
Arnaldinho Borgo pratica corrida de rua. Correu algumas, literalmente, lado a lado com Renato Casagrande. Dizem que tem muito bom fôlego.
Desde que entrou com tudo na corrida eleitoral para ser candidato a governador (há exatamente um ano, ao se desfiliar do Podemos), Arnaldinho tem traçado um percurso irregular. Politicamente, o prefeito tem corrido em ziguezague. E pode ter chegado sem fôlego suficiente à reta final desta primeira e decisiva volta do processo eleitoral, cuja linha de chegada está ali, no dia 4 de abril.
Durante a campanha à reeleição, em 2024, Arnaldinho afirmou e reafirmou, em entrevistas gravadas e ao vivo, que não seria candidato a governador. De março de 2025 em diante, esforçou-se o quanto pôde para ser. Em julho do ano passado, sobre Casagrande e Ricardo Ferraço, declarou à coluna: “Acertamos, sob a liderança de Casagrande, que iremos caminhar unidos no processo sucessório do ano que vem”.
No começo de dezembro, Arnaldinho assumiu, “por cima”, a presidência estadual do PSDB – contrariando não só o governador, mas alguns aliados do governo, que ali já estavam alojados e perderam espaço no partido. Deputados e prefeitos do interior debandaram.
No dia 18 do mesmo mês, Casagrande escolheu oficialmente Ricardo como seu candidato à sucessão. Arnaldinho, então, descolou-se do Palácio Anchieta. Aproximou-se de um grupo adversário ao de Casagrande e Ricardo. Em fevereiro, firmou e afirmou aliança eleitoral com Lorenzo Pazolini, consagrada no desfile político de ambos, lado a lado, no Sambão do Povo. Casagrande se viu diminuído em público.
No dia 20 de fevereiro, em entrevista à coluna, Arnaldinho declarou que ele e Pazolini “com certeza” estariam no mesmo palanque e na mesma coligação no processo eleitoral: “Sim. Nós estaremos do mesmo lado”. Também afirmou àquela altura, categoricamente: “Tudo indica que o dia 4 de abril seja o meu último dia na condição de prefeito de Vila Velha”.
Mas, agora, nem tudo indica isso.
Ao longo do mês de março, surgiram sinais de dificuldades nessa aproximação com Pazolini. No meio político capixaba, a aliança já não é dada como certa. Desde 2 de março, os dois não são vistos mais juntos. Não se veem mais postagens em collab.
Neste momento, após tamanho empenho e tantas “mudanças de direção”, o prefeito de Vila Velha reavalia se vale mesmo a pena renunciar ao segundo mandato, até o dia 4, para buscar viabilizar uma incerta candidatura ao governo.
A decisão é atravessada por uma série de fatores, que vão muito além da eventual candidatura de Arnaldinho ao Palácio Anchieta.
O prefeito, antes de mais nada, precisa cumprir a sua parte no acordo com Aécio Neves, quando o presidente nacional do PSDB deu a ele a direção estadual: entregar uma chapa competitiva de deputados federais no Espírito Santo. É essa, mais que qualquer outra, a prioridade da cúpula nacional dos tucanos. Mas está muito difícil. Mais ainda sem a ajuda do governo.
Na atual formatação, a chapa do PSDB-ES corre o risco de nem atingir o quociente eleitoral. Até a reeleição de Victor Linhalis, o “deputado federal do Arnaldinho”, passa a ficar seriamente ameaçada. E a reeleição de Victor Linhalis é prioritária para o prefeito. Questão de honra para ele.
Não só porque Victor é uma das apostas do grupo liderado por Arnaldinho na eleição a prefeito de Vila Velha em 2028. Mas porque não conseguir reeleger seu “próprio deputado federal” passaria, ao mercado político, uma ideia de enfraquecimento…
A conversa de Arnaldinho e Victor com Aécio em Brasília, na semana passada, não teria sido das mais animadoras.
Neste cenário, no momento, restam a Arnaldinho três caminhos:
Caminho 1: renúncia e candidatura de risco
O prefeito renuncia mesmo ao cargo e vai para o risco. Mesmo com pouca estrutura de campanha – basicamente, o PSDB e a pequena federação do PRD com o SD –, ele tenta viabilizar a candidatura ao governo, desafiando Ricardo Ferraço e até, se for preciso, Pazolini, que dificilmente sairá do páreo para apoiar o prefeito de Vila Velha.
Com chapas modestas de deputados estaduais e federais, Arnaldinho contaria com uma tropa limitada de cabos eleitorais para dar sustentação à sua campanha. Teria poucos recursos do Fundo Eleitoral e pouco tempo de propaganda eleitoral no rádio e na TV.
Caminho 2: migração em bloco para outra sigla
Arnaldinho busca, urgentemente, “acoplar” a chapa de deputados do PSDB (com aliados como Victor Linhalis e Neucimar Fraga) em outro partido não alinhado ao Palácio Anchieta, como o PSD de Renzo Vasconcelos ou o Republicanos de Pazolini.
Seria uma engenharia política muito complicada. Ademais, representaria um descumprimento com Aécio.
No caso do Republicanos, apuramos que a ideia não está em discussão.
Caminho 3: recuo e ajuda do Palácio
Arnaldinho desiste de ser candidato, reaproxima-se do Palácio Anchieta e reabre um diálogo extremamente pragmático com emissários de Casagrande. Para salvar as chapas proporcionais do PSDB (e as chances de reeleição de Victor Linhalis), o prefeito pede ajuda ao Governo do Estado.
O Palácio Anchieta, então, desloca para o PSDB, até 4 de abril, aliados que hoje são pré-candidatos a deputado por outros partidos da base, como o Podemos, o PP e o União Brasil. As chapas proporcionais do PSDB ficam muito mais robustas. Arnaldinho cumpre a palavra dada a Aécio.
Nesse caso, é claro, Arnaldinho precisará voltar à frente governista “na humildade”… disposto a passar a se sentar no fundo do salão, ele que, até janeiro, tinha lugar cativo na primeira fila (ou até no palco).
Casagrande nunca lhe fechou completamente, de público, a porta para eventual retorno. Mas não o receberá com fogos. Político calejado, o governador sabe que uma eleição não se ganha com o orgulho intacto nem com o amor-próprio ileso. É preciso passar por cima de certos dissabores.
Para Casagrande e Ricardo, toda ajuda é bem-vinda, todo cabo eleitoral é útil… e Arnaldinho nunca deixou de ser, potencialmente, um dos cabos eleitorais mais valiosos nesse jogo. Ficando na Prefeitura de Vila Velha, poderá ser o fiel da balança em qualquer disputa equilibrada.
No tabuleiro de “War Político” aberto na mesa do gabinete do governador do Estado, Arnaldinho é peça fundamental para “fechar o cordão de isolamento” a Vitória (território de Pazolini), somando-se a Euclério Sampaio em Cariacica, Wanderson Bueno em Viana e Weverson/Vidigal na Serra. Essa sempre foi a estratégia eleitoral de Casagrande.
Mas, em caso de confirmação do regresso desse “filho pródigo” às portas do Palácio, o filho que foi correr (em ziguezague) o mundo não será recebido com banquete. Não depois de fevereiro, do Carnaval de Vitória, do trio elétrico em Castelo, da saída de Cael Linhalis do PSB…
Se decidir seguir no cargo, Arnaldinho terá mais 33 meses para se consolidar, quiçá, como “o melhor prefeito da história de Vila Velha”.
E estará prontinho na fila, esperando a eleição para governador de 2030.
Lei da Física
Quem corre em ziguezague, em vez de correr em linha reta, percorre uma distância maior. E gasta mais energia.
Adendo
Na verdade, há também uma quarta via: a da surpresa e do imponderável. De 2024 para cá, no cenário político capixaba, Arnaldinho se estabeleceu como o mestre das reviravoltas. Já não será nenhuma surpresa se ele voltar a surpreender.

