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Quem é Ricardo Ferraço como chefe, segundo secretários de Estado

Quem é o chefe? Para traçar o perfil de Ricardo Ferraço como governador e líder, ouvimos, sob sigilo, um assessor e quatro secretários remanescentes do governo passado. E ainda: as principais diferenças de estilo de liderança em relação a Casagrande

Escrito por Vitor Vogas

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Casagrande cumprimenta Ricardo Ferraço no dia do anúncio (18/12/2025). Foto: Cid Costa
Casagrande cumprimenta Ricardo Ferraço no dia do anúncio (18/12/2025). Foto: Cid Costa

“Só quero saber do que pode dar certo / Não tenho tempo a perder.” Assim diz o estribilho da canção “Go Back”, composição do poeta Torquato Neto com Sérgio Britto, gravada pelos Titãs no álbum de estreia da banda, em 1984. Aos 21 anos, Ricardo Ferraço era vereador de sua cidade, Cachoeiro de Itapemirim, cargo para o qual se elegera dois anos antes.

Não sabemos se o jovem Ricardo curtia punk-rock nacional. Mas, 42 anos depois, como governador do Espírito Santo, ele tem citado esse refrão em alguns discursos, em solenidades oficiais, para resumir sua própria mentalidade no cargo assumido por ele no dia 2 de abril.

Nessa data, Renato Casagrande (PSB) renunciou e transmitiu a Ricardo o cargo exercido por ele por mais de sete anos seguidos. Muitos dos integrantes do primeiro escalão de Casagrande foram mantidos por Ricardo em seu secretariado – mais ou menos metade dos secretários que já compunham o alto escalão. Mas o chefe mudou.

Por isso, sob condição de anonimato, ouvimos alguns dos remanescentes do secretariado de Casagrande para saber o seguinte: qual é o perfil de Ricardo não do ponto de vista político-ideológico, mas como chefe, no dia a dia, conduzindo os trabalhos e liderando a equipe de governo? Como eles mesmos descrevem o estilo de liderança do sucessor de Casagrande? E mais: quais as principais diferenças de estilo de um para o outro no cotidiano?

Sobre Ricardo, com pequenas variações, alguns adjetivos aparecem nas respostas de todas as fontes ouvidas, as quais poderiam ser condensadas no refrão de “Go Back”. Da descrição dos secretários, a figura que surge é um líder extremamente objetivo, técnico e pragmático (“só quero saber do que pode dar certo”); ao mesmo tempo, o novo chefe é definido como um gestor dinâmico, aceleradíssimo e viciado em trabalho (“não tenho tempo a perder”).

Ricardo também é descrito como um chefe absolutamente exigente, que faz questão de acompanhar e cobrar pessoalmente o retorno a cada demanda sua. O nível de cobrança, aliás, é uma das principais diferenças destacadas com relação a seu antecessor no cargo. Não que Casagrande não cobrasse dos secretários. Mas digamos que o flamenguista que assumiu a cadeira elevou a “outro patamar” o grau de exigência. E quem seguiu na equipe precisou rapidamente se acostumar e se adaptar ao novo padrão imprimido pelo novo chefe.

“Nunca trabalhei tanto na minha vida! E acho que isso vale pra todos. Ele não esquece. E não tem hora pra trabalhar. O dia dele começa às 5h da manhã. Às 6h ele te liga. Às 23h ele te liga, pergunta, quer saber… Se você não tem a informação, é melhor dizer que não tem e que vai correr atrás. Cara, não adianta dar migué… Na mesma hora ele percebe o migué”, relata um primeiro secretário.

“Ele cobra mais que Casagrande. Demanda o tempo todo, cobra muito os resultados”, corrobora um segundo.

“Se antes estávamos acostumados a seguir o ‘pique do Casão’, a gente brinca que agora é ‘no pique do Ricardão’. Se alguém achava que ia sair um governador acelerando a 200 por hora para entrar um que ia acelerar a 100 por hora, enganou-se”, atesta um terceiro.

“Ele está num ritmo aceleradíssimo. Não tem horário pra me ligar. É resolutivo e cobra soluções. Busca muito resultados. Cobra de forma bem tranquila e respeitosa. Mas, realmente, pega o touro pelo chifre”, ratifica um quarto.

Objetividade, pragmatismo e tecnicismo

Desde sua já longínqua primeira passagem pelo Governo do Estado – como secretário estadual de Agricultura, na primeira administração de Paulo Hartung (2003-2006) –, Ricardo é reconhecido como um agente público muito técnico; um “híbrido” de político com “CEO de empresa”, levando e aplicando à gestão pública um estilo de liderança inspirado na iniciativa privada.

Agora que chegou a governador, colaboradores diretos dele confirmam, como uma de suas marcas, a preocupação em sempre se cercar do máximo de informações e dominar em detalhes as questões mais técnicas de cada pauta na sua mesa.

Essa preocupação se traduz em um antigo hábito de Ricardo, trazido de mandatos anteriores e agora inserido na rotina do Palácio Anchieta: as chamadas “notas técnicas”. Para cada assunto, ele manda sua equipe de assessores preparar com antecedência um material para ele ler, o mais detalhado possível.

Segundo um assessor, Ricardo nunca chega a um lugar sem antes ter lido a nota técnica sobre o tema a ser tratado no evento, seja a inauguração de uma estação de esgoto, seja um debate sobre a reforma tributária.

Nesse aspecto, relata o mesmo assessor, Casagrande era diferente. Era, por assim dizer, mais aberto ao improviso. “O Ricardo nunca chega a um evento sem saber detalhadamente o que ele vai fazer ali. O Renato, até pelo volume absurdo de compromissos, às vezes só ia saber que evento era aquele e o que ele ia fazer lá quando estava a caminho do evento, ou quase chegando ao local.”

Já um secretário destaca o valor dado por Ricardo à precisão e à resolutividade. Dos seus subordinados, ele cobra informações corretas, completas e contextualizadas. Quer sempre explicações objetivas e soluções para os problemas tratados nos despachos com os secretários. Ai de quem lhe levar só o problema – sem apresentar em anexo uma solução, ou ao menos uma proposta para solucionar a questão. Pior ainda se alguém lhe vier com “embromation”…

“Todas as análises dele passam por começo, meio e fim. Ele não gosta que você leve para ele informações incompletas e descontextualizadas. Quer que você já chegue com o problema e a solução. Odeia que você chegue só com o problema. O Renato é mais paciente para ouvir”, compara o secretário, que prossegue:

“O Ricardo prioriza muito mais as coisas que ele sabe que vão acontecer e não tem paciência se você leva para ele uma coisa que não tem solução. O primeiro mês foi de adaptação. Agora ele está muito mais inteirado dos assuntos e já sabe o que dá para chegar para o povo efetivamente. Sinto que ele incorporou um negócio muito forte dentro do governo, de entregas, de fazer as coisas chegarem. Ricardo quer resultado. ‘O povo não pode esperar’, ele diz. Também percebo que ele quer dar continuidade a tudo o que o Casagrande colocou. Não está tentando reinventar a roda em nada”.

“Mensagens com interrogações e exclamações”

O mesmo colaborador ressalta a importância dada por Ricardo ao cumprimento de prazos.

“Ricardo sempre trabalha com prazos e os gerencia pessoalmente. Ele me pede uma explicação. Eu não tenho a explicação. Ele me diz: ‘Tá bem, então me mande a explicação até as 18h’. E ele não esquece. Se eu não cumpro esse prazo, logo após as 18h, começo a receber mensagens com interrogações e exclamações. Tem sido um grande aprendizado e um desafio. Assim como ele cobra objetividade, ele também é muito direto e objetivo. Na condução, é muito frio. Mas também é muito respeitoso.”

Concordando que Ricardo detesta “enrolação”, outro secretário – mais ligado a números – salienta a “vitalidade para o trabalho” como a principal característica em comum entre Ricardo e Casagrande, mas destaca, como diferença, o olhar mais técnico do atual governador sobre a área fiscal e financeira.

Ricardo é muito dinâmico. Não gosta de ficar enrolando. Ele tem uma vitalidade para o trabalho muito grande, assim como tinha o Renato. É um cara bastante técnico, o que sobressai na área econômica. Ele gosta de apurar mais no detalhe, entender como as coisas funcionam. Me surpreendeu no sentido de ter bastante diálogo. Sempre chama a gente para conversar e ouvir as nossas opiniões. Ricardo é um pouco mais técnico, principalmente na área econômica e fiscal. Ele acompanha mais de perto e consegue dar uma opinião mais técnica.”

Um colega de secretariado vai na mesma linha: “Ricardo é bem objetivo, muito pragmático. Não promete aquilo que ele não pode cumprir. É muito criterioso com a parte orçamentária”.

“Quem fala pelo Ricardo é o Ricardo”

Talvez por conta desse estilo “bem objetivo e pragmático”, Ricardo tem realizado menos reuniões que Casagrande com todo o secretariado. Até agora, com dois meses e meio de governo, só houve uma. Por outro lado, segundo secretários, os despachos individuais, por telefone ou Whatsapp, têm sido mais frequentes. E ele se encarrega pessoalmente de todas as cobranças e da coordenação.

“Ricardo não tem intermediários. É tudo ele. Quem fala pelo Ricardo é o Ricardo. Se alguém disser algo diferente, é mentira. Não é o secretário de Governo, o chefe da Casa Civil, a chefe de gabinete… Entendi isso da pior maneira, pois ele mesmo deixou claro pra mim: ‘É direto comigo’”, conta um membro do alto escalão.

Isso reflete um perfil centralizador? Não necessariamente, responde o mesmo secretário. “Ele descentraliza para os secretários, e nós temos que entregar. Ele realmente acredita no secretariado e despacha diretamente com a gente.”

“Menos paciência em relação ao timing da gestão pública”

“Renato era mais compreensivo e tinha um perfil mais conciliador”, observa um membro do primeiro escalão do governo.

Logicamente, o novo estilo imprimido por Ricardo não agrada de forma unânime. Não que tenha gerado resistências, protestos ou algo assim. Mas, sempre sob anonimato, um secretário faz uma ressalva: seja por exercitar um estilo tão próximo ao do mundo corporativo, seja por ter assumido o cargo com um ímpeto tão grande de entregar resultados, o sucessor de Casagrande cobra respostas e soluções numa velocidade que, muitas vezes, não é possível no contexto da administração pública… o que pode, rapidamente, gerar impaciência e frustração.

“Renato e Ricardo têm pensamentos que batem um com o outro. Mas realmente são pessoas diferentes. O que pesa mais aí é a experiência. A principal diferença que vejo do Renato para o Ricardo é a compreensão do timing de retorno das coisas. A gestão pública é complexa, não é igual à gestão privada, em que você aperta um botão e a coisa acontece. O Renato já entendia como funciona a burocracia da máquina e tinha mais paciência para aguardar as respostas. O Ricardo tem menos paciência em relação a isso. Ele quer que as coisas aconteçam com mais rapidez. Isso por um lado é bom. Mas às vezes ele espera da equipe um retorno mais rápido que não é possível dar na velocidade desejada.”

“Ele sofre com isso”

Em tom reflexivo, a mesma fonte pondera: “Na gestão pública, tem toda uma burocracia. O Ricardo gostaria que as coisas acontecessem mais rapidamente. Vejo que ele sofre com isso. Por maior que seja a experiência do cara na vida pública, tem algumas nuances que o cara só entende quando é governador. Mas, nesse aspecto, já melhorou muito desde que assumiu”, completa o secretário.

“Fino trato”

Falou-se muito aqui o quanto Ricardo é exigente, mas as fontes que ouvimos são unânimes em deixar uma ressalva: a cobrança é sempre feita de maneira respeitosa e educada. Como chefe, dizem eles, Ricardo tem se mostrado um homem tranquilo e de fino trato.

Mais formal

Por último – mas é uma diferença tão evidente que até relutamos em incluí-la –, Ricardo obviamente é muito mais formal e solene que Casagrande. Basta ver e ouvir os seus discursos. Mas a diferença que tanto transparece em público também se manifesta nos bastidores, no dia a dia do governo e no trato com os subordinados.

Fale com o colunista: vitor.vogas@gruposim.com.br

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