Além do Divã
Eliminação da Seleção Brasileira: esperança não basta!

A eliminação da Seleção Brasileira expõe um ponto desconfortável sobre nossa esperança: ela pode ser tanto potência quanto ilusão.

No futebol, a esperança funciona como vínculo afetivo. Ela mantém o torcedor conectado, mesmo quando os sinais já não sustentam o mesmo nível de expectativa. Ela protege a memória, preserva a identidade e mantém vivo um pertencimento que não se explica apenas por resultados. Sem ela, talvez nem houvesse torcida.

Mas o problema aparece quando a esperança deixa de ser atravessada pela realidade. Quando ela se cristaliza como expectativa que não se atualiza mesmo diante de repetidos sinais de desgaste. Nesse ponto, ela deixa de mobilizar transformação e passa a adiar o confronto com a realidade presente.

A eliminação não ensina que não devemos ter esperança. Ensina algo mais exigente: esperança, sozinha, não produz resultado.

Para que uma seleção vença uma Copa do Mundo, não basta acreditar. É preciso muito mais do que isso, como uma formação consistente, organização, estabilidade institucional, respeito, implicação e capacidade de sustentar escolhas. A esperança pode mobilizar energia emocional, mas não substitui um projeto responsável.

Quando isso falta, a esperança corre o risco de se transformar em repetição: a expectativa de uma época que não retorna. E aí surge a frustração, não apenas de perder um jogo, mas de perceber que se espera há anos por algo perdido. Eis um luto não apenas pela eliminação, mas por uma Seleção Brasileira que não existe há muitos anos.

Nesse sentido, a eliminação não destrói a esperança. Ela a confronta. Mostra seus limites. E revela sua ambiguidade: sustenta nosso vínculo com o futebol, mas não pode substituir aquilo que precisa ser construído.

Que a esperança não se confunda com uma simples espera. Que não apazigue nossas inquietações, nem retire nossos enfrentamentos. A esperança não pode atenuar nosso sofrimento e nem diminuir a nossa luta.

Foto de Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito é psicólogo e mestre em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Possui especialização em Filosofia e Psicanálise pela Ufes, bem como em Políticas Públicas e Socioeducação pela Universidade de Brasília (UnB). Possui experiência em saúde mental, formação profissional, políticas públicas e socioeducação. Realiza atendimento clínico desde 2010. Também é professor universitário e palestrante, articulando a psicologia em suas interfaces com outros saberes.

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