O avanço da água do mar pelo Rio São Mateus já compromete a captação de água doce e ameaça o abastecimento no Norte do Espírito Santo. O fenômeno, conhecido como cunha salina, vem se intensificando nos últimos anos e expõe um problema que especialistas classificam como resultado da degradação das bacias hidrográficas e dos períodos prolongados de estiagem.
O tema é abordado no segundo episódio da série de quatro reportagens especiais do Encontro das Águas, produzida pelo jornalista e apresentador Tiago Américo e exibida pelo SBT Espírito Santo, da TV Sim/SBT, sempre às terças-feiras. Exibido nesta terça-feira (14), o capítulo mostra como a entrada da água salgada pela foz do Rio São Mateus afeta o abastecimento, apresenta iniciativas de preservação das nascentes e reúne relatos de moradores, pesquisadores e gestores sobre os desafios da segurança hídrica no Norte capixaba.
Salinização preocupa especialistas e moradores
Formado pelos rios Cotaxé e Cricaré, o Rio São Mateus abastece uma das principais regiões econômicas do Norte do Estado. Nos últimos dez anos, porém, a entrada da água do mar pela foz, em Conceição da Barra, passou a dificultar a captação e o tratamento da água destinada ao consumo humano e animal.
Para o diretor-presidente do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de São Mateus, Emerson Machado, o problema deixou de ser pontual e passou a fazer parte da rotina da população. “Ano após ano, infelizmente, a população de São Mateus vem sofrendo com essa questão da falta de água aqui, principalmente por isso, pela questão da cunha salina que tem entrado aqui e tem atrapalhado a captação de água.”
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Na avaliação de Emerson Machado, enfrentar o avanço da salinização exige ações que vão além da área urbana. Ele defendeu que a recuperação de nascentes e de áreas degradadas em toda a bacia hidrográfica faz parte da solução, destacando que são necessários projetos de grande porte e investimentos para transformar essa realidade. Segundo ele, a principal mudança deve começar pela preservação de toda a bacia, com foco na recuperação de nascentes e na restauração de áreas degradadas.
Um rio que guarda a memória da cidade
Às margens do Rio São Mateus, o guarda municipal Paulo Roque acompanha as mudanças no rio desde a infância. Neto de pessoas escravizadas, ele cresceu ouvindo as histórias da família e lembra que o curso d'água sempre fez parte da vida da comunidade. “Onde passou os navios, escravos, tudo passou aqui. Minha avó, minha mãe, lavava roupa, minha avó costurava, vivia disso”, conta Paulo.
As lembranças também carregam a história dos antepassados. “Sofri demais, o pessoal sofria demais. Tinha de trabalhar, mesmo, na hora certa. Se saía na hora certa, era uma coisa muito séria mesmo”, desabafa Paulo.
A relação da população com a água também mudou ao longo do tempo. Em um dos bairros mais antigos da cidade, uma nascente preservada voltou a ser procurada por moradores depois que a água salgada passou a comprometer o abastecimento.
“Antigamente, nós não tínhamos sal e nós íamos pegar água ali na biquinha, uma água que é 24 horas jogando água”, lembra Paulo. Outro relata que muitas pessoas recorreram à água disponível durante os períodos mais críticos. “Tem pessoa aí que não tem condição de comprar água, aí estava bebendo ela, aí fez muito mal. Tem gente aí que passava mal, mal, mal mesmo.”

Projeto prevê barragem no Rio Cricaré
O avanço da cunha salina levou o governo do Estado a estudar alternativas para reduzir os impactos sobre o abastecimento de São Mateus. Entre elas está a construção de uma barragem no Rio Cricaré.
Segundo o governador Ricardo Ferraço, o governo do Estado estuda a construção de uma barragem a montante de São Mateus, possivelmente no Rio Cricaré, entre os quilômetros 36 e 41. A proposta é estabilizar o fornecimento de água para consumo humano no município durante os períodos de estiagem, quando a água do rio se torna salobra em razão do avanço da cunha salina. De acordo com ele, o projeto está em andamento.
O governador acrescenta que a recuperação das bacias hidrográficas também faz parte das ações desenvolvidas pelo Estado para ampliar a segurança hídrica.
Uma nascente pequena e um rio essencial
A centenas de quilômetros dali, no município de Ponto Belo, uma pequena nascente dá origem ao Rio Itaúnas, responsável pelo abastecimento de mais de 100 mil pessoas no Norte capixaba. O local é cuidado pelo vaqueiro Felício da Costa, que há anos preserva a vegetação ao redor da fonte. “Na nascente sempre eu limpo. Quando tem muito mato, eu vou e tiro os matos tudo”, relata.
Para representantes dos comitês de bacias, proteger essas áreas significa garantir água ao longo de todo o curso do rio. “A importância da gente reter essa água, ter esse cuidado, é conseguir fazer o abastecimento humano e animal, que é o mais importante dentro da lei. A gente conseguir lá na foz realizar aquilo que a demanda necessita.”
Preservação é apontada como caminho
Os impactos da estiagem e da degradação ambiental tendem a se repetir se não houver intervenções permanentes, alerta um professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Alexandre Facco que desenvolve pesquisas sobre os rios do Norte capixaba.
“Não é algo que está acontecendo ontem. É algo que já vem de anos e anos e precisamos de ações concretas, porque vai se repetir, não só este ano com o El Niño mais forte, mas em outros momentos. Então temos que estar preparados”, pontuou o professor da Ufes.
Na avaliação do Diretor-Presidente, Fábio Ahnert, garantir água é também garantir desenvolvimento. “Sem água não tem desenvolvimento econômico, social, ambiental. Sem água você não tem cadeias produtivas, você não tem economia girando. Onde não há água, não há PIB.”
A série especial da TV Sim/SBT continua na próxima terça-feira (21), quando mostrará de onde vem a água que abastece a Região Metropolitana de Vitória e como Cachoeiro de Itapemirim tem atuado para preservar a bacia do rio que dá nome ao município.






