IBEF-ES
Do talão ao QR Code: o cheque na transição dos meios de pagamento
Foto: Monica Zarattini/Estadão
Foto: Monica Zarattini/Estadão

A história dos meios de pagamento acompanha o desenvolvimento da humanidade. Como afirma Mauricio Benvenutti em Audaz (2018), “o que levará a raça humana para frente será diferente do que a trouxe até aqui”. Ao longo do tempo, as sociedades passaram do escambo para moedas metálicas, papel-moeda e, mais recentemente, sistemas e moedas digitais. Essa evolução reflete a busca por transações mais eficientes e menores custos, como explica Carl Menger ao afirmar que os meios de troca surgem espontaneamente quando as pessoas passam a preferir instrumentos mais eficientes para realizar suas as transações.

Meios de pagamento referem-se às diversas modalidades e ferramentas utilizadas para realizar transações financeiras e efetuar compras, tanto no ambiente físico quanto no digital. Historicamente, o cheque foi uma peça fundamental do sistema financeiro. Trata-se de um título de crédito que atua como uma ordem de pagamento imediata emitida pelo titular de uma conta bancária. Na prática, o cheque funciona como uma ordem para o banco transferir fundos da conta do emitente para o beneficiário indicado.

A importância histórica do cheque ajuda a entender como os instrumentos financeiros acompanham as mudanças tecnológicas e institucionais da economia. O economista Murray Rothbard argumenta que novos tipos de mecanismos financeiros são criados precisamente para tornar as transações mais seguras, rápidas e eficazes. Essas entidades econômicas se desenvolvem de forma orgânica, em resposta à adaptação das pessoas às demandas do mercado.

A promulgação da Lei n.º 7.357, sancionada em 2 de setembro de 1985, representou um marco significativo na formalização do cheque como meio de pagamento no país. A legislação estabeleceu regras para sua emissão, circulação e compensação no sistema financeiro, fortalecendo a segurança jurídica e a confiabilidade do instrumento e permitindo sua ampla utilização nas transações comerciais no Brasil nas décadas seguintes.

Ao longo do século XX, especialmente antes da popularização dos cartões e dos pagamentos eletrônicos, o cheque tornou-se amplamente utilizado no Brasil. No entanto, seu uso caiu de forma expressiva nas últimas décadas. Segundo dados da Federação Brasileira de Bancos, cerca de 3,3 bilhões de cheques foram compensados em 1995, número que caiu para aproximadamente 137,6 milhões em 2024, uma redução próxima de 96%. Apesar do declínio, o instrumento ainda movimenta centenas de bilhões de reais por ano, mantendo relevância em nichos específicos.

Nesse contexto, chamou atenção a decisão do Banco Bradesco de deixar de emitir novos talões de cheque para clientes pessoa física e microempreendedores individuais a partir de dezembro de 2025. Segundo a instituição, a medida reflete a crescente preferência por soluções digitais, como transferências eletrônicas e pagamentos via Pix. Embora os cheques já emitidos continuem válidos e o instrumento ainda seja oferecido a alguns segmentos, o anúncio possui forte valor simbólico.

Ainda é cedo para afirmar se essa decisão será seguida por todo o sistema bancário. Como observa Benvenutti, “podemos questionar, discordar ou difamar o amanhã. Só não podemos ignorá-lo”. A evolução dos meios de pagamento mostra que instrumentos surgem, tornam-se relevantes e, com o tempo, dão lugar a alternativas mais eficientes. O cheque, por décadas símbolo de modernidade, hoje perde espaço para soluções digitais mais rápidas e acessíveis, refletindo a busca constante por conveniência, velocidade e segurança no sistema financeiro.

Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, bem como da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.


Sobre o autor

Foto: Divulgação

 

 

Gleiciane Kempim é analista de Operações e Negócios no Sicoob Central ES e Diretora Financeira do IBEF Academy.

Foto de IBEF-ES

IBEF-ES

O Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo (IBEF-ES) é a principal entidade que reúne empresários e executivos de finanças do estado. Com o compromisso de fortalecer o ecossistema financeiro, econômico e de gestão empresarial capixaba, une forças para gerar conhecimento, fomentar conexões e impulsionar entregas relevantes para o mercado.

Leia também

Para melhorar a sua navegação, nós utilizamos Cookies e tecnologias semelhantes.
Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Política de Privacidade