“Futebol não tem nada a ver com política!”; “Copa do Mundo e política não se misturam!” Nada mais distante da realidade e mais desconectado da própria história das Copas do Mundo de futebol.
Na atual edição, basta observarmos as demonstrações da política migratória de Trump e o tratamento dispensado pelo governo dos Estados Unidos à seleção do Irã, com os dois países em plena guerra, enquanto iranianos residentes no país inimigo protestam, nos arredores dos estádios, contra o regime dos aiatolás.
Esse é só o mais recente de uma longa lista de exemplos que remontam às origens da Copa do Mundo, na década de 1930. Na verdade, ao longo da história, política e Copa costumam entrar em campo de mãos dadas, tal como a Seleção do tetra em 1994.
Da mão de ferro de Mussolini à “mão de Deus” de Maradona, de crises diplomáticas à propaganda oficial de ditaduras, passando por “simples” comemorações de gols… destacamos 11 momentos em que o futebol e a política entraram em bolas divididas dentro das quatro linhas, em meio à euforia geral provocada pela Copa do Mundo.
A seguir, apresentamos a primeira parte da nossa seleção de momentos históricos.
1934 (Itália): palanque fascista
Depois da edição inaugural, em 1930 – realizada e vencida pelo Uruguai –, a segunda Copa do Mundo foi promovida pela Itália. Mais correto seria dizer: foi promovida, pessoalmente, pelo ditador Benito Mussolini. Foi a primeira Copa a ser flagrantemente manipulada e usada para fins políticos.
Pioneiramente – como Hitler faria dois anos depois, nas Olimpíadas de Berlim –, Il Duce compreendeu que o evento de dimensões internacionais poderia ser um instrumento sem igual a serviço de sua propaganda fascista. A Itália precisava conquistar a Copa em casa, para mostrar ao mundo uma “nova Itália”, corajosa, vigorosa e, acima de tudo, vincente (vencedora).
Para atingir tal objetivo, Mussolini fez de tudo: por verdadeiras fortunas, “importou” craques argentinos que haviam sido vice-campeões quatro anos antes no Uruguai e que defenderiam as cores italianas em 1934; sob a conivência de uma Fifa submissa, escalou um juiz de sua preferência para arbitrar a semifinal contra o Wunderteam da Áustria (superfavorita) e a final contra a Tchecoslováquia, efetivamente vencida pelos azzurri. O próprio Jules Rimet, então presidente da Fifa, admitiu que era Mussolini quem estava a organizar o torneio.
Após o título, por ordem do ditador, além da taça Jules Rimet, a Fifa entregou aos campeões um segundo troféu, bem maior e mais vistoso: a Coppa del Duce (Taça do Duque, como Mussolini era chamado). A Jules Rimet era pequena demais para a megalomania do ditador e do regime fascista.
1938 (França): vincere o morire
Segundo capítulo da interferência pessoal de Mussolini nas Copas do Mundo. Na primeira disputada em solo francês, a Itália chegou à final, dessa vez contra a Hungria. Para o regime fascista, com a Segunda Guerra Mundial batendo à porta, conquistar o bicampeonato mundial era uma questão de honra e de superioridade ideológica.
Por razões propagandísticas, o scratch italiano precisava voltar a triunfar… como Mussolini tratou de deixar claríssimo a seus calciatori. Momentos antes da decisão, os jogadores italianos receberam um telegrama do Duce com apenas três palavras e uma ameaça nada sutil: “Vincere o morire”, isto é, “vencer ou morrer”.
Fracassar não era uma opção e, se não regressassem a Roma com o troféu, eles teriam de estar preparados para suportar as consequências.
Resultado ou não desse “estímulo extra”, fato é que a squadra azzurra derrotou os húngaros por 4 a 2, foi campeã de novo de forma invicta e voltou para casa com o bi… para a sorte do plantel.
1938 (França): o fim da Áustria e um herói da resistência
Imagine que um país esteja classificado para disputar a Copa do Mundo, mas deixe de comparecer porque… hum… basicamente, deixou de existir. Pois foi exatamente o que ocorreu com a Áustria em 1938. Com as eliminatórias disputadas em 1937, os austríacos estavam classificados para jogar a competição na França. Só que um detalhe se interpôs no caminho: Hitler.
Em março de 1938, sob o comando do ditador nazista (aliás, austríaco de nascimento), a Alemanha anexou a Áustria a seu território (evento histórico conhecido pelo termo Anschluss). O Terceiro Reich punha em marcha seu projeto de expansão. A Copa foi realizada três meses depois, obviamente sem a presença da Áustria. Oficialmente, a Fifa considerou que o país perdeu a primeira partida, contra a Suécia, por W.O.
Enquanto isso, muitos dos jogadores austríacos foram incorporados ao time da Alemanha. Mas seu grande craque e líder, Matthias Sindelar, negou-se a atuar pela seleção alemã. O mítico atacante ignorava ordens antissemitas e, numa partida entre Áustria e Alemanha em 1938, após marcar um gol, chegou a dançar zombeteiramente perante a tribuna de honra, repleta de autoridades germânicas.
Os clubes austríacos de futebol foram dissolvidos pelo Terceiro Reich, e os jogadores judeus passaram a ser perseguidos e impedidos de jogar futebol. Com origens judias, já sem atuar, Sindelar morreu em janeiro de 1939, sob circunstâncias misteriosas: foi encontrado morto em seu apartamento, junto ao corpo de sua namorada, após intoxicação com monóxido de carbono.
Em setembro do mesmo ano, a Alemanha invadiu a Polônia, desencadeando a Segunda Guerra Mundial.
É importante registrar que a Copa do Mundo Fifa é jogada de quatro em quatro ininterruptamente desde 1930, salvo duas lacunas: não foi jogada em 1942, auge da Segunda Grande Guerra, nem em 1946, primeiro ano pós-guerra. Voltaria a ser disputada em 1950, no Brasil, longe de uma Europa que ainda se reerguia dos escombros.
1966 (Inglaterra): a crise do hino
Na Copa do Mundo realizada na terra dos inventores do football, entre os 16 participantes, a maior surpresa era a estreante Coreia do Norte. Porém, desde a Guerra da Coreia (1950-1953), o país anfitrião não mantinha relações diplomáticas com a nação comunista. Por isso, o hino norte-coreano não poderia ser executado em solo britânico.
Para evitar tal constrangimento, a organização do torneio tomou uma decisão inusitada antes do pontapé inicial da competição: os hinos das duas equipes envolvidas no match só seriam tocados na partida de abertura e na final, à qual a zebra do sudeste asiático tinha escassas chances de chegar. De fato, a Coreia do Norte não chegaria à final. Mas não fez feio, não… longe disso.
Derrotando na primeira fase a Itália (pelo placar de 1 a 0), a Coreia do Norte tornou-se uma das sensações da Copa, eliminando a então bicampeã mundial e avançando às quartas de final.
Assim, poderíamos dizer que os norte-coreanos impuseram à Itália o maior vexame de sua história calcistica… não fossem os resultados recentes dos azzurri, que nem sequer conseguem se classificar para a Copa desde 2014. Ai, minha Itália…
1970 (México): “90 milhões em ação”
Após o fiasco na Copa de 1966 – na qual, defendendo o bi, o Brasil foi eliminado na primeira fase –, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atual CBF) fez uma insólita escolha para o cargo mais importante do país: o de treinador da seleção canarinha. Não porque João Saldanha fosse cronista esportivo e tivesse pouquíssima experiência como técnico de futebol, mas porque era um comunista declarado. E isso em plena escalada da ditadura civil-militar brasileira!
Instaurado em 1964, o regime autoritário recrudesceu em 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5). O Congresso foi fechado; liberdades individuais, cassadas. Teve início o período mais violento da ditadura brasileira, com intensa repressão, prisões arbitrárias, tortura a presos políticos, corpos desaparecidos, exílios, censura a jornalistas, artistas e professores.
Como técnico, durante a preparação para a Copa, Saldanha teve o grande mérito de reunir os grandes talentos que, juntos, viriam a formar a “maior seleção da história”. Mas não duraria muito no cargo. Os desentendimentos com a CBD e com o próprio Governo Federal foram inevitáveis. E a gota d’água foi a famosa entrevista que lhe custou a cabeça.
O então presidente, general Emílio Médici, queria a convocação de Dario “Dadá” Maravilha, centroavante do Atlético Mineiro, e pressionava os dirigentes da CDB, que repassavam a pressão ao treinador. Rogavam a Saldanha que atendesse à vontade do presidente, só para ficarem bem com o governo. Questionado sobre isso, o “João sem Medo” respondeu sem papas na língua: “Nem eu escalo o Ministério nem ele escala o meu time”.
A poucos meses da Copa, Saldanha foi substituído por Mário Jorge Lobo Zagallo, que deu àquela reunião de craques o esquema tático perfeito. Com seis vitórias em seis jogos, o Brasil chegou ao tri, ficando com a posse definitiva da Jules Rimet. E o mundo então assistiu à equipe de futebol mais espetacular da história.
Antes, durante e, sobretudo, após a conquista do tri, o governo dos militares explorou ao máximo a Seleção para fins de propaganda política, com direito a marchas ufanistas como “90 milhões em ação! / Pra frente, Brasil / do meu coração”.
1974 (Alemanha): Alemanha versus Alemanha
Em 1974, a Alemanha sediou pela primeira vez a Copa do Mundo… para ser mais preciso, a Alemanha Ocidental a sediou. Vivíamos o auge da Guerra Fria. A Alemanha estava dividida em duas nações: uma, a Ocidental, integrada ao mundo capitalista; outra, a Oriental, alinhada ao bloco soviético.
Simbolizando essa divisão, havia o Muro de Berlim, erguido no início dos anos 1960. E foi esse mesmo muro que, simbolicamente, se ergueu no meio do campo, num duelo direto entre as duas.
Na última rodada da primeira fase, as duas Alemanhas se enfrentaram, com ambas já classificadas. Mas a Ocidental, além de anfitriã, era muito favorita. Chocando o planeta, a Alemanha Oriental triunfou sobre a rival, por 1 a 0, em jogo carregado de pressão e tensão geopolítica.
Redimindo-se, porém, a Alemanha Ocidental conquistaria o bi em casa, sob a liderança de Beckenbauer, derrotando na final a Laranja Mecânica holandesa de Cruyff.
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Gostou? Continuamos amanhã, com o resto da nossa escalação de momentos históricos que provam o encontro frequente da política com a Copa do Mundo.
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Obs: Esta coluna contou com a imprescindível contribuição do irmão do colunista, Gabriel Vogas, especialista em história do futebol.





