
Eleição para o Senado costuma ser um negócio curioso. No ano anterior ao período eleitoral, pipocam pré-candidaturas a torto, a direito e a esquerdo. Mas, nos últimos meses da pré-campanha, o processo se afunila, uma grande parte desiste e bem poucos sobrevivem de pé. Nas eleições 2026 no Espírito Santo, o enredo está se repetindo, mas com uma amplitude ainda maior entre “expectativa” (ou ensaio) e “realidade”.
Em fevereiro deste ano, fizemos aqui um levantamento dos políticos capixabas então cotados para concorrer ao Senado, seja porque se declaravam mesmo pré-candidatos, seja porque eram assim apontados por terceiros. Àquela altura, chegamos à incrível marca de 14 nomes com alguma possibilidade de participar da disputa pelas duas vagas que estarão em jogo no Estado.
Agora, a menos de 40 dias do início das convenções partidárias – quando as candidaturas de fato serão homologadas –, já é possível prever: no Espírito Santo, o número final de candidatos relevantes ao Senado chegará, no máximo, à metade disso (7). No máximo. Poderá haver até menos.
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Lembremos, antes de tudo: em cada unidade da federação, cada coligação majoritária poderá registrar um candidato a governador e dois a senador.
No quesito “expectativa versus realidade”, um caso à parte é observado no bunker político liderado pelo governador Ricardo Ferraço (MDB), postulante à reeleição, e pelo ex-governador Renato Casagrande (PSB). Por mais abrangente e numerosa que seja, essa coalizão política chega às vésperas do período eleitoral sem ter produzido, efetivamente, dois pré-candidatos certos ao Senado.
Há, é claro, um pré-candidato certo, que todo mundo sabe quem é: o próprio Renato Casagrande (PSB), que renunciou no começo de abril, passando o cargo de governador a Ricardo, justamente para poder se candidatar a senador.
Fora isso, que certeza se tem ali? Ricardo será candidato a governador, liderando essa coligação. Casagrande será o primeiro candidato a senador, apoiado por Ricardo e apoiando-o reciprocamente. Mas… e quem será o segundo candidato ao Senado dessa coligação oficial, juntando-se a Casagrande e completando a chapa?
Dentro do próprio movimento governista, já tem gente até especulando que a resposta é “ninguém”, ou seja, a chapa pode, no fim das contas, lançar apenas Casagrande ao Senado. Mas calma.
Nesse jogo de “resta um”, o que temos até agora, nessa trincheira governista, é um histórico de ascensões e baixas. Muitos balões de ensaio, pouquíssima concretude.
Em dado momento do ano passado, chegou-se a especular que o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo, pudesse se lançar como opção ao Senado nesse grupo (hipótese que ele nunca abraçou, mas que chegou a admitir no começo de dezembro). Arnaldinho ficou na prefeitura e não será candidato a nada.
Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) anunciou pré-candidatura ao Senado, com pompa, circunstância e apoio do então presidente nacional do PSDB, Marconi Perillo, no fim do ano passado. Sem musculatura política atualmente para uma empreitada de tal monta, desistiu, refez a rota e anunciou, em abril, que será candidato na verdade a deputado estadual.
Já Euclério Sampaio (MDB) foi além. O prefeito de Cariacica foi quem mais longe levou o que, hoje podemos dizer, aparentemente não passou de um blefe. Em agosto do ano passado, anunciou pré-candidatura ao Senado, dizendo que Deus havia colocado tal intento em seu coração. Em poucas semanas, num movimento arrasador, chegou a reunir apoios de entidades religiosas, sindicatos policiais e líderes políticos tradicionais de norte a sul do Estado. No início do ano, o movimento arrefeceu. Em março, Euclério, tal como Arnaldinho, anunciou sua permanência na prefeitura.
Completando a fila de desistentes, na última terça-feira (9), o deputado federal Josias da Vitória, coordenador da bancada do Espírito Santo no Congresso, declarou aqui que não será candidato ao Senado, e sim a mais um mandato na Câmara (se for reeleito, será o terceiro). Presidindo no Espírito Santo a influente Federação União Progressista (UP), o deputado também anunciou: o que o UP deseja de verdade é indicar o candidato a vice-governador de Ricardo nessa mesma coligação.
Tudo pode soar muito normal, se não fosse por um detalhe: o próprio Da Vitória, em mais de uma ocasião – entrevistas dadas no ano passado e em março, inclusive neste espaço –, declarou com ênfase sua disponibilidade em disputar um mandato majoritário (o que incluiria o Senado). Bem, o Senado agora está riscado para ele. E o UP não tem interesse em emplacar o segundo candidato a senador dessa chapa.
Quem é que resta, hoje, no jogo, dentro desse movimento governista? Por incrível que pareça, entre todos que em algum momento já manifestaram intenção ou interesse em disputar o Senado, a única que resta de pé é uma velha conhecida do eleitorado capixaba: a ex-senadora Rose de Freitas (MDB).
Digo “por incrível que pareça” porque, em análises anteriores sobre o tema, avaliei aqui, realisticamente, que a senadora corria por fora, com probabilidades bem menores de concretizar uma nova candidatura ao Senado, diante da forte concorrência então exercida por nomes com chances mais reais de ocupar esse lugar, como Euclério Sampaio (também do MDB) e Da Vitória. Porém, como acabamos de frisar acima, esses potenciais concorrentes, um a um, foram saindo da frente de Rose.
Hoje, contrariando minhas próprias expectativas iniciais, eu diria que é possível, verdadeiramente possível, que essa vaga acabe caindo no colo de Rose, por inércia (jogando parada) e por eliminação. Como nos disse certa vez, sob anonimato, um antigo colaborador da ex-senadora, “Rose é um caso raro e impressionante: em geral, ela faz tudo errado, mas no final tudo dá certo para ela”.
Ao mesmo tempo, como já alertamos aqui, a saída voluntária de Da Vitória desse jogo trouxe a reboque a possível ascensão de um outro player nesse jogo – se não de todo inesperado, jogando na moita até este ponto: o deputado federal Gilson Daniel (Podemos), de certo modo impulsionado pelo próprio Da Vitória, em suas últimas declarações a esta coluna.
Para o presidente estadual do UP, a segunda vaga de senador na coligação governista, ao lado de Casagrande, deve ficar com um quadro do Podemos – leia-se com Gilson Daniel, o presidente estadual da sigla.
Na política, não existe vácuo de poder (nem de expectativa de poder). Da Vitória e Gilson Daniel podem estar a jogar outro jogo paralelamente: o da gangorra. A “descida” de um pode ter significado um impulso para a subida do outro.
Em resumo, na atual conjuntura, sendo extremamente pragmático, minha aposta é que, no QG governista, a resposta para a pergunta capital (“quem será o segundo candidato a senador na chapa da situação?”) se resume a uma destas três opções:
a) Rose de Freitas (MDB)
b) Gilson Daniel (Podemos)
c) Ninguém, com Casagrande (PSB) sendo o único representante desse grupo na disputa pelo Senado.
E é isso aí. Já não há muito tempo nem espaço para fugir disso.
Os outros jogadores e seus times
Enquanto isso, os outros possíveis candidatos ao Senado pelo Espírito Santo podem ser divididos em outras quatro categorias:
1) Aqueles perfilados a Lorenzo Pazolini (Republicanos) e integrados ao projeto de eleger o ex-prefeito de Vitória para o Palácio Anchieta.
2) A publicitária Maguinha Malta (PL), filha do senador Magno Malta (PL).
3) A coligação de esquerda que aposta tudo na reeleição do senador Fabiano Contarato (PT). Na mesma frente, o PSol já lançou a pré-candidatura do professor Carlos Fabian de Carvalho.
4) Aqueles que estão vindo por partidos bem pequenos e possíveis candidaturas avulsas.
No movimento em torno de Pazolini, há quatro potenciais candidatos a senador, a saber:
- O ex-governador Paulo Hartung (PSD);
- O deputado estadual Sérgio Meneguelli (PSD);
- O deputado federal Evair de Melo (Republicanos);
- O ex-deputado federal Carlos Manato (Republicanos)
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Só dois dos quatro poderão se candidatar ao Senado. Outros dois terão de ceder. E isso se o PL de Magno Malta não se juntar a PSD e Republicanos na coligação encabeçada por Pazolini. Essa é uma possibilidade real, que robusteceria a campanha do ex-prefeito de Vitória a governador. Mas a condição maior para isso é que Pazolini tope apoiar Maguinha para o Senado (quid pro quo).
Se tal hipótese se concretizar, restará nessa frente uma única vaga, a ser disputada por Hartung, Meneguelli, Evair e Manato. Três terão de ceder.
Os avulsos
Já no flanco dos avulsos, temos as seguintes pré-candidaturas:
- O senador Marcos do Val, filiado ao pequeno Avante no limite do prazo, no fim de março;
- O deputado estadual Wellington Callegari, pré-candidato pelo pequeno Democracia Cristã (DC);
- O vereador de Vitória Leonardo Monjardim, pré-candidato pelo pequeno Novo.
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