Ao longo de suas cinco décadas de vida pública, mais de quatro exercendo mandatos eletivos, Rose de Freitas deu reiteradas demonstrações de resiliência. Incontáveis vezes provou que quem duvida dela tende a errar. Agora, o faz mais uma vez. Rose é uma sobrevivente política. E, aos 77 anos, está a poucos passos de disputar, de verdade, mais uma eleição ao Senado.
Fenômeno de longevidade política, Rose já detém a incrível marca de sete mandatos parlamentares no Congresso Nacional, um recorde absoluto entre representantes do Espírito Santo na Nova República (inaugurada em 1985). Foram seis na Câmara dos Deputados (cinco completos e um assumido como suplente), além da passagem de oito anos pelo Senado, para o qual se elegeu em 2014. Em 2022, não conseguiu se reeleger. Seu lugar ficou com Magno Malta (PL).
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Agora, após quatro anos sem mandato, Rose tem tudo para voltar a postular um lugar na Câmara Alta, ao lado de Renato Casagrande (PSB), na coligação majoritária liderada pelo governador Ricardo Ferraço. Do primeiro, é grande aliada; do segundo, correligionária no MDB.
A candidatura de Rose ainda não é fato consumado. Terá de passar pelo necessário crivo da convenção estadual do MDB e, até lá, estará sujeita e eventuais reviravoltas das quais a política sempre é prenhe.
A esta altura, porém, o favoritismo da ex-senadora para ladear Ricardo e Renato Casagrande nessa chapa (reeditando a chapa RRR de 2022) está amplamente consolidado. Isso tanto pela obstinação pessoal de Rose quanto por um motivo inesperado e, em grande medida, surpreendente: o inacreditável deserto de concorrentes à mesma posição, no grupo de Ricardo e Casagrande, neste ponto do processo.
Por incrível que possa soar, a esta altura do campeonato, com a bola eleitoral prestes a rolar logo após a Copa do Mundo, Rose é a única jogadora que restou de pé no túnel que liga o vestiário ao gramado da campanha, ao lado de Casagrande, no time capitaneado por Ricardo. Traduzindo a analogia futebolística: Rose é a única integrantes desse grupo que sustenta sua pré-candidatura ao Senado, além do próprio Casagrande, nesse grande grupo governista.
De azarão, a ex-senadora passou a favorita absoluta para ocupar a vaga, seja por sua tenacidade, seja por pura eliminação (ou melhor, “autoeliminação”) de todos os potenciais postulantes ao mesmo espaço. Se fosse a “Corrida Maluca”, diríamos que Penélope (a única mulher) largou atrás, mas todos os outros competidores à sua frente foram abandonando a prova.
E olha que, ao longo do percurso, não faltaram aliados de Casagrande também interessados em ocupar essa segunda candidatura ao Senado na chapa governista!
Em certos trechos da prova, alguns deles pareceram muito mais “quentes”, com probabilidades bem maiores de se firmarem nessa posição: Euclério Sampaio pareceu o nome mais provável, entre agosto do ano passado e março deste ano; Josias da Vitória (PP) assumiu a condição de favorito, nos bastidores, de março até semana passada.
Mesmo correndo por fora, Rose jamais se intimidou. Levantou o dedinho (”eu quero”) e nunca mais o abaixou; deu um passinho à frente e nunca arredou o pé. Sempre que questionada se mantinha a pré-candidatura ao Senado, ela jamais titubeou. Quando indagada sobre a possível dificuldade representada pelo fato de ser do mesmo partido do candidato a governador (cheio de aliados a contemplar, numa coligação tão ampla quanto a dele), Rose nunca se abateu: “por que não?”.
Nesse “jogo do resta um”, após ter reunido múltiplos apoios para ser candidato a senador, Euclério desacelerou e, em março, decidiu ficar à frente da Prefeitura de Cariacica e não ser candidato a nada. Em dado momento, Arnaldinho (PSDB) chegou a ser cotado, mas ficou, por sua vez, na Prefeitura de Vila Velha. Luiz Paulo (PSDB) chegou a anunciar, em dois momentos, pré-candidatura ao Senado, mas recuou e será candidato a deputado estadual.
Presidente estadual da Federação União Progressista, o deputado Da Vitória recebeu, nos bastidores, a preferência de Ricardo e Casagrande para ser o segundo candidato a senador, se assim quisesse. Não o quis. Na semana passada, anunciou que será candidato à reeleição e que a federação na verdade reivindica a vice de Ricardo.
Nos últimos dias, ainda aventou-se o nome do deputado Gilson Daniel como alternativa a Rose. Essa possibilidade não vingou. Na tarde desta segunda-feira (15), em entrevista exclusiva à coluna, o presidente estadual do Podemos anunciou sua decisão final de concorrer à reeleição na Câmara – a exemplo de Da Vitória. E ainda declarou apoio a Rose como segunda candidata ao Senado, na chapa da situação.
Como se nota, um a um, todos que estavam à frente de Rose foram recuando, abdicando, desistindo, declinando… saindo da frente e deixando a pista livre para ela. Após terem dado um passo à frente, voltaram um passo para trás, tornando ao ponto de partida. Rose deu seu passo à frente e lá ficou. Agora, está à frente dos demais.
O próprio presidente estadual do MDB, Euclério Sampaio, não se revelava grande fã da ideia de lançar Rose de Freitas. Na manhã desta segunda-feira (15), admitiu que agora ela é a favorita para perfilar com Casagrande na coligação majoritária de Ricardo.
A ex-senadora não chegou a jogar parada, mas se movimentou muito pouco. Seu grande mérito foi o de jamais ter recuado, o de ter-se mantido firme e resoluta no desejo de ser candidata. E agora, pelo visto, realmente será.
Não o será por inércia, mas, de certa forma, porque a conjuntura lhe sorriu a partir dessa soma de desistências. Pontos para ela.
Muito perto de se confirmar, a pré-candidatura de Rose é a vitória da obstinação de alguém de quem todos, repito, incluindo cronistas políticos (e aqui também deixo uma autocrítica), já deveriam ter aprendido a jamais duvidar.
Rá-ré-ri…
Quem é do Espírito Santo e tem mais de 30 anos já completou na mente o jinglezinho.
Quem não sabe do que se trata, jogue no Google “jingle Rose”.
Rá-ré-ri melhor quem ri por último.
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