O encontro entre Donald Trump e Xi Jinping deve ser lido menos como um gesto diplomático isolado e mais como um capítulo da reorganização da economia mundial. Estados Unidos e China continuam sendo as duas maiores potências econômicas do planeta e concentram parte decisiva do comércio internacional, da produção industrial, da tecnologia, da demanda por commodities e das cadeias globais de suprimentos. Por isso, qualquer movimento de aproximação ou tensão entre Washington e Pequim afeta não apenas os dois países, mas também empresas, mercados financeiros e economias emergentes como o Brasil.
A reunião ocorre em um contexto no qual comércio, tecnologia, energia, alimentos, semicondutores, terras raras e segurança geopolítica deixaram de ser temas separados. Eles passaram a compor uma mesma agenda estratégica. A disputa entre Estados Unidos e China não é apenas por tarifas ou saldos comerciais. É uma disputa por liderança tecnológica, influência internacional, controle de cadeias produtivas críticas e capacidade de definir as regras da nova geoeconomia global.
Nesse cenário, um encontro entre os dois líderes pode reduzir a percepção de risco no curto prazo, especialmente se sinalizar algum grau de previsibilidade nas relações comerciais. Para os mercados, menos tensão entre as duas potências tende a significar menor volatilidade, algum alívio sobre o câmbio e melhora do apetite por ativos de países emergentes. No entanto, isso não significa o fim da rivalidade. A competição estrutural continuará presente em temas sensíveis como Taiwan, inteligência artificial, semicondutores, defesa, energia e insumos estratégicos.
Para o Brasil, os efeitos são ambíguos. Uma relação menos conflituosa entre Estados Unidos e China pode favorecer o ambiente externo, reduzir incertezas e melhorar as condições financeiras globais. Isso ajuda países emergentes, inclusive pela possibilidade de menor pressão sobre o dólar e sobre os preços de bens importados. Em uma economia brasileira ainda pressionada por juros elevados, expectativas fiscais frágeis e necessidade de convergência inflacionária, qualquer redução da volatilidade internacional é relevante.
Por outro lado, acordos diretos entre Estados Unidos e China podem deslocar fluxos comerciais que hoje beneficiam o Brasil. O agronegócio é o exemplo mais evidente. Quando há tensão entre Washington e Pequim, parte da demanda chinesa pode migrar para fornecedores brasileiros. Quando há reaproximação, especialmente com compromissos de compra de produtos norte-americanos, esse espaço pode diminuir. O mesmo raciocínio vale para energia, insumos industriais e outros produtos estratégicos.
Para o Espírito Santo, os impactos passam principalmente pelo comércio exterior, pela logística e pelas commodities. A economia capixaba é fortemente conectada ao mercado internacional por meio de portos, minério, aço, celulose, café, petróleo, rochas ornamentais e serviços ligados ao comércio exterior. Portanto, mudanças na demanda global, nos preços internacionais e nas rotas de comércio afetam diretamente o dinamismo do Estado.
Uma redução das tensões entre Estados Unidos e China tende a favorecer o Espírito Santo ao trazer mais previsibilidade para empresas exportadoras, operadores logísticos e investimentos industriais. Mas também pode gerar riscos, caso acordos bilaterais redirecionem fluxos comerciais em favor de fornecedores norte-americanos. Mesmo quando o Estado não é o principal produtor de determinada commodity, ele participa da cadeia por meio de transporte, armazenagem, serviços portuários e comércio exterior.
A principal lição é que o mundo caminha para uma globalização mais seletiva, menos orientada apenas por eficiência e mais condicionada por segurança, tecnologia e poder político. Nesse ambiente, o Brasil precisa combinar estabilidade macroeconômica, diplomacia econômica pragmática e ganho de competitividade. O Espírito Santo, por sua vez, deve transformar seus ativos logísticos, portuários, industriais e energéticos em vantagem estratégica. Na nova geoeconomia, não basta produzir bem. É preciso produzir, transportar, financiar e negociar com previsibilidade.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.
Sobre o autor

Felipe Storch Damasceno é economista-chefe do IBEF-ES.





