Em clima total de comício, falando a uma plateia de centenas de apoiadores no Sesc de Aracruz, na manhã desta quinta-feira (21), o presidente Lula (PT) afiou o seu discurso de campanha eleitoral, durante seu pronunciamento na Teia Nacional de Pontos de Cultura. Pré-candidato à reeleição, o presidente da República falou explicitamente sobre o processo eleitoral e reeditou o mote do “nós contra eles”, ou, de modo mais específico, “nós construímos, eles destruíram, nós construímos tudo de novo”.
“Eles”, no caso, são a família Bolsonaro. Jamais citados pelo nome, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu primogênito, Flávio Bolsonaro (PL), foram alvos de críticas agudas por parte do presidente.
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Cinema é cultura, é uma expressão cultural. E, num evento voltado para a área, diante de um público formado por agentes culturais de todos os cantos do país, Lula não perdeu a chance de mencionar a descoberta de que seu principal adversário nas urnas mantinha contatos regulares com Daniel Vorcaro e recebeu milhões de dólares do banqueiro (a pedido do próprio Flávio), para supostamente financiar o filme “Dark Horse”, rodado em homenagem ao pai.
Fazendo o tempo todo uma contraposição entre seu governo e seu projeto de país com o da família Bolsonaro, Lula defendia a Lei Rouanet (enfraquecida, segundo ele, no governo de seu antecessor). Foi a deixa para disparar esta farpa:
“Aprendi desde pequeno uma frase que minha mãe dizia: a verdade tarda, mas não falha. Vocês sabem quantas ofensas artistas, mulheres e homens, receberam porque iam buscar um dinheirinho na Lei Rouanet? E, muitas vezes, o Ministério da Cultura dava autorização para que o artista fizesse a captação dos recursos e ele não conseguia os recursos, embora tivesse autorização. E todo mundo era muito criticado. Todo mundo era achincalhado. Aliás, a cultura como um todo era achincalhada!”
Agora, acontece que, como a verdade não falha, nós nunca fomos atrás da Lei Daniel Vorcaro para financiar nenhum artista brasileiro! E ainda vai aparecer muito mais coisa.”
Criticando o governo Bolsonaro pelo desmonte do MinC e das políticas de incentivo cultural, Lula também insinuou hipocrisia no comportamento dos seus principais adversários – mais uma vez mencionando o episódio do dinheiro pedido a Vorcaro por Flávio, chamado por ele de “aquele menino”.
“Ah, porque ‘os artistas são pornográficos’… Os artistas falam muita coisa que ele adora falar, mas quer fingir que não gosta, porque lamentavelmente a cultura política do país é assim: você tem que passar a ideia de uma seriedade que ninguém é, você tem que passar a ideia de que você é o que você não é. Quem imaginava que aquele menino que parecia ser a pessoa mais santa da família Bolsonaro estivesse pegando 159 milhões de dólares para fazer um filme? Ninguém imaginava!”, disse o presidente, exagerando o número, pois essa quantia na verdade já em convertida em reais, pelo câmbio da época.
Reconhecido “hipnotizador de plateias” – sobretudo em contextos assim, diante de um público amigável –, Lula exibiu a famosa capacidade de oratória, incluindo alguns dos recursos clássicos da retórica lulista, como piadas espirituosas, referências a lições de vida aprendidas com sua mítica mãe, Dona Lindu (aliás, interpretada por Glória Pires em sua própria cinebiografia), histórias de superação pessoal e de necessidades atravessadas por ele na infância e na juventude.
Como destacado no início, a tônica do discurso de campanha, ensaiado por ele em Aracruz, poderia ser resumida assim: “nós fizemos, ele destruíram, nós reconstruímos… se eles voltarem ao poder, voltarão a destruir tudo de novo”.
“Destruir é muito fácil. Construir é muito difícil. Quanto anos os palestinos levaram para construir as suas casinhas lá em Gaza? E em poucas horas o Netanyahu destruiu e matou milhares de mulheres e crianças. […] Quanto tempo nós levamos para construir as coisas neste país? E quão pouco tempo foi necessário para eles destruírem grande parte das coisas que nós fizemos?”
Lula exemplificou com a situação encontrada nos ministérios da Cultura, da Educação e da Saúde (os três representados no evento) quando ele voltou ao Planalto, em janeiro de 2023.
“Quando nós chegamos no governo, encontramos um país de terra arrasada […], porque eles resolveram destruir. Em nome não sei do quê, resolveram destruir. E nós resolvemos construir outra vez.”
O petista citou a decisão do governo passado de acabar com o Ministério da Cultura, rebaixando-o ao status de secretaria nacional. Disse ele, dirigindo-se à sua ministra da Cultura, a cantora Margareth Menezes:
“Não faz muito tempo nós não tínhamos Ministério da Cultura. Aliás, este país sempre teve confusão com a cultura, Margareth, porque uma hora tava a cultura ligada ao Ministério do Esporte, uma hora tava a cultura ligada ao Ministério da Educação. Somente nós é que tivemos a coragem de dizer ‘cultura é cultura, educação é educação, esporte é esporte’. E a cultura merece um ministério. E eles acabaram. Não acabaram apenas com a cultura. Acabaram com o do Trabalho. Acabaram com o Ministério da Igualdade Racial. Acabaram com o Ministério das Mulheres. Eles foram acabando com tudo, porque era preciso transferir as coisas, porque o presidente não sabia fazer outra coisa a não ser o gabinete do ódio, fazendo mentiras todo santo dia”.
Trocando “além” por “aquém”, Lula foi além, sugerindo uma teoria para o não apreço de Jair Bolsonaro pela cultura de modo geral e por manifestações artísticas:
“A educação nos ensina, mas a cultura nos faz revolucionários. A cultura é um passo aquém [sic], porque a cultura, no mesmo instante, move bilhões de neurônios na nossa cabeça. E é por isso que muita gente nunca gostou de cultura. É por isso que, muitas vezes, as determinadas pessoas que governam este país não querem saber de investimento na cultura, na cultura popular, não quer ir a teatro, não quer ir a cinema, nada”.
Lula só não chegou a pedir votos – até porque hoje em dia, para todo o resto, a legislação eleitoral é permissiva –, mas pediu a cada apoiador presente que seja “candidato” com ele, na campanha.
“Tem gente que pergunta: ‘Ô, Lula, você vai ser candidato?’ Não é o Lula que tem que ser candidato. São vocês que têm que ser candidatos. Não é uma pessoa que está em jogo. O que está em jogo é a democracia deste país, é a civilidade neste país, é o jeito de a gente educar as nossas crianças neste país, é a gente educar o respeito às mulheres neste país”, afirmou o petista, ressaltando a luta contra o feminicídio.
“É esse país que nós temos que criar, se quisermos continuar sonhando com uma humanidade mais humanizada e fraterna”, completou Lula.
Segundo ele, em derradeira alfinetada nos Bolsonaro, “o período da mentira, da violência e da incivilidade precisa acabar no nosso país”.