Rio Doce expõe desafio da segurança hídrica no Espírito Santo

Assoreamento, poluição e uso intensivo da água reforçam debate sobre preservação e acesso ao recurso

A água sustenta a vida, move a economia e garante a produção de alimentos. Ainda assim, enfrenta ameaças que vão da poluição ao assoreamento dos rios, passando pelo uso cada vez mais intenso dos recursos hídricos. O cenário reforça um alerta que mobiliza pesquisadores, gestores públicos e representantes da sociedade: garantir água de qualidade para as próximas gerações depende das decisões tomadas agora.

Este é o primeiro episódio de uma série de quatro reportagens especiais exibidas pelo SBT Espírito Santo, da TV Sim/SBT, sempre às terças-feiras. O primeiro capítulo foi ao ar nesta terça-feira (7) e mostra os desafios para garantir a segurança hídrica e preservar um dos recursos mais importantes para a vida.

Esse foi o principal debate do Encontro das Águas 2026, realizado no dia 30 de junho, no Sesc São Mateus. A iniciativa reuniu autoridades, especialistas, pesquisadores, representantes dos Comitês de Bacias Hidrográficas, universidades, setor produtivo e sociedade civil para discutir segurança hídrica, mudanças climáticas, gestão sustentável da água e políticas públicas voltadas à preservação desse recurso.

A discussão parte de um princípio simples: a água está presente em praticamente tudo. Ela faz parte da alimentação, da produção agrícola, da indústria, da tecnologia, das manifestações religiosas e da rotina das pessoas. Sem ela, não há desenvolvimento nem qualidade de vida.

Para o arcebispo metropolitano de Vitória, Dom Ângelo Mezzari, a preservação da água também passa por uma responsabilidade coletiva. “Hoje, analisando como nos ensinou o Papa Francisco, diante da emergência climática e do cuidado da criação, cuidar da criação é cuidar da humanidade. Pecar é agredir a natureza. É um pecado. Não fornecer ou não favorecer o acesso à água seria um pecado institucional, verdadeiramente. Aquilo que é bem para todos não pode ser apropriado por alguns”.

Segundo o arcebispo, conservar os recursos naturais é uma condição para garantir o futuro. “Uma das questões fundamentais da sociedade hoje é cuidar da natureza para que essa água brote, seja vinda dos céus ou das fontes que temos, mas seja também um sinal da partilha, da solidariedade. A conservação da água e o acesso à água para todos são questões fundamentais para o futuro da humanidade”.

O retrato do Rio Doce

O Rio Doce, um dos principais rios do Espírito Santo, simboliza os desafios da segurança hídrica no Estado. Durante uma navegação pelo curso d'água, foi possível encontrar trechos onde o assoreamento reduziu drasticamente a profundidade, dificultando a passagem das embarcações.

Quem acompanha essa transformação de perto relata preocupação. Um pescador que vive na região descreveu o cenário com tristeza. “Dá uma tristeza muito grande. Olha para baixo, só tem essa águazinha verde aqui. É o que dá para passar, que é o canalzinho.”

Ao comparar o Rio Doce de 1986 e 1987 com o cenário atual, o construtor de obra João Lucas Lemos afirma que o rio sofreu um intenso processo de assoreamento provocado pelo desmatamento. Segundo ele, a situação se agravou após o desastre de Mariana, o que aumenta a preocupação com o estado de conservação do principal rio capixaba.

Uso da água exige planejamento

Dados apresentados durante a reportagem mostram que cerca de 90% da água dos rios capixabas é destinada à agricultura. Depois aparecem o consumo nas residências e o uso industrial.

Para o diretor-geral do Instituto Jones dos Santos Neves, Antônio Ricardo Freisleben, compreender melhor os mecanismos de poluição é essencial para aperfeiçoar as políticas públicas. “A gente quer entender um pouco melhor como funciona esse mecanismo de poluição da água para conseguir refinar uma política, como, por exemplo, o Probacias, e ver em que medida o impacto dessa política vai conseguir adequar essa água ao consumo humano.”

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Embora a região da Bacia do Rio Doce conte atualmente com uma reserva hídrica considerada confortável, a vice-presidente da Bacia do Rio Doce, Dolores Colle, alerta que esse cenário depende da preservação dos recursos disponíveis. Segundo ela, as chuvas registradas no início do ano garantiram uma reserva acima do esperado, mas o consumo de água na região é intenso, principalmente pela agricultura, cuja demanda é fundamental para a produção agrícola e para o desenvolvimento regional.

Preservar hoje para garantir o amanhã

O diretor-geral do SAAE, Yoshito Fukuda, defende que o crescimento econômico deve caminhar ao lado da recuperação ambiental. “A gente não quer parar o desenvolvimento, mas o produtor rural precisa começar a plantar floresta no morro e preservar a mata ciliar.”

Para o governador Ricardo Ferraço, preservar a água é uma condição para o desenvolvimento do Espírito Santo. “Água é vida, água é tudo. Sem água não tem vida”, afirmou.

Ricardo Ferraço também defendeu que a sustentabilidade precisa continuar orientando as ações voltadas à gestão dos recursos hídricos. “Nós precisamos continuar trabalhando com princípios e valores pela sustentabilidade. Recurso hídrico não é tudo, mas é mais do que a metade do caminho na construção de um Espírito Santo desenvolvido, com bem-estar e qualidade de vida.”

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