Na tarde de 2 de abril, Ricardo Ferraço (MDB) tomava posse como governador do Espírito Santo. No mesmo instante, a 4 quilômetros de distância, diante da sede da Prefeitura de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos) despedia-se simbolicamente do cargo de prefeito – oficialmente transmitido por ele a Cris Samorini (PP) dois dias depois. Cercado por servidores da prefeitura, o então prefeito fez um discurso emocionado aos apoiadores, à porta do seu carro, parado bem em frente ao prédio oficial: um modelo popular e antigo da Fiat, pequeno e com motor modesto.
Em seguida, ao lado da mãe e da esposa, Paula de Pazolini, o pré-candidato a governador entrou no singelo automóvel da montadora italiana, deu a partida e se foi. Começou a pôr em marcha, ali, uma estratégia eleitoral: a de apresentar ao eleitorado capixaba a imagem de um jovem governante que viria e seria “do povo”; um homem simples, “gente como a gente”. A cena, é óbvio, foi calculada. E devidamente “roteirizada” para as redes sociais.
Pazolini deixou a Prefeitura de Vitória para acelerar em direção a outra estrada: a via pré-eleitoral. Desde o começo de abril, está 100% no “modo pré-candidato”. Livre dos compromissos inerentes ao mandato de prefeito e licenciado das funções como delegado da Polícia Civil, Pazolini, literalmente, tem se movimentado bastante.
Mas como tem sido exatamente a pré-campanha do ex-prefeito até aqui? Aonde é que ele tem ido? Quem o tem acompanhado? Com quem tem se reunido e articulado? Qual é o discurso eleitoral que ele já vem testando nas ruas e nas redes sociais?
Para responder a essas perguntas, analisamos detidamente o feed de Pazolini em seu perfil oficial no Instagram ao longo do mês de maio. Nos 31 dias do mês, o ex-prefeito fez 50 postagens, com média de 854 curtidas.
Assim como seu carro popular, a estratégia de Pazolini até agora também está no “modo Fiat”: Feiras, Interior, Articulações e Teasers (isto é, aperitivos) do que provavelmente será o seu discurso de campanha eleitoral.
Abaixo, explicamos melhor ao leitor cada item dessa sigla e como cada parte se integra à estratégia maior estabelecida pelo pré-candidato com os seus estrategistas de campanha.
F de Feiras: popularizar o candidato
Logo que deixou a prefeitura, Pazolini sofreu o impacto, até certo ponto esperado, do inevitável “efeito gangorra”: enquanto ele ficou sem mandato – e, portanto, sem a visibilidade proporcionada pelo cargo de prefeito de Vitória –, seu principal adversário na disputa simplesmente ascendeu ao cargo político mais importante e poderoso do Espírito Santo.
Ao se tornar governador do Estado, Ricardo Ferraço herdou, de Renato Casagrande (PSB), não apenas o cargo, mas o poder da caneta e a maior vitrine político-eleitoral para qualquer ser humano em solo capixaba, com um portfólio de entregas quase diárias de Muqui a Mucurici, na Grande Vitória e pelo interior.
Nesse sentido, pelo menos neste momento, a luta de fato é assimétrica… Mas são as regras do jogo, conhecidas previamente por todos. Como mandava a legislação eleitoral, um precisou abrir mão do cargo de prefeito, enquanto o outro assumiu a máquina pública estadual.
Sem a máquina municipal nas mãos – muito menos a estadual –, Pazolini tem buscado meios de compensar essa desvantagem. Como? Rodando pelo Estado de domingo a domingo. O fato de não ter mandato também lhe confere uma vantagem: a de ter todo o tempo livre do mundo para se dedicar integralmente à pré-campanha, incluindo o bom e velho “corpo a corpo”, isto é, o contato direto com os potenciais eleitores.
Para isso, uma das estratégias escolhidas é umas das mais clássicas possíveis: percorrer intensamente feiras livres. No Instagram do ex-prefeito, há o quadro “Na Feira com Pazola”. Ele talvez já possa reivindicar a quebra de algum recorde aqui…
Só em maio, o ex-prefeito fez nada menos que 17 posts englobando caminhadas por 19 feiras livres diferentes na Grande Vitória. Acreditem: em algumas delas, no mesmo mês, ele chegou a passar mais de uma vez. Nós nos demos o trabalho de contar. Foram, precisamente…
. 7 em Vila Velha: Alvorada (2x), Praia de Gaivotas (2x), Cobilândia (2x), São Torquato, Itaparica, Itapuã e Glória.
. 6 na Serra: Serra Sede (2x), Barcelona, Planalto Serrano, Feu Rosa, Nova Carapina II e Novo Horizonte.
. 5 em Vitória: Bairro República (2x), Gurigica, São Pedro, Santo Antônio e Jardim Camburi.
. 1 em Cariacica: Jardim América.
Nas andanças, quase sempre, Pazolini é acompanhado por aliados próximos que também pretendem disputar algum cargo (no Poder Legislativo, no caso). O companheiro varia de acordo com o reduto.
Nas feiras de Vila Velha, por exemplo, o ex-prefeito costuma ser acompanhado pelo Coronel Ramalho, pré-candidato a deputado federal por seu partido, o Republicanos. Na Serra, um acompanhante assíduo é o deputado estadual Pablo Muribeca, da mesma sigla.
Em muitas dessas “feiregrinações”, quem também acompanha Pazolini é o ex-deputado Manato, que quer disputar o Senado pelo Republicanos. E acima de todos, quase sempre, os passos do ex-prefeito são seguidos por Erick Musso, presidente estadual do Republicanos e pré-candidato a federal.
Logicamente, o contato direto com o povo no cenário mais popular possível também contribui para reforçar aquela estratégia de apresentá-lo como um homem simples, informal e que dialoga diretamente com a população. “Tem que ir pra rua pra entender a dor do povo”, diz o ex-prefeito a uma senhora, em uma dessas muitas feiras e posts.
Em tom descontraído, ele aparece regateando preços na barraca de frutas: “Tem que ter um descontinho, ué! Ajuda o Pazolini”. “Me marca no stories, hein!”, pede à moça, após uma de centenas de selfies. “Eu trabalhei com sua mãe em Jucutuquara”, ouve ele de uma senhorinha que evoca uma distante intimidade com a família.
Seja na própria Capital, seja nas cidades vizinhas, o mote principal do ex-prefeito na interação com populares é o da “transformação de Vitória”. “Olha a Vitória de hoje. Transformamos a cidade! É a melhor cidade do Brasil!”, diz ele a um freguês qualquer de uma feira. Em outra, um gari o cumprimenta e lhe diz: “O que ’cê fez em Vitória ninguém nunca fez”.
Tudo isso sem contar a visita à Feira dos Municípios, no último sábado (30). É uma “feira” de outra natureza, que tem muito mais a ver com o próximo item da estratégia eleitoral traçada.
I de Interior: interiorizar a campanha
Como não é segredo, Pazolini é muito mais conhecido na Grande Vitória que no interior. Como delegado de Polícia, ele até passou por comarcas do interior (Aracruz, por exemplo, município de Erick Musso). Mas sua fama foi feita como chefe da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), em Vitória, e depois, é claro, como prefeito da Capital.
Para chegar ao Palácio Anchieta, Pazolini precisa aumentar seu recall fora da Região Metropolitana. Ciente disso, desde janeiro do ano passado, tem feito uma série de excursões por municípios do interior, quase sempre acompanhado por seus dois escudeiros: Erick e o deputado federal Evair de Melo (pré-candidato à reeleição pelo Republicanos). Este último, ao contrário dele, é bem mais popular no interior, desde que presidiu o Incaper, mais de uma década atrás.
Em maio, num único fim de semana, o inseparável trio passou por São Gabriel da Palha, Santa Leopoldina, Vila Pavão, Jerônimo Monteiro e Atílio Vivácqua.
No mesmo mês, os três também visitaram Afonso Cláudio, Santa Maria de Jetibá, Itapemirim, João Neiva e Domingos Martins.
Em algumas dessas visitas, Pazolini também é ladeado por outros aliados, como Manato ou o deputado estadual Alcântaro Filho (Republicanos), pré-candidato à reeleição na Assembleia.
A de Articulação: expandir as alianças
Nessas idas ao interior, Pazolini faz muito corpo a corpo, interage com crianças, prova comidas típicas… mas não é só isso. Parte do tempo também é dedicada a reuniões de articulação, com líderes políticos e empresariais de cada região, a fim de expandir suas alianças eleitorais.
Um exemplo foi dado no começo de maio: em Itapemirim, numa espécie de minicomício não declarado (o que os dois lados estão fazendo), Pazolini reuniu vários ex-prefeitos e ex-vice-prefeitos de cidades do litoral sul capixaba. E calibrou o discurso de campanha, batendo principalmente em duas teclas: a da honestidade e a da já mencionada pretensa “proximidade com o povo”.
“É a voz dos 78 municípios! É a voz dos capixabas, que querem ver um gestor entrar e sair com as mãos limpas, como nós fizemos na cidade de Vitória”, disse ele.
“É por isso que eu gosto de andar do lado do povo. É por isso que vocês olham todo dia: tá na feira, tá na comunidade, tá no alto do morro, tá na área mais simples, tá na periferia… Tá sentindo a temperatura do povo. Pra ser gestor, pra ser governante, pra exercer mandato eletivo, tem que amar cuidar de gente.”
T de Teasers do discurso eleitoral: moldar a imagem
Os poucos fragmentos de discursos de pré-campanha de Pazolini disponíveis nas redes sociais já não deixam dúvida quanto à intenção de investir numa estratégia e numa personalidade: a da “luta de Davi contra Golias”; a do candidato humilde (que anda num carrinho popular), “representante genuíno do povo”, desafiando as “elites políticas e econômicas do Espírito Santo” (supostamente representada pelo candidato adversário).
Na já citada reunião em Itapemirim, o ex-prefeito de Vitória disse o seguinte:
“Os grupos econômicos, a elite política, os poderosos do Espírito Santo tentaram nos isolar! Tentaram dizer que Pazolini era uma única voz! Mas vocês não nos deixaram sozinhos! O povo capixaba não deixou Pazolini sozinho, porque não é o movimento de uma única pessoa, porque não é o sonho de uma única pessoa! Não é mais uma única voz!”
Erick Musso endossou, na mesma linha:
“Os poderosos e a máquina pública que funciona diuturnamente pra tentar derrotar o povo do Espírito Santo, porque não estão preocupados com Marataízes, com Itapemirim, com Kennedy, com Piúma… Estão preocupados com seus próprios interesses. E é isso que amedronta eles, porque a sua candidatura não nasce a portas fechadas, não nasce de grupos econômicos, não nasce de grupos políticos. Sua candidatura nasce e emerge do coração do povo, que quer mudança e quer a abertura de um novo ciclo de desenvolvimento social e econômico.”
Já na última segunda-feira (1º) – extrapolando em um dia nosso recorte –, Pazolini protagonizou uma reunião pré-eleitoral em Bairro República (enquanto Ricardo protagonizava outra, também em Vitória, no bairro Jardim Camburi). O ex-prefeito da Capital discursou para os apoiadores:
“A turma da política antiga, a turma da velha política, as elites políticas e econômicas deste estado não querem aceitar que um neto de taxista e costureira chegue ao Palácio Anchieta!”
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Os posts mais curtidos
Os posts de Pazolini em maio tiveram, em média, 854 curtidas. Mas houve alguns picos. O post mais curtido, com 4.402 likes, foi feito por ele no dia 21. Para celebrar o próprio aniversário, Pazolini foi almoçar no Restaurante Popular de Vitória, onde, após a refeição, cantou parabéns com apoiadores (como Erick e o casal Manato) e cortou um bolo com decoração bastante simbólica.
Logicamente, a inusitada comemoração serviu para reforçar a imagem de “homem do povo”, com um detalhe adicional: como registrado no vídeo, Pazolini chega ao restaurante supostamente de ônibus, descendo de um Transcol (pela porta da frente). Quem pega ônibus percebeu algo diferente.
Já o segundo post mais curtido, com 2.268 likes, foi feito no dia 10 de maio. O pré-candidato desejou feliz Dia das Mães para a mãe dele, Dona Margarida, e para a esposa, Paula de Pazolini, incluindo fotos com cada uma e com a filha do casal.
Slogans e paleta de cores
Pazolini e Erick têm repetido dois slogans: “Bora, Espírito Santo!” e “Vamos construir um novo tempo para o Espírito Santo”.
Na escolha das roupas, o ex-prefeito quase sempre usa camisetas de meia manga com as cores da bandeira capixaba (azul ou cor-de-rosa). Uma delas, a que “já anda sozinha”, contém o dizer “Trabalha, confia, coopera e poca”.
Quem curte as postagens de Pazolini
. Cris Samorini
. Erick Musso
. Evair de Melo
. Alcântaro Filho
. Pablo Muribeca
. Coronel Ramalho
. Iuri Aguiar (presidente estadual do partido Novo)
. Bruno Lorenzutti (ex-presidente da Câmara de Vila Velha e pré-candidato a deputado estadual pelo Republicanos)
. Léo Formigão (secretário de Serviços de Vitória)
. Delegado Romualdo Gianordoli (pré-candidato a deputado estadual pelo Republicanos; “o homem que prendeu Marujo”)
. José Carlos da Fonseca Junior (ex-presidente estadual do PSD e grande aliado do ex-governador Paulo Hartung, que já declarou apoio a Pazolini aqui)
. Léo de Castro (ex-presidente da Findes e aliado de Cris Samorini)
. Geovana Quinta Costalonga (sobrinha do ex-prefeito cassado de Presidente Kennedy Reginaldo Quinta e prima de Amanda Quinta, ex-prefeita do mesmo município. Geovana chegou a acumular o comando de secretarias importantes na gestão do tio em Kennedy: Assistência Social, Educação e Habitação. Foi candidata a deputada federal pelo Republicanos em 2022)
Geovana não falha: curte absolutamente tudo o que Pazolini publica.


