Tarifaço: setor que movimenta bilhões no ES pede socorro

O presidente da Centrorochas, Tales Machado, alertou que a nova tarifa compromete

Josue de Oliveira

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O setor de rochas é um dos mais afetados pelo tarifaço do presidente Trump. Foto: Divulgação

Representantes da indústria brasileira de rochas naturais estiveram em Brasília para pedir apoio do governo federal diante da nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros. A preocupação do setor é com o impacto da medida sobre granitos, mármores e ardósias, materiais que têm os Estados Unidos como principal mercado consumidor.

A agenda reuniu representantes da Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), do Ministério da Fazenda e o vice-presidente Geraldo Alckmin, que também comanda o MDIC. O encontro contou ainda com a participação de outras entidades empresariais afetadas pela nova política tarifária americana.

Durante a reunião, o presidente da Centrorochas, Tales Machado, alertou que a nova tarifa compromete justamente os produtos com maior potencial de crescimento das exportações brasileiras.

“Não estamos falando apenas de uma redução nas vendas atuais. A nova barreira atinge materiais que historicamente movimentaram grandes volumes de exportação e que ainda possuem enorme potencial de expansão no mercado americano”, afirmou.

Espírito Santo é o mais afetado

O impacto é especialmente preocupante para o Espírito Santo, responsável por mais de 80% das exportações brasileiras de rochas naturais. Segundo a Centrorochas, há cerca de dez anos o Estado embarcava aproximadamente 3.500 contêineres por mês. Atualmente, esse volume caiu para cerca de 2.500 contêineres mensais, reflexo da perda de competitividade provocada pelo aumento dos custos logísticos, gargalos de infraestrutura, despesas portuárias e outros fatores relacionados ao chamado Custo Brasil.

Nos últimos anos, o crescimento das exportações de quartzito ajudou a compensar parte dessa perda. Como esse material possui maior valor agregado e ficou fora da nova tarifa americana, ele sustentou parte do desempenho do setor. Ainda assim, a entidade afirma que o avanço do quartzito não foi suficiente para substituir o potencial dos granitos e mármores.

Caso a competitividade dos materiais tradicionais tivesse sido mantida ao longo da última década, somada ao crescimento do quartzito, o setor poderia estar exportando cerca de US$ 2 bilhões por ano. Em 2025, as exportações totalizaram aproximadamente US$ 1,5 bilhão.

Principal mercado

Os Estados Unidos seguem como o principal destino das rochas naturais brasileiras há mais de 20 anos. Somente em 2025, o Brasil exportou US$ 795 milhões para o mercado americano, o equivalente a cerca de 587 mil toneladas. O país respondeu por 53,6% de todas as exportações brasileiras do setor.

De acordo com a Centrorochas, quase toda essa comercialização é composta por chapas de granito, mármore e outras rochas semimanufaturadas, que são beneficiadas nos Estados Unidos e transformadas em bancadas, pisos, revestimentos e outros produtos destinados aos mercados residencial e comercial.

Para a entidade, a nova tarifa não afeta apenas as empresas brasileiras, mas também toda a cadeia produtiva americana que depende da matéria-prima importada do Brasil.

Após a reunião em Brasília, o setor informou que continuará buscando medidas junto ao governo federal para reduzir os impactos da tarifa e preservar a competitividade da indústria brasileira de rochas naturais.

Confira a linha do tempo da Taxação dos EUA sobre produtos brasileiros: 

  • 02 de abril de 2025: Donald Trump inicia o ciclo de tarifas recíprocas e inclui o Brasil na ofensiva comercial, com a aplicação de uma tarifa adicional de 10% sobre produtos brasileiros. 
  • 03 de junho de 2025: o governo norte-americano eleva de 25% para 50% as tarifas sobre as importações de aço, alumínio e seus derivados, com base na Seção 232. A nova alíquota entra em vigor em 4 de junho. 
  • 30 de julho de 2025: Trump impõe uma tarifa adicional de 40% sobre diversos produtos brasileiros. Somada à tarifa recíproca de 10%, a medida eleva a tributação total de parte da pauta brasileira para 50%. O governo norte-americano também publica uma extensa lista de exceções. 
  • 20 de novembro de 2025: após avanços iniciais nas negociações bilaterais, os Estados Unidos retiram determinados produtos agrícolas brasileiros da lista sujeita à tarifa adicional de 40%. 
  • 20 de fevereiro de 2026: a Suprema Corte dos Estados Unidos decide que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional — International Emergency Economic Powers Act (IEEPA) — não autoriza o presidente a impor tarifas. Com isso, o governo norte-americano encerra as medidas tarifárias fundamentadas nessa legislação, incluindo a tarifa recíproca de 10% e a sobretaxa de 40% aplicada ao Brasil. 
  • 20 de fevereiro de 2026: no mesmo dia, Trump anuncia uma sobretaxa global temporária de 10% sobre as importações norte-americanas, com vigência de 150 dias e fundamento na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974. A medida entra em vigor em 24 de fevereiro. 
  • 12 de março de 2026: em um processo paralelo, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) inicia investigações contra 60 economias, incluindo o Brasil, relacionadas à adoção e à aplicação de mecanismos para impedir a importação de produtos associados ao trabalho forçado. 
  •  1º de junho de 2026: o USTR conclui a investigação específica da Seção 301 sobre práticas comerciais brasileiras e propõe a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos importados do Brasil, com uma lista de exceções. 
  • 02 de junho de 2026: no processo paralelo relacionado ao trabalho forçado, o USTR propõe tarifas adicionais de 10% ou 12,5%, conforme a situação de cada economia investigada. Para o grupo no qual o Brasil foi incluído, a alíquota proposta é de 12,5%. 
  • 22 de junho de 2026: termina o prazo para que empresas e entidades solicitem participação na audiência pública sobre a investigação específica contra o Brasil e apresentem um resumo de seus depoimentos. 
  • 1º de julho de 2026: termina o prazo para o envio de manifestações escritas ao USTR sobre a proposta de tarifa adicional de 25%. Empresas e entidades apresentam argumentos contrários à aplicação da medida. 
  • 6 e 7 de julho de 2026: o USTR realiza audiência pública com representantes dos setores privados brasileiro e norte-americano. Ao todo, 77 participantes prestam depoimentos sobre a proposta tarifária. 
  • 15 de julho de 2026: os Estados Unidos confirmam a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, preservando exceções para determinados itens. A medida entra em vigor em 22 de julho de 2026. 

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