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As grandes diferenças já visíveis entre Ricardo Ferraço e Casagrande

Como demonstram algumas das primeiras evidências, nem em todos os aspectos o rumo dado por um será mantido pelo outro… ainda que o principal não se altere

Escrito por Vitor Vogas

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Renato Casagrande , governador do ES, ao lado do vice-governador Ricardo Ferraço.

Em discursos recentes, na presença do seu antecessor no cargo, Ricardo Ferraço (MDB) tem dito que sempre chamará Casagrande de “nosso governador”. Além de uma grande deferência ao seu maior parceiro político e aliado eleitoral, é uma maneira justamente de marcar a união inextricável entre eles. Mas, discursos à parte, o governador agora é ele mesmo: Ricardo de Rezende Ferraço, com suas ideias, ideais, idiossincrasias e o poder de colocá-las em prática.

Os dois são os maiores aliados? São. Mas não são grudados nem politicamente siameses. O ex-governador e o atual têm história e pensamento políticos diferentes. E algumas dessas diferenças já apareceram nas primeiras semanas do governo de Ricardo Ferraço, especificamente nas áreas da segurança pública e da proteção aos direitos humanos.

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A diferença mais evidente reside no terreno ideológico: Ricardo está muito mais à direita que Renato Casagrande. Não é preciso nos estendermos muito aqui. Podemos resumir assim: Ricardo (voto Casanaro em 2022) está mais próximo de Bolsonaro que de Lula; Casagrande, eleitor do petista em 2022, mais próximo de Lula que de Bolsonaro.

Não que fosse necessário tirar a teima, mas já tive a oportunidade de participar de uma entrevista com Casagrande, no fim de 2019, na qual ele topou submeter-se a um “jogo”: uma rodada de perguntas bem diretas em que só valia responder opção A ou B, sem tergiversar nem subir no muro da coluna do meio. Diante da pergunta direta “direita ou esquerda?”, Casagrande não titubeou em responder “esquerda”. Foi sincero. Qualquer resposta diferente seria negar sua história e suas origens.

Há décadas, Casagrande é o maior líder no Espírito Santo do Partido Socialista Brasileiro (PSB), um dos principais partidos de centro-esquerda do país e um dos maiores aliados do PT nacionalmente. Foi vice de Vitor Buaiz. Seus dois últimos governos tiveram muito de pensamento liberal aplicado à economia (visão mais associada à direita), como na preocupação ortodoxa com a responsabilidade fiscal e o equilíbrio das contas públicas, a busca por PPPs etc. Mas o pensamento de centro-esquerda, no que se refere ao papel do Estado e a políticas sociais, por exemplo, está no DNA do ex-governador.

E o que dizer de Ricardo Ferraço? Ora, por compreensível estratégia eleitoral, desde o ano passado, o grande parceiro de Casagrande tem evitado a todo custo responder objetivamente qual é sua posição (ou autodefinição) ideológica, alegando que tais “rótulos” estão ultrapassados. O sucessor de Casagrande não quer deixar a disputa estadual ser tragada ou arrastada pela polarização ideológica nacional. Ao que tudo indica, fará o que for possível para ater o debate ao Espírito Santo.

Assim parece que, neste momento, nem sob tortura, Ricardo dirá “sou de direita”. Mas, se topasse se submeter àquele mesmo “jogo” de A ou B realizado com Casagrande, a opção só poderia ser essa. Qualquer resposta diferente seria negar sua história e suas origens. No corpo político de Ricardo, não há uma só célula de esquerda. Simplesmente não está em seu DNA.

São corpos e mentes diferentes. Dois exemplos palpáveis provam isso.

Sai Direitos Humanos; entra Segurança Pública

Conflitos envolvendo invasão ou ocupação de terras, no campo e na cidade, passaram a ser tratados como questão de segurança pública pelo Governo do Espírito Santo. Em uma das mais importantes mudanças de regulamentação e concepção, até agora, em relação ao governo Casagrande, Ricardo promoveu mudanças robustas na Comissão Estadual de Prevenção e Conciliação de Conflitos Fundiários.

Encarregado de realizar a mediação entre as partes e garantir o cumprimento de ordens de reintegração de posse sem emprego da violência, o órgão passa a ser coordenado pela Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp). Desde 2019, quando passou a atuar, a comissão era coordenada pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos (SEDH), que, na prática, foi quem criou o colegiado.

Durante os dois últimos governos inteiros de Renato Casagrande, o formato original foi seguido, com o colegiado mantido sob a coordenação da então secretária de Direitos Humanos, Nara Borgo (filiada ao PSB de Casagrande desde 2022).

Em 16 de abril deste ano, duas semanas após tomar posse, Ricardo Ferraço exonerou Nara Borgo e a substituiu pela também advogada Marcela de Azevedo Bussinguer Conti. Foi a única secretaria cuja titular foi substituída não por motivo de força maior, mas por decisão pessoal do novo governador.

Agora, a coordenação da comissão é oficialmente transferida da SEDH para a Sesp, por meio de decreto do sucessor de Casagrande, publicado na quinta-feira (14) no Diário Oficial do Estado.

O decreto revoga o anterior, de Casagrande, que instituiu oficialmente a comissão, em 2022.

Transformar facções criminosas em “organizações terroristas”

No dia 27 de abril, Ricardo Ferraço defendeu publicamente que facções do crime organizado sejam tipificadas como terroristas no Brasil.

Ricardo marcou sua posição durante a abertura do encontro nacional “Brasil Sob Ameaça – Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado”, realizado no Espaço Patrick Ribeiro, em Vitória. De acordo com matéria publicada no site oficial do governo, “o governador defendeu a atualização da legislação brasileira para que as ações de facções criminosas passem a ser tipificadas como terrorismo, permitindo uma resposta mais rigorosa e eficaz do Estado”.

“O crime organizado pode não ter motivação ideológica nem religiosa, mas pratica o terrorismo em sua concepção mais objetiva: intimida, paralisa e desafia o Estado brasileiro. Defendo que possamos construir e aprovar uma legislação que reconheça o que chamamos de Terrorismo Criminal Organizado”, afirmou o governador, em sua fala no evento.

Casagrande, por sua vez, indagado sobre o tema pela coluna, fez uma ressalva a essa proposta: para ele, há o risco de que a concretização da mudança defendida por Ricardo dê margem para interferência externa no Brasil.

De forma mais específica, o ex-governador teme que eventual mudança na legislação penal brasileira abra brecha para que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, resolva interferir no território nacional, a pretexto de combater “organizações terroristas” (como já tem feito em outras partes da América Latina).

“A única ressalva que faço é a ressalva da interferência americana no Brasil. Isolada essa questão da interferência americana, acho que a gente pode de fato aprofundar esse debate com relação ao enquadramento das organizações criminosas. Nós temos hoje uma ameaça no mundo, que é o Trump. O Trump se julga no direito de fazer intervenções nos países. Então, faço essa ressalva. Mas, resolvida essa questão, acho que é possível, sim, a gente aprofundar o tema”.

É a mesma preocupação expressada pelo governo Lula, desde que essa discussão ganhou corpo, em novembro do ano passado.

Conclusão

Desde antes da transição de governos, Ricardo Ferraço tem reiterado, como um mantra, seu compromisso inarredável de “manter o rumo e o ritmo” do governo Casagrande e, na medida do possível, acelerar os projetos e investimentos.

Como demonstram algumas das primeiras evidências, nem em todos os aspectos o rumo dado por um será mantido pelo outro… ainda que o principal não se altere.

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