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Ricardo Ferraço: esquerda no poder ou 1º governador de direita do ES em décadas?

“Precisamos juntar a direita capixaba pra que a gente possa tirar a esquerda do Palácio Anchieta!”, exortou o presidente do Rep-ES e articulador eleitoral de Pazolini

Escrito por Vitor Vogas

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Renato Casagrande e Ricardo Ferraço; Lorenzo Pazolini e Erick Musso
Renato Casagrande e Ricardo Ferraço; Lorenzo Pazolini e Erick Musso

Nas eleições gerais deste ano, a polarização ideológica nacional há de ter fortíssima influência sobre as disputas nos estados. Nesse contexto, pelo menos até agora, o governador Ricardo Ferraço (MDB) tem dado mostras de que pretende fazer o possível para minorar tal influência, fugindo de rótulos e evitando que o debate local, sobre o Espírito Santo, seja contaminado pela disputa nacional radicalizada.

Quanto ao ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos), mais enigmático sobre as próprias estratégias, ainda é cedo para dizer se pretende ou não explorar e trazer para a arena local a disputa entre direita e esquerda – em suas duas exitosas disputas a prefeito de Vitória, isso podemos dizer, ele não se valeu dessa estratégia.

O que podemos afirmar a esta altura é que o presidente estadual do Republicanos, Erick Musso, principal articulador da pré-candidatura de Pazolini ao Palácio Anchieta, não só pretende como já tem investido fortemente na estratégia de transpor para o Espírito Santo a polarização ideológica nacional e fazer do Estado mais um palco do duelo da direita com a esquerda.

Erick não é Pazolini nem responde necessariamente por ele, então seria prematuro afirmar que a campanha do ex-prefeito de Vitória de fato seguirá por aí. Mas o “procurador de Pazolini” já tem evidenciado um esforço em tratar o governo de Ricardo Ferraço como um “governo de esquerda”. Mais especificamente, em tachar o próprio Ricardo como um governador de esquerda.

“Precisamos juntar a direita capixaba pra que a gente possa tirar a esquerda do Palácio Anchieta!”, exortou o presidente do Rep-ES, em recente ato de pré-campanha.

Procurado pela coluna, Erick preferiu não responder se a referência é à pessoa de Ricardo. Mas nem precisa.

A fala é autoevidente e dá margem a algumas considerações. É preciso colocar os pingos nos is de “ideologia”, de “Ricardo”, de “Erick” e de “Pazolini”.

Em primeiro lugar, sucedendo o governo Casagrande, o governo Ricardo Ferraço é um governo de esquerda?

É um governo de coalizão. Uma coalizão bem abrangente, que inclui forças partidária e aliados de matizes ideológicos diversos. Estão ali algumas forças de direita e centro-direita (o PP, o União Brasil), há algumas forças de centro (como o próprio MDB) e há aquelas de esquerda e centro-esquerda (o PDT de Sérgio Vidigal e o PSB de Renato Casagrande).

Tanto o PDT como o PSB apoiam também a reeleição de Ricardo. Ao mesmo tempo, ambos apoiam a reeleição de Lula (PT) à Presidência da República.

O PSB reeditará a chapa presidencial com o PT, tendo Geraldo Alckmin como candidato a vice-presidente. Ricardo esteve em pelo menos dois grandes encontros estaduais do PSB, ao lado de Casagrande, no ano passado (em abril e dezembro). Em ambos, ouviu dos dirigentes socialistas declarações antecipadas de apoio à sua reeleição.

João Campos, Casagrande e Ricardo Ferraço
João Campos, Casagrande e Ricardo Ferraço

Sim, se a campanha estadual for assaltada pela polarização e pela radicalização ideológica, Ricardo poderá ter algum problema para explicar a eleitores de direita mais radicalizados o fato de querer se reeleger com o apoio de tais forças de esquerda.

E, se o Partido Liberal (PL) de Bolsonaro decidir formar uma “aliança de direita” com o Republicanos, apoiando Pazolini ao Anchieta, ficará bem mais difícil para Ricardo atrair o voto dos eleitores bolsonaristas mais apaixonados – e mais permeáveis ao discurso “quem não está conosco é de esquerda”. São pontos que requerem atenção.

Daí a se afirmar que Ricardo Feraaço lidera um “governo de esquerda”, vai uma considerável diferença…

Insisto: é um governo de coalizão, como, aliás, também foram os governos de seus antecessores. Um “governo de coalizão”, com amplitude da esquerda à direita, foi exatamente o que fizeram Casagrande e, destacadamente, Paulo Hartung, nos três governos de cada um, entre janeiro de 2003 e abril de 2026 (ambos com bons resultados).

Casagrande governou inclusive com o apoio do PT e a participação do partido de Lula em seu primeiro e terceiro governos (a exceção foi o segundo, de 2019 a 2022). Indo além, Paulo Hartung teve o apoio do PT em seus três mandatos no Palácio Anchieta. O ex-governador agora é apoiador declarado de Pazolini. Alguém dirá que Hartung é um “homem de esquerda” ou que fez “governos de esquerda” por ter tido o PT em seus governos?

Mas, acima de tudo, não nos parece razoável concluir que o governo atual é de esquerda porque, basicamente, não é liderado por um governador de esquerda. E aí passamos ao principal, que é a “catalogação da pessoa”.

Dizer que Ricardo Ferraço, o filho de Theodorico Ferraço, é um indivíduo, um homem público e um governador de esquerda é algo que não encontra amparo na realidade nem na trajetória do próprio, que já supera 40 anos. Ao longo dessa longa biografia política, não há nada, nem uma nota de rodapé, que confirme tal assertiva.

Ao contrário: ele sempre esteve posicionado do lado direito do espectro ideológico, desde os tempos em que ninguém se declarava de direita, mesmo porque quase ninguém dava grande importância a isso.

Se perguntarem a qualquer petista ou partidário de outro partido mais à esquerda se Ricardo Ferraço é “esquerdista”, a resposta possivelmente será uma risada de incredulidade com a pergunta.

Ora, estamos falando do senador que votou para impichar Dilma Rousseff em 2016, do relator da reforma trabalhista de Michel Temer em 2017, de um expoente do “voto Casanaro” em 2022, do homem que sempre conduziu sua vida pública, nos vários cargos exercidos, como um amigo do mercado e do alto empresariado capixaba – agindo quase como um procurador da pauta empresarial do Espírito Santo no Congresso, traduzida na agenda do movimento ES em Ação.

Não se trata de dizer se é bom, se é ruim, de fazer esse tipo de juízo de valor… Considerá-lo um homem de esquerda é, simplesmente, incorreto. Conceitualmente incorreto.

Aliás, um fato não devidamente destacado por ocasião da posse de Ricardo como governador, no dia 2 de abril: na opinião deste colunista, esta é a primeira vez, desde a primeira eleição direta para governador nos estertores da ditadura, em 1982, que o Espírito Santo é governado por um político genuinamente de direita.

É o primeiro governador de direita a ser empossado desde 1982, quando Gerson Camata foi eleito diretamente pelo voto popular. Camata, aliás, entre todos os governadores capixabas eleitos desde então, foi quem mais perto chegou de merecer a inscrição “de direita”, mas assim não se declarava, num tempo em que o MDB congregava e representava e esquerda na luta institucional contra a ditadura.

Ricardo não foi eleito pelo voto popular para ser governador. Foi eleito em 2022 ao lado (e na esteira) de Casagrande, como candidato a vice-governador, e assumiu graças à renúncia do socialista para ser candidato a senador.

Por isso, não podemos dizer que os capixabas já tenham elegido, por sufrágio universal, um governador de direita desde a redemocratização – o que constitui enorme paradoxo, em um estado consolidado nos últimos anos como “colégio eleitoral conservador”.

Não, não podemos dizê-lo… Ainda.

Supondo que a eleição para governador acabe ficando mesmo polarizada entre Ricardo Ferraço e Pazolini – tendência bastante plausível neste ponto do processo –, pelo menos uma afirmação podemos fazer desde já: o Espírito Santo, pela primeira vez, elegerá de fato um governador efetivamente de direita.

Os dois são de direita, afinal. Tanto Ricardo como Pazolini. Podem estar em pontos diferentes desse campo que se convenciona chamar de “direita”, mas que na verdade é uma floresta vasta, cheia de nuances. Mas, simplificando: sim, os dois são de direita.

Se isso se confirmar, teremos uma disputa entre dois representantes da direita, cada um à sua maneira.

O que disse Ricardo em janeiro de 2025

Em entrevista dada a esta coluna em janeiro de 2025, ainda no Portal ES360 – a mesma em que lançou a própria pré-candidatura a governador –, Ricardo defendeu a manutenção do modelo de “frentes amplas”, adotado por Hartung e repetido por Casagrande, o qual, segundo ele, tem dado certo no Espírito Santo neste século:

“Uma das coisas que deram certo no Espírito Santo foi a construção de frentes amplas para enfrentar desafios. Isso tem dado certo no Espírito Santo e tem produzido resultados”, disse o então vice-governador.

Vale a pena reproduzir, na íntegra, um fragmento de perguntas e respostas daquela entrevista:

Como o senhor se define ideologicamente? Centro? Centro-direita? Direita?

Acho que essas definições têm alimentado uma polarização que não tem feito bem à política brasileira, porque essas fronteiras não existem com essa precisão. Essa coisa virou antiquada.

Se o senhor for mesmo candidato, buscará fugir dessa questão de rótulos, categorias, classificações ideológicas?

Essa contaminação e essa polarização são incapazes de produzir uma melhora na vida das pessoas. E eu assisti agora, no último processo eleitoral municipal [em 2024], uma redução muito forte dessa polarização, que não produz emprego, não melhora o dia a dia das pessoas. Tem pessoas que preferem dormir com a cabeça cheia e a barriga vazia. Deveria ser o contrário. Então, eu e todo nosso movimento político, inclusive o governador, trabalhamos pensando naquilo que interessa na vida das pessoas. Essa polarização é uma cortina de fumaça para esconder insegurança, incompetência, falta de conteúdo e de resultado para oferecer às pessoas.

Em 2022, o senhor foi “voto Casanaro”. O MDB está no governo Lula, desde o início. Se o MDB ficar com Lula nacionalmente em 2026, o senhor acompanhará o partido na eleição presidencial ou poderá apoiar outro candidato à Presidência?

A minha direção será a dessa construção coletiva, desse movimento de que sou parte.

Terá muito mais a ver com o plano local?

O meu foco é o Espírito Santo. São os capixabas.

O que ele disse nesta semana, diante da mesma pergunta: como se define?

“Somos aquilo que nossa trajetória revela. Você é na política o que você é na vida privada. E o que a minha trajetória revela, em primeiro lugar? Sou um cristão, que trabalha pelos princípios e valores que são fundamentais para a preservação daquele ministério que é o mais importante para mim: o ministério da família. Sou uma pessoa que acredita na liberdade de expressão e na liberdade de mercado. Sou pela concepção da vida desde o feto. Não sei como você classifica uma pessoa assim. O rótulo, cada um faz uma interpretação, mas essa é a minha trajetória e esses são os meus valores e princípios”.

Com o PT, mútua repelência

Aí está uma diferenciação que Ricardo procurou demarcar: ao contrário de Hartung e Casagrande, ele fez questão de não ter o PT em sua coalizão governista. Como a rejeição entre eles é mutua, o Diretório Estadual do PT se adiantou e, antes mesmo de Ricardo tomar posse, o partido decidiu entregar os cargos de direção que ocupava sob Casagrande.

Adicionalmente, ao lado de muitos outros dirigentes estaduais do MDB, em março, Ricardo assinou uma carta pedindo à direção nacional do partido para liberá-los nos respectivos estados para apoiarem quem quiserem à Presidência.

Foi um antídoto para o caso de o MDB ficar na coligação de Lula. Os dois movimentos foram preventivos, para fugir da pecha que já ensaiam colar nele.

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