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Perdemos só um jogo?

Quando o Brasil perde uma partida de futebol, surgem imediatamente milhões de técnicos. Em poucas horas, o país inteiro já sabe quem deveria ter entrado no segundo tempo, quem escalou errado e qual atacante jamais deveria vestir a camisa da seleção. O brasileiro entende de futebol e de tudo como poucos.

Agora experimente perguntar por que a Noruega, um país com pouco mais de cinco milhões de habitantes, consegue competir com gigantes mundiais em inovação, qualidade de vida, tecnologia e produtividade. O silêncio costuma ser ensurdecedor.

Não, este não é um artigo sobre esquerda, direita ou qualquer outra prateleira ideológica. É sobre competência. Sobre planejamento. Sobre a capacidade de um país facilitar a vida de quem produz riqueza, em vez de transformá-lo em atleta de uma maratona burocrática.

A Noruega descobriu petróleo. O Brasil também. A diferença é que eles entenderam que petróleo não é riqueza. É oportunidade. Criaram um dos maiores fundos soberanos do planeta e transformaram uma riqueza finita em investimento permanente em educação, tecnologia e infraestrutura. O poço pode secar. O conhecimento continua produzindo dividendos.

Mas talvez o exemplo mais curioso nem seja esse. Imagine comprar um imóvel.

Na Noruega, existe um cadastro nacional integrado. As informações do imóvel, do proprietário e dos registros são consultadas digitalmente. A transferência é registrada eletronicamente junto ao órgão nacional responsável. O custo? Um imposto de 2,5% sobre o valor do imóvel e uma taxa fixa de registro de aproximadamente 545 coroas norueguesas (aproximados R$ 290,00).

Pronto. Sem expedições arqueológicas por repartições públicas. Sem colecionar certidões como quem completa álbum de figurinhas. Sem a sensação permanente de que falta “mais um documento”.

Enquanto isso, no Brasil, dependendo da operação, o cidadão consulta matrícula, prefeitura, certidões fiscais, certidões forenses, condomínio, concessionárias, reconhecimento de firma, autenticações e ainda sai da reunião ouvindo uma frase que já virou patrimônio cultural: “vamos aguardar o cartório”.

Abrir uma empresa segue a mesma lógica. Na Noruega, o governo mantém um portal único que centraliza praticamente todo o processo. Em muitos casos, uma empresa individual pode ser registrada em cerca de uma hora quando não depende de análise manual. Se houver necessidade de conferência, o próprio governo informa um prazo aproximado de dez dias úteis.

Por aqui, abrir uma empresa muitas vezes parece uma prova de resistência. Não basta ter uma boa ideia. É preciso sobreviver ao CNPJ, às inscrições, aos licenciamentos, às obrigações acessórias, aos sistemas que não conversam entre si, às exigências que mudam conforme o balcão e às plataformas que escolhem exatamente a segunda-feira de manhã para entrar em manutenção.

Depois perguntam por que a produtividade brasileira cresce tão pouco. Existe uma diferença silenciosa entre países desenvolvidos e países que vivem tentando alcançá-los.

Os primeiros gastam energia produzindo riqueza. Os segundos gastam riqueza tentando administrar a energia desperdiçada pela burocracia.

A Inteligência Artificial tornou essa diferença ainda mais evidente. Enquanto alguns países perguntam como usar IA para multiplicar produtividade, reduzir custos e acelerar decisões, nós ainda comemoramos quando um processo que levava seis meses passa a levar trinta dias. Ou o debate de regulamentação de Jornada de trabalho. Chamamos isso de revolução digital. O restante do mundo chama de atualização de sistema.

O jogo contra a Noruega terminou em noventa minutos. O outro jogo acontece todos os dias.

É disputado nas escolas, nas universidades, nas startups, nos laboratórios, nos órgãos públicos e, principalmente, na forma como um país trata quem decide empreender. E olha que por lá eles possuem o custo da família Real. E olha que eles ainda mantêm uma família real. Nós conseguimos criar uma burocracia que, às vezes, custa mais caro do que um castelo inteiro.

Dentro de campo eram onze contra onze. Fora dele, eram décadas de planejamento enfrentando décadas de improviso. O Brasil não precisa copiar a Noruega. Tem outra história, outra cultura e desafios completamente diferentes.

Mas talvez pudesse copiar uma ideia simples: o Estado não deveria ser o primeiro obstáculo encontrado por quem quer produzir. Porque países vencedores não são aqueles que obrigam seus cidadãos a decorar formulários.

São aqueles que permitem que eles gastem seu tempo criando soluções. O placar do futebol muda a cada Copa do Mundo. Talvez a maior derrota do Brasil nunca tenha acontecido dentro de um estádio. Ela acontece toda vez que um empreendedor desiste antes mesmo de começar.

Foto de Sandro Rizzato

Sandro Rizzato

Sandro Rizzato assina a coluna Arena Digital sobre tecnologia, inteligência artificial e empreendedorismo, escrita sem deslumbramento e sem discursos prontos, com a proposta de confrontar ideias, questionar o hype e analisar o impacto real da IA no trabalho, nos negócios e no comportamento humano. Com olhar crítico e provocativo, parte do princípio de que a tecnologia deve ampliar a capacidade humana, não substituí-la, e convida o leitor a sair do piloto automático digital para refletir sobre as transformações que influenciam decisões, produtividade, atenção e qualidade de vida.

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