“Futebol e política não se misturam, muito menos na Copa do Mundo!” Além de equivocada, a afirmação revela boa dose de ingenuidade. Futebol e política se intercruzam o tempo todo, inclusive ao longo da história das Copas do Mundo. Para prová-lo, escalamos uma seleção de 11 grandes momentos em que a política invadiu as quatro linhas durante edições da Copa do Mundo.
Os seis primeiros episódios, publicados ontem, entre 1930 e 1974, você pode ler aqui. Os outros seis episódios, a partir da Copa de 1978, você pode conferir abaixo.
Boa leitura!
1978 (Argentina): ditadura e alienação
Em 1978, a Argentina sediou a 12ª edição da Copa do Mundo. Desde 1976, o país vivia uma das mais sanguinárias ditaduras civil-militares da América do Sul (ainda mais cruel que a brasileira e também concomitante à uruguaia e à chilena).
Tendo estudado e aprendido com a cartilha de Benito Mussolini na Itália fascista dos anos 1930, o governo argentino aproveitou a atenção geral para vender ao mundo a imagem de um país vencedor e maquiar os problemas internos e as perversidades do regime do general Jorge Videla, que incluíam o sequestro sistemático de bebês dos presos e presas políticas.
Enquanto multidões lotavam estádios e atiravam rolos de papel higiênico nos gramados, milhares eram torturados e assassinados em instalações das Forças Armadas que abrigavam centros clandestinos de tortura.
Foi um caso clássico do lado B da bola, que também tem na Copa seu ápice: o esporte é emoção, saúde, entretenimento, união e congraçamento dos povos. Mas também pode ser instrumento de alienação das massas, “ópio do povo”, política de pão e circo como distração das mazelas políticas e sociais.
Para a felicidade do povo (e do governo argentino), o plano deu certo: a Argentina foi mesmo campeã, conquistando sua primeira Copa. Para chegar lá, contou com a colaboração da seleção peruana, em um dos mais vergonhosos casos de manipulação de resultados da história do esporte. Mas este é um outro tema…
1986 (México): La mano de Dios e a vingança de Don Diego
Em 1982, na Guerra das Malvinas, a Argentina foi humilhada pela Inglaterra. Humilhada. A resistência do exército argentino diante do inglês foi como a da defesa brasileira sob o ataque da Alemanha na semifinal da Copa de 2014. Foi um dos últimos e melancólicos atos da ditadura do país de um dos maiores futebolistas que o mundo já viu: Don Diego Armando Maradona.
Após ter ido mal na Copa de 1982, Maradona chegou ao México em 1986 no auge. Liderando uma equipe mediana rumo à conquista, virou sinônimo da expressão “ganhou a Copa sozinho”. No caminho até o título, a Argentina encontrou justamente a Inglaterra nas quartas de final. A vitória por 2 a 1 contou com duas “vinganças pessoais” de Maradona contra os ingleses.
No segundo gol, antológico, ele recebeu a bola atrás da linha do meio de campo, enfileirou marcadores, driblou o goleiro inglês e “entrou com bola e tudo”. Foi o chamado “gol do século”.
Já o primeiro, com requintes de crueldade (ou desonestidade), foi o famoso gol marcado com a mão. O juiz não viu. O gol foi validado. Logo após o jogo, questionado se havia marcado com a mão, El Pibe de Oro respondeu assim: “Lo marqué un poco con la cabeza y un poco con la mano de Dios”.
Hoje, em tempos de VAR, o gol fatalmente seria anulado e o craque, possivelmente, expulso de campo. Mas o povo argentino se sentiu com a alma lavada.
1998 (França): inimigos trocam flores
Em 1998, Irã e Estados Unidos já eram nações inimigas, e a tensão geopolítica, como agora, era gigantesca. Na primeira fase, quis o sorteio dos grupos que ambos os países se enfrentassem. Antes de a bola rolar, em gesto com belo teor simbólico, os jogadores dos dois times trocaram flores e tiraram uma foto juntos. Com a bola rolando, o Irã venceu por 2 a 1 o histórico “Jogo da Paz”.
O gesto de fato foi lindo, mas ficou só no simbolismo mesmo… As duas nações nunca reataram os laços diplomáticos e, passados 28 anos, estão em guerra (militar). Embora seus três jogos na primeira fase sejam em solo estadunidense, a seleção iraniana foi obrigada a montar sua base no México e só pode pisar nos Estados Unidos para realizar seus jogos.
Ao fim de cada partida, jogadores e comissão técnica devem cruzar a fronteira de volta no mesmo dia, o que levou o técnico do Irã a reclamar com o presidente da Fifa, Gianni Infantino. Para ele, a entidade organizadora do torneio não está fazendo o suficiente para garantir um tratamento respeitoso aos atletas da equipe.
2014 (Brasil): “Não vai ter Copa!”
Na esteira das grandes marchas de rua realizadas no país em junho de 2013, insatisfações crescentes com o governo Dilma e os primeiros sinais de uma recessão econômica no horizonte, os meses que antecederam a segunda Copa do Mundo no Brasil foram marcados por muitos protestos populares. “Não vai ter Copa” e “Fifa, go home” foram os slogans mais marcantes.
Questionava-se, por exemplo, o altíssimo custo dos estádios, construídos ou reformados com recursos federais especialmente para a Copa, a fim de atender ao “padrão Fifa”, em descompasso com o baixo nível dos serviços públicos. Alguns deles, após o torneio, converteram-se em elefantes brancos, com capacidade muito superior ao público médio das partidas locais de futebol.
Foi nesse contexto que o ex-atacante Ronaldo (o “Fenômeno”) disse aquela frase infeliz: “A gente vai receber a Copa do Mundo. Sem estádio, não [se] faz Copa do Mundo, amigo! Não [se] faz Copa do Mundo com hospital”.
2018 (Rússia): “Pomba da paz”?!? Não! Aqui é águia de duas cabeças!
Na fase de grupos, jogando contra a Sérvia, os suíços Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri comemoraram seus gols cruzando as mãos sobre o peito. Num primeiro momento, alguns desavisados até pensaram que pudesse se tratar de uma “pomba”, simbolizando a paz. Ou de uma simples comemoração, com zero carga política, no estilo “embala-neném” de Bebeto em 1994… Ledo engano!
Na verdade, o gesto de Xhaka e Shaqiri imitava uma águia de duas cabeças, símbolo da bandeira da Albânia. Os dois são de etnia albanesa e têm fortes raízes no Kosovo, antiga província sérvia cuja população descende principalmente de albaneses. No final dos anos 1990, a região dos Bálcãs foi palco da Guerra do Kosovo, cuja independência nunca foi reconhecida pela Sérvia.
Assim, ao exultar com aquele gesto, Xhaka e Shaqiri praticamente gritaram “Kosovo” na cara dos sérvios. Dona Fifa, sempre “isentona”, multou os dois atletas pelo gesto político. É uma das que insistem em negar as evidentes relações (da qual a própria entidade é parte) entre política e futebol.
Por sua vez, o então primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, lançou uma campanha de arrecadação de dinheiro para pagar as multas de 10 mil francos suíços (cerca de R$ 38 mil, em valores da época) aplicada pela Fifa aos dois meias. Isto mesmo: uma vaquinha suíça.
BÔNUS
Nas eliminatórias para a Copa, há dois casos emblemáticos que também vale a pena contar:
O boicote da União Soviética contra Augusto Pinochet
Antes da Copa da Alemanha em 1974, a União Soviética recusou-se a jogar a repescagem no Chile após o golpe de Augusto Pinochet, alegando (com razão) que comunistas eram executados no Estádio Nacional, onde o jogo estava marcado. A Fifa decretou derrota dos soviéticos por W.O. (walk-over).
Hoje, quem vai ao Estádio Nacional vê um setor da arquibancada interditado ao público (demarcando o local onde a ditadura de Pinochet prendeu e torturou milhares de pessoas). Acima dele, a frase “Um povo sem memória é um povo sem futuro”, ecoando a necessidade de lembrar as atrocidades da ditadura para que elas não se repitam.
O povo chileno sempre se recusou a atenuar ou apagar da memória nacional os horrores perpetrados por sua ditadura, incluindo o terrorismo de Estado praticado contra os próprios cidadãos. Uma lição fundamental, que o Brasil jamais aprendeu.
Israel em busca da Terra Prometida
Como os judeus fugindo do deserto do Egito, a seleção de futebol de Israel vive um périplo desde a fundação do país, após a Segunda Guerra Mundial. A qual confederação continental pertence o país?
Tecnicamente, o país, situado no Oriente Médio, faz parte da Ásia. Por isso, começou na Confederação Asiática de Futebol (AFC). Mas os outros países do continente se recusavam a jogar contra ele.
O cúmulo de tal situação se deu nas eliminatórias para a Copa de 1958, disputada na Suécia (sim, a do primeiro título do Brasil). Naquelas eliminatórias, a Fifa agrupou seleções africanas, asiáticas e algumas europeias em diversas chaves. Israel foi colocada em um grupo afro-asiático, que também incluía Turquia, Indonésia e Sudão. Um a um, em meio a tensões geopolíticas e boicotes, os adversários desistiram de enfrentar Israel, que, assim, venceu o seu grupo sem ter jogado uma só partida: venceu todas por W.O.
Só que, após as experiências de 1950 e 1954, a Fifa havia decidido que nenhum país poderia se classificar para a Copa da Suécia só com vitórias por W.O. Promoveu-se, então, uma “repescagem interconfederada”. Para ter seu passaporte carimbado, Israel precisou enfrentar o País de Gales. O confronto de fato ocorreu (ufa), e Gales levou a melhor.
A seleção israelense acabou não embarcando para Estocolmo. A de Gales seria derrotada pela Seleção Brasileira, por 1 a 0, na fase mata-mata da Copa, com o primeiríssimo gol de Pelé na história dos mundiais. Por sinal, um golaço! O rei dava seu cartão de visitas ao Planeta Bola.
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