Ouvi, nos últimos meses, alguns pronunciamentos do vice-governador Ricardo Ferraço (MDB), que toma posse, nesta quinta-feira (2), como novo governador do Espírito Santo, no lugar de Renato Casagrande (PSB). Seguramente, mais de cinco.
Há alguns conceitos e valores que invariavelmente aparecem. Organizando as anotações de muitas coberturas, chegamos a um total de sete. De tão reiterados, podem ser considerados a base, os “sete pilares” do discurso público com que Ricardo Ferraço chega ao Palácio Anchieta – possivelmente, também, o mesmo com que chega às portas da campanha eleitoral. São eles:
- “Governo municipalista”
- “Responsabilidade fiscal não como um fim em si mesma”
- “Governo com investimento alto e dívida baixa”
- “Dar continuidade, mas acelerar o ritmo”
- “Capacidade de diálogo”
- “Governo humano”
- “Valores pessoais conservadores”
Vamos dar exemplos, um por um:
1. “Governo municipalista”
Disse Ricardo na quarta-feira (1º), na despedida de Casagrande no Estádio Kleber Andrade:
“Tenho o compromisso de manter essa característica de continuar fazendo um governo municipalista, que acredita num poder local, na liderança dos nossos prefeitos, vice-prefeitos, líderes comunitários… Um governo que não dá carteirada em ninguém, pois com a gente não tem esse negócio de ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo’, mas tem, sim, uma construção coletiva, feita de baixo para cima, com muita crença e com muita confiança.”
2. “Responsabilidade fiscal não como um fim em si mesma”
No evento no Klebão, disse Ricardo:
“Temos como premissa a responsabilidade fiscal. Mas entendemos que a responsabilidade fiscal não pode ser fim. Tem que ser meio para que a gente possa continuar fazendo os investimentos de que o Espírito Santo necessita”.
No dia 23 de março, no auditório do Palácio do Café, ao receber o anúncio de apoio da Federação União Progressista (UP), o sucessor de Casagrande discursou:
“Vamos continuar cuidando do equilíbrio das contas públicas, mas tendo nesse equilíbrio uma atividade-meio e não uma atividade-fim, porque a qualidade de vida, o bem comum, é o maior dos resultados que o governo pode colocar de pé.”
A mensagem é: usar bem o dinheiro público, cortar despesas inúteis onde for possível, mas poupar esse dinheiro para poder executar investimentos sociais.
3. “Governo com investimento alto e dívida baixa”
Em consonância com o item anterior – e com o discurso do próprio Casagrande –, ricardo tem repetido que o atual governo “desafia a matemática”.
Isso porque, segundo eles, o Governo do Espírito Santo tem conseguido combinar um alto nível de investimentos públicos com baixa dívida pública e poupança elevada.
“Nós estamos até desafiando a matemática. Encerramos 2025 fazendo o maior investimento da nossa história. Somos o estado que mais investe proporcionalmente à sua receita, à sua arrecadação. O grande estado de São Paulo, que tem o tamanho de um país, investe 10% do seu orçamento. Nós investimos aqui 20% do nosso orçamento”, comparou Ricardo, no anúncio do apoio do UP, emendando outro dado:
“Podem pensar assim: se o Estado foi o que mais investiu em 2025, vocês estão endividando o Estado. Nada disso! Entre os 27 estados da federação brasileira, nós somos o estado menos endividado. Temos dívida líquida negativa!”
O número absoluto, também sempre repetido por ele e Casagrande, é de R$ 4,8 bilhões em investimentos só em 2025 (o equivalente a 20% da receita do Estado no ano).
4. “Dar continuidade, mas acelerar o ritmo”
Na despedida no Kleber Andrade, Casagrande até brincou, mencionando “o pique do Ricardão”…
“Continuidade não é continuísmo”, disse Ricardo, no anúncio do UP. Ele tem reiterado o compromisso de manter o ritmo do governo que herda de Casagrande e, naquilo que for possível, até acelerar a velocidade de projetos e investimentos.
5. “Capacidade de diálogo”
Assim como Casagrande, Ricardo sempre enfatiza a “capacidade de diálogo” como “marca” do atual governo. É um ponto repetido à exaustão. A ideia é fazer um contraponto ao estilo de gestão atribuída a potenciais adversários.
“Somos exemplo na capacidade de conversar, de dialogar, porque tenho dito e repetido que esse tempo do ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo’, isso já acabou. O que se estabelece nos dias atuais é a capacidade de você convencer no diálogo e no aprendizado constante com cada uma das capixabas e com cada um dos capixabas”, discursou Ricardo, durante o anúncio do UP.
Uma semana antes, na assinatura da “Lei da Moda” para o polo têxtil capixaba, o vice-governador afirmou que o governo não acredita no “autoritarismo” e “não impõe nada a ninguém”.
6. “Governo humano”
Para além dos números e resultados – sempre frisados por ele –, Ricardo tem buscado destacar a “dimensão humana” do atual governo.
“E não nos esquecemos de uma dimensão fundamental que é a dimensão humana. A dimensão de você fazer com que as pessoas se sintam pertencentes a um projeto que se esforça muito para não deixar ninguém pra trás. Por isso terminamos o ano de 2025 com a menor taxa de desemprego da nossa história”, disse ele, no anúncio do UP.
7. “Valores pessoais conservadores”
Ricardo é um político declaradamente de direita. Seu discurso segue a linha de buscar evitar a eleição estadual ser tragada pela disputa ideológica nacional. Mas ele não deixa de demarcar, sempre que possível, seus “valores pessoais conservadores” (mais identificados com o eleitorado de direita e, principalmente, com o eleitorado cristão). Foi o que fez, por exemplo, no anúncio de apoio do UP:
“Assumo com todos vocês e com todas vocês, publicamente, o compromisso de manter o Espírito Santo longe dessa ‘brigalhada ideológica’ que nunca botou comida na mesa do povo, que nunca gerou uma oferta de emprego e de trabalho. Mas o fato de eu manter o Espírito Santo fora dessa ‘brigalhada’ não significa dizer que eu não tenha princípios. Eu tenho princípios”.
Ele exemplificou:
“Eu sou pela liberdade econômica, eu sou pela liberdade de expressão, eu sou pelo respeito à vida desde a sua concepção, eu sou pelo respeito às famílias do nosso estado do Espírito Santo”.