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“Janja da Silva falou”: a mensagem deixada pela primeira-dama no ES

Se “a bandeira é vermelha”, a pílula, não; “Não deixem nossos filhos tomarem a pílula vermelha”, exortou a esposa de Lula

Escrito por Vitor Vogas

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Janja da Silva e Margareth Menezes, em Aracruz. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Janja da Silva e Margareth Menezes, em Aracruz (21/05/2026). Foto: Ricardo Stuckert/PR

“Inibida”, segundo Lula, no início do atual governo, a cantora Margareth Menezes não dava nem “bom dia” quando se tornou ministra da Cultura, tamanha sua timidez entre os colegas, conforme relatou o presidente. Mas a ministra se soltou no cargo. Tanto que, nesta quinta-feira (21), quebrou o protocolo duas vezes, durante a cerimônia principal da Teia Nacional dos Pontos de Cultura, no Sesc Praia Formosa, em Aracruz, no Espírito Santo.

A solenidade contou com a presença do próprio Lula, de outros ministros de Estado e de outras autoridades federais e estaduais.

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A primeira “quebra de protocolo” de Margareth, como ela mesma chamou, foi ao cantar, à capela, a canção “Disparada”, em homenagem a Lula. O clássico da MPB, composto por Geraldo Vandré e consagrado na voz de Jair Rodrigues, foi entoado pela ministra no palco de um auditório lotado de apoiadores do presidente – dando certo ar de “showmício” à cerimônia.

A segunda “quebra de protocolo” foi ao chamar a primeira-dama Janja da Silva para falar de improviso. Em breve discurso, Janja centrou-se no combate à violência contra a mulher, causa que ela tem encampado como prioritária.

Um dos grandes objetivos do evento em Aracruz é o fortalecimento e a conexão entre os Pontos de Cultura – hoje, mais de 16 mil certificados pelo Ministério da Cultura e espalhados pelo Brasil. Janja afirmou que a discussão sobre o combate à violência contra as mulheres e aos feminicídios não pode deixar de ser feita nesses núcleos de produção cultural.

“A gente precisa muito falar sobre isso. Lá no Ponto de Cultura, além de ser um lugar onde a gente vai ter aula, falar de música, de literatura, de arte, a gente também precisa transformar corações e mentes dos nossos companheiros, dos nossos filhos, dos nossos pais. A gente precisa falar que a nossa vida, Margareth, importa”, disse a primeira-dama, ovacionada neste ponto.

“O presidente Lula tem falado muito que a gente precisa transformar a cultura machista da nossa sociedade. E talvez a própria cultura que vocês fazem possa ser um braço importante para a gente dar esse passo decisivo para transformar essa triste realidade que a gente vive hoje no Brasil, mostrando pros nossos filhos que aquilo que eles veem na internet não pode acontecer. Não deixem eles tomarem a pílula vermelha.”

A expressão “pílula vermelha” (do inglês red pill) costuma ser associada a grupos e discursos, difundidos na internet, ligados ao machismo e à rejeição de pautas de igualdade de gênero.

Atualmente, é muito vinculada ao “movimento masculinista”: homens que afirmam ter “despertado” (como o personagem Neo, ao escolher a pílula vermelha, no filme “Matrix”) para uma visão crítica acerca das relações de gênero. Eles defendem que o movimento feminista teria invertido a “ordem natural” das coisas e que os homens precisam retomar o controle das relações.

“Esse não é o Brasil que nós queremos. Nós queremos nós, mulheres, vivas, junto dos homens e caminhando com o Brasil em desenvolvimento”, defendeu Janja.

“A gente precisa resgatar uma parte da juventude que está um pouco contaminada por esse discurso de ódio. A cultura pode ser uma boa porta de saída para esse mundo de ódio que hoje eles têm sido contaminados. Eu não acredito num país em que meninos de 12, 13 anos, cometem um estupro coletivo. Isso eles só podem estar aprendendo nas telas dos celulares, que colocam a mulher nesse lugar de submissão e subjugação”.

Ainda segundo Janja, os Pontos de Cultura também podem ser portas importantes de entrada e acolhimento para mulheres e meninas vítimas de violência. “Fiquem atentos aos sinais.”

Cena Política 1

No início do discurso, Lula advertiu o público de que falaria pouco. Havia preparado um discurso de 5 minutos, segundo ele.

“Quando vou pra reunião do G20, eu viajo por 24 horas pra falar por 4 minutos. E o Trump também. O Putin também. O Xi Jinping também. Todo mundo se acha muito importante. Então, se deixassem todo mundo falar de improviso, a reunião levaria um ano! Aprendi a selecionar melhor as coisas para tentar falar o menos possível com a maior precisão possível e com a maior capacidade de entendimento possível.”

Quem o conhece não acreditou, é claro.

Lula falou por 45 minutos (e quase todo esse tempo, de improviso). Ele até leu mesmo o tal discurso, mas só no final da fala. E, ainda assim, interrompeu a leitura para contar outra história recordada.

Cena Política 2

“No início, como ministra, ela era tão inibida! Hoje ela tá cantando até ‘Disparada’, emocionada e me emocionou”, disse Lula sobre Margareth Menezes. E contou a sua história com a canção:

“Eu ia ter uma reunião com meus ministros. Levantei de manhã e falei para a Janja: tô com vontade de assustar os ministros. Tem uma sala lá chamada ‘Sala Suprema’, é assim que minha burocracia trata. É a sala de reunião ministerial. Pensei em chegar lá muito sério, pegar o microfone e falar assim: ‘Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar! Eu venho lá do Sertão e posso não lhe agradar!”. Eu acho que muitos ministros iam tremer. Acho que ia até dar dor de barriga!”, contou Lula, arrancando gargalhadas da plateia.

“Aí eu resolvi não fazer porque, se tivesse um infarto na reunião ministerial, eu seria responsabilizado!”

Lula chamou “Disparada” de “uma das obras-primas que este país produziu dentre tantas obras-primas”.

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