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O que levou Ricardo Ferraço a dizer não a convite de Lula

Tomando as eleições como pano de fundo, analisamos aqui os porquês da decisão do governador de não comparecer a evento ao lado de Lula no ES

Escrito por Vitor Vogas

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Lula e Ricardo Ferraço
Lula e Ricardo Ferraço

To be or not to be beside Lula? Estar ou não estar ao lado do presidente, não (tecnicamente) em um palanque eleitoral, mas no palco de uma solenidade oficial do Governo Federal realizada no Espírito Santo? O governador Ricardo Ferraço (MDB) respondeu “não”, nesta quarta-feira (20), a esta pergunta.

Não é pouca coisa. Não é algo corriqueiro, trivial. O presidente da República, autoridade máxima constituída de mandato no país, vem ao Espírito Santo em compromisso oficial. O governador da unidade federada é oficialmente convidado pelo Ministério da Cultura a participar da solenidade, no solo do território governado por ele. E declina do convite formalizado pelo Governo Federal.

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A decisão do governador Ricardo Ferraço de não comparecer ao evento em Aracruz, ao lado de Lula, na manhã desta quinta-feira (21), é tão importante que merece uma análise detida, para além da justificativa oficial apresentada pelo chefe do Poder Executivo Estadual.

Em nota enviada pela assessoria do Palácio Anchieta, Ricardo é bem pouco específico. Em primeiro lugar, alega, entre parênteses, que a visita de Lula foi “comunicada com prazo muito reduzido”. Na última quinta-feira (14), a reportagem do Portal Sim Notícias já noticiava a grande probabilidade de Lula visitar o Espírito Santo nesta quinta (21) para participar da Teia Nacional dos Pontos de Cultura. Tempo mais que hábil para um “save the date”, se houvesse profundo interesse em comparecer.

Em segundo lugar, de maneira um tanto vaga – sem citar um compromisso concomitante –, Ricardo afirma que, como governador, segue focado na agenda de trabalho e nas entregas: “Sigo concentrado nas agendas do Governo do Estado e nas entregas que estamos realizando para os capixabas, o que exige presença constante nas ações locais e trabalho permanente em favor do povo capixaba”.

Claro está que, se fizesse questão de estar presente, por mais requisitado que seja um governador, Ricardo teria encontrado tempo e espaço na agenda para estar em Aracruz nesta quinta. Dizendo-o francamente: ele não fez questão alguma de estar lá, ao lado de Lula. Ao contrário, fez questão de não estar. A questão que se impõe é: por quê?

A resposta começa na eleição que Ricardo tem pela frente e nas estratégias que o governador tem traçado para conseguir renovar seu mandato em outubro… uma estratégia que, definitivamente, não passa pelo PT. Aliás, uma estratégia que passa por passar o mais longe possível do presidente Lula e de seu partido político.

Do ponto de vista institucional, a presença do governador no evento seria de se esperar. Afinal, é um evento oficial, com a presença do presidente da República, com entregas importantes para municípios capixabas – incluindo 23 veículos de grande porte (entre vans e micro-ônibus), para transportar pacientes de cidades pequenas a centros maiores, de modo que possam realizar consultas, exames e tratamentos médicos.

Mas, do ponto de vista eleitoral, Ricardo tem evitado qualquer tipo de associação, inclusive visual, com o líder maior do PT. Não quer sair na foto com Lula. Eis o ponto-chave.

Caso se fizesse presente ao lado de Lula no evento da Teia de Cultura em Aracruz, por mais que sua presença ali fosse como representante do Estado, por mais que sua participação fosse meramente institucional, por mais que fizesse um discurso igualmente protocolar, ele correria o risco de cair em outro tipo de teia: a do PT.

Ou, para ser mais específico: poderia cair na teia das associações propostas por adversários com o Partido dos Trabalhadores. Mil câmeras estariam sobre eles. Qualquer sorriso ou gesto mais cortês, flagrado por uma das mil lentes, poderia dar munição a adversários para distorções, sugestões e insinuações de vínculos político-eleitorais entre ele e o líder máximo do PT. Munição farta nestes tempos em que imagens e narrativas são construídas diariamente na fantástica fábrica das redes sociais.

E ser vinculado ao PT e a Lula é tudo o que Ricardo não quer na antessala da sua campanha à reeleição.

“Vamos tirar a esquerda do poder”, disse, há duas semanas, em ato de pré-campanha, o ex-deputado Erick Musso, presidente estadual do Republicanos, partido de Lorenzo Pazolini.

Potencial adversário eleitoral de Ricardo, o ex-prefeito de Vitória é representante do campo conservador de direita e tem se aproximado do PL, partido bolsonarista, com quem ensaia aliança eleitoral no Espírito Santo. Também conservador de direita, Ricardo não quer se dar ao luxo de deixar que o “empurrem” para a esquerda na guerra de narrativas.

Antipetista, o filho de Theodorico Ferraço sempre esteve posicionado do lado direito do espectro ideológico, desde os tempos em que ninguém se declarava de direita, mesmo porque quase ninguém dava grande importância para isso.

Se perguntarem a qualquer petista ou partidário de outro partido mais à esquerda se Ricardo Ferraço é “esquerdista”, a resposta possivelmente será uma risada de incredulidade com a pergunta.

Estamos falando do senador que votou para impichar Dilma Rousseff em 2016, do relator da reforma trabalhista de Michel Temer em 2017, de um expoente do “voto Casanaro” em 2022, do homem que sempre conduziu sua vida pública, nos vários cargos exercidos, como um amigo do mercado e do alto empresariado capixaba – agindo quase como um procurador da pauta empresarial do Espírito Santo no Congresso.

Com o PT, mútua rejeição

Aliás, a rejeição ao PT é uma diferença importante que Ricardo logo procurou demarcar como governador: ao contrário de seus antecessores, Paulo Hartung e Casagrande (tendo sido vice de ambos), ele fez questão de não ter o PT em sua coalizão governista.

Como a rejeição entre eles é mutua, o Diretório Estadual do PT se adiantou e, antes mesmo de Ricardo tomar posse, no dia 2 de abril, o partido decidiu entregar os cargos de direção que ocupava no governo Casagrande. Do governo Ricardo Ferraço, o PT faz questão de não ser parte.

Adicionalmente, ao lado de muitos outros dirigentes estaduais do MDB, em março, Ricardo assinou uma carta pedindo à direção nacional do partido para liberá-los nos respectivos estados para apoiarem quem quiserem à Presidência.

Foi um pedido de salvo-conduto para o caso de o MDB ficar na coligação de Lula. Os dois movimentos de Ricardo foram preventivos, para fugir da pecha que oponentes já ensaiam colar nele.

Movimentos à direita

Além disso, com a caneta na mão, Ricardo já tem editado decretos que acentuam seu posicionamento à direita. Um deles causou a ira de movimentos sociais, partidos e outras forças políticas de esquerda no Espírito Santo.

Conflitos envolvendo invasão ou ocupação de terras, no campo e na cidade, passaram a ser oficialmente tratados como questão de segurança pública pelo Governo do Espírito Santo. Em uma das mais importantes mudanças de regulamentação e concepção, até agora, em relação ao governo Casagrande, Ricardo promoveu mudanças robustas na Comissão Estadual de Prevenção e Conciliação de Conflitos Fundiários.

Encarregado de realizar a mediação entre as partes e garantir o cumprimento de ordens de reintegração de posse sem emprego da violência, o órgão agora é coordenado pela Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp). Desde 2019, quando passou a atuar, a comissão era coordenada pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos (SEDH), que, na prática, foi quem criou o colegiado.

A mudança foi implementada por Ricardo após ele ter demitido a advogada Nara Borgo (PSB), militante histórica de movimentos de defesa dos direitos humanos e chefe da pasta correspondente durante os sete anos e três meses dos últimos dois governos de Casagrande. Foi a única secretária de Estado, herdada por Ricardo de Casagrande, e não mantida por ele.

Como ele mesmo se define?

Instado a se definir do ponto de vista ideológico, Ricardo, no início deste mês, respondeu assim à nossa pergunta:

“Somos aquilo que nossa trajetória revela. Você é na política o que você é na vida privada. E o que a minha trajetória revela, em primeiro lugar? Sou um cristão, que trabalha pelos princípios e valores que são fundamentais para a preservação daquele ministério que é o mais importante para mim: o ministério da família. Sou uma pessoa que acredita na liberdade de expressão e na liberdade de mercado. Sou pela concepção da vida desde o feto. Não sei como você classifica uma pessoa assim. O rótulo, cada um faz uma interpretação, mas essa é a minha trajetória e esses são os meus valores e princípios”.

Não foi às outras duas visitas de Lula

Em seu atual mandato, o presidente Lula já esteve no Espírito Santo outras duas vezes: em dezembro de 2023, para a inauguração da Rodovia do Contorno do Mestre Álvaro, na Serra, e em julho de 2025, para a cerimônia em Linhares que simbolizou o início de um programa federal de transferência direta de renda para reparação a atingidos pelo desastre de Mariana.

Nas duas oportunidades, Ricardo não compareceu. Mas foram situações bem diferentes. Como vice-governador, ele não precisava ir, a não ser que fizesse questão (o que não era o caso). Em ambas, o Governo do Estado esteve representado pessoalmente pelo então governador, Casagrande.

Consequências para o Espírito Santo?

Há, é claro, a hipótese de Lula ganhar a eleição para presidente e Ricardo também, para governador… isto é, de os dois se reelegerem. Nesse caso, Ricardo governará o Espírito Santo tendo Lula como presidente da República até o fim de seu governo, em 2030.

Esse “cano” agora no petista pode trazer problemas futuros no relacionamento institucional do Planalto com o Governo do Espírito Santo e, no limite, para o próprio Estado? É muito cedo para avaliar. Qualquer análise aqui nesse sentido seria precipitada.

Agora, contribuir para melhorar a relação, certamente isso não contribui… Lá no Palácio do Planalto, a ausência de Ricardo pode ser vista como uma descortesia… até porque ele é do MDB, partido de centro que não só dialoga bem com o PT como está, desde o início, no atual governo Lula, ocupando alguns ministérios.

Quem vai em nome do governo

O secretário estadual de Cultura, Fabrício Noronha (sem partido), participará não só do ato com Lula, mas de todo o evento em Aracruz, realizado ao longo da semana.

Chefe da pasta desde o início do Governo Casagrande II, em 2019, Noronha foi mantido por Ricardo… mas é mais próximo da esquerda.

Na última eleição a prefeito de Vitória, em 2024, o secretário apoiou abertamente João Coser (PT), enquanto Ricardo apoiou Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) – ambos, aliados de Casagrande. Deu Pazolini.

O próprio Casagrande também não comparecerá ao evento com Lula. Disse que já tinha compromisso no mesmo horário: reunião na AGU, em Brasília.

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