozinho”. No caminho até o título, a Argentina encontrou justamente a Inglaterra nas quartas de final. A vitória por 2 a 1 contou com duas “vinganças pessoais” de Maradona contra os ingleses.

No segundo gol, antológico, ele recebeu a bola atrás da linha do meio de campo, enfileirou marcadores, driblou o goleiro inglês e “entrou com bola e tudo”. Foi o chamado “gol do século”.

Já o primeiro, com requintes de crueldade (ou desonestidade), foi o famoso gol marcado com a mão. O juiz não viu. O gol foi validado. Logo após o jogo, questionado se havia marcado com a mão, El Pibe de Oro respondeu assim: “Lo marqué un poco con la cabeza y un poco con la mano de Dios”.

Hoje, em tempos de VAR, o gol fatalmente seria anulado e o craque, possivelmente, expulso de campo. Mas o povo argentino se sentiu com a alma lavada.

9) 1998 (França): inimigos trocam flores

Em 1998, Irã e Estados Unidos já eram nações inimigas, e a tensão geopolítica, como agora, era gigantesca. Na primeira fase, quis o sorteio dos grupos que ambos os países se enfrentassem. Antes de a bola rolar, em gesto com belo teor simbólico, os jogadores dos dois times trocaram flores e tiraram uma foto juntos. Com a bola rolando, o Irã venceu por 2 a 1 o histórico “Jogo da Paz”.

O gesto de fato foi lindo, mas ficou só no simbolismo mesmo… As duas nações nunca reataram os laços diplomáticos e, passados 28 anos, estão em guerra (militar). Embora seus três jogos na primeira fase sejam em solo estadunidense, a seleção iraniana foi obrigada a montar sua base no México e só pode pisar nos Estados Unidos para realizar seus jogos.

Ao fim de cada partida, jogadores e comissão técnica devem cruzar a fronteira de volta no mesmo dia, o que levou o técnico do Irã a reclamar com o presidente da Fifa, Gianni Infantino. Para ele, a entidade organizadora do torneio não está fazendo o suficiente para garantir um tratamento respeitoso aos atletas da equipe.

10) 2014 (Brasil): “Não vai ter Copa!”

Na esteira das grandes marchas de rua realizadas no país em junho de 2013, insatisfações crescentes com o governo Dilma e os primeiros sinais de uma recessão econômica no horizonte, os meses que antecederam a segunda Copa do Mundo no Brasil foram marcados por muitos protestos populares. “Não vai ter Copa” e “Fifa, go home” foram os slogans mais marcantes.

Questionava-se, por exemplo, o altíssimo custo dos estádios, construídos ou reformados com recursos federais especialmente para a Copa, a fim de atender ao “padrão Fifa”, em descompasso com o baixo nível dos serviços públicos. Alguns deles, após o torneio, converteram-se em elefantes brancos, com capacidade muito superior ao público médio das partidas locais de futebol.

Foi nesse contexto que o ex-atacante Ronaldo (o “Fenômeno”) disse aquela frase infeliz: “A gente vai receber a Copa do Mundo. Sem estádio, não [se] faz Copa do Mundo, amigo! Não [se] faz Copa do Mundo com hospital”.

11) 2018 (Rússia): “Pomba da paz”?!? Não! Aqui é águia de duas cabeças!

Na fase de grupos, jogando contra a Sérvia, os suíços Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri comemoraram seus gols cruzando as mãos sobre o peito. Num primeiro momento, alguns desavisados até pensaram que pudesse se tratar de uma “pomba”, simbolizando a paz.  Ou de uma simples comemoração, com zero carga política, no estilo “embala-neném” de Bebeto em 1994… Ledo engano!

Na verdade, o gesto de Xhaka e Shaqiri imitava uma águia de duas cabeças, símbolo da bandeira da Albânia. Os dois são de etnia albanesa e têm fortes raízes no Kosovo, antiga província sérvia cuja população descende principalmente de albaneses. No final dos anos 1990, a região dos Bálcãs foi palco da Guerra do Kosovo, cuja independência nunca foi reconhecida pela Sérvia.

Assim, ao exultar com aquele gesto, Xhaka e Shaqiri praticamente gritaram “Kosovo” na cara dos sérvios. Dona Fifa, sempre “isentona”, multou os dois atletas pelo gesto político. É uma das que insistem em negar as evidentes relações (das quais a própria entidade é parte) entre política e futebol.

Por sua vez, o então primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, lançou uma campanha de arrecadação de dinheiro para pagar as multas de 10 mil francos suíços (cerca de R$ 38 mil, em valores da época) aplicadas pela Fifa aos dois meias. Isto mesmo: uma vaquinha suíça.

BÔNUS

Nas eliminatórias para a Copa, há dois casos emblemáticos que também vale a pena contar:

O boicote da União Soviética contra Augusto Pinochet

Antes da Copa da Alemanha em 1974, a União Soviética recusou-se a jogar a repescagem no Chile após o golpe de Augusto Pinochet, alegando (com razão) que comunistas eram executados no Estádio Nacional, onde o jogo estava marcado. A Fifa decretou derrota dos soviéticos por W.O. (walk-over).

Hoje, quem vai ao Estádio Nacional vê um setor da arquibancada interditado ao público (demarcando o local onde a ditadura de Pinochet prendeu e torturou milhares de pessoas). Acima dele, a frase “Um povo sem memória é um povo sem futuro”, ecoando a necessidade de lembrar as atrocidades da ditadura para que elas não se repitam.

O povo chileno sempre se recusou a atenuar ou apagar da memória nacional os horrores perpetrados por sua ditadura, incluindo o terrorismo de Estado praticado contra os próprios cidadãos. Uma lição fundamental, que o Brasil jamais aprendeu.

Israel em busca da Terra Prometida

Como os judeus fugindo do deserto do Egito, a seleção de futebol de Israel vive um périplo desde a fundação do país, após a Segunda Guerra Mundial. A qual confederação continental pertence o país?

Tecnicamente, o país, situado no Oriente Médio, faz parte da Ásia. Por isso, começou na Confederação Asiática de Futebol (AFC). Mas os outros países do continente se recusavam a jogar contra ele.

O cúmulo de tal situação se deu nas eliminatórias para a Copa de 1958, disputada na Suécia (sim, a do primeiro título do Brasil). Naquelas eliminatórias, a Fifa agrupou seleções africanas, asiáticas e algumas europeias em diversas chaves. Israel foi colocada em um grupo afro-asiático, que também incluía Turquia, Indonésia e Sudão. Um a um, em meio a tensões geopolíticas e boicotes, os adversários desistiram de enfrentar Israel, que, assim, venceu o seu grupo sem ter jogado uma só partida: venceu todas por W.O.

Só que, após as experiências de 1950 e 1954, a Fifa havia decidido que nenhum país poderia se classificar para a Copa da Suécia só com vitórias por W.O. Promoveu-se, então, uma “repescagem interconfederada”. Para ter seu passaporte carimbado, Israel precisou enfrentar o País de Gales. O confronto de fato ocorreu (ufa), e Gales levou a melhor, vencendo as duas partidas por 2 a 0.

A seleção israelense acabou não embarcando para Estocolmo. A de Gales seria derrotada pela Seleção Brasileira, por 1 a 0, na fase mata-mata da Copa, com o primeiríssimo gol de Pelé na história dos mundiais. Por sinal, um golaço! O rei dava seu cartão de visitas ao Planeta Bola.

Hoje, por motivos estritamente políticos, Israel faz parte da Uefa e disputa as eliminatórias na Europa.

Conclusão

Quem por acaso ainda acredita que futebol e política não se misturam tem de ser muito ingênuo, ou mais loco que o Bielsa, treinador da já eliminada seleção do Uruguai na Copa atual.

E olha que o nosso recorte aqui foi bem específico: tratamos apenas da história das Copas do Mundo de futebol masculino. Se quiséssemos falar da política na história do futebol de maneira mais ampla, teríamos de escrever uma série… Obrigatório, por exemplo, um capítulo sobre a Democracia Corinthiana, nos anos 1980.

Se quiséssemos abordar as interseções entre política e esporte de modo geral, daria um livro.

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Obs: Esta coluna contou com a imprescindível contribuição do irmão do colunista, Gabriel Vogas, especialista em história do futebol, a quem deixamos nossos agradecimentos.

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