A crescente presença de montadoras chinesas como BYD, GWM e Chery no mercado brasileiro vai muito além de uma simples mudança no perfil da concorrência no setor automotivo. Trata-se de um sinal claro e incômodo sobre os desafios estruturais da economia brasileira, especialmente no que diz respeito à produtividade e ao custo de produção.
Nos últimos anos, essas empresas passaram a oferecer veículos com maior conteúdo tecnológico, especialmente no segmento de eletrificados, a preços competitivos mesmo diante de tarifas de importação e custos logísticos relevantes. Quando um produto importado consegue competir nessas condições, a leitura econômica é direta: o problema não está fora, mas dentro da economia doméstica.
Um dos principais pontos é a produtividade. A indústria chinesa avançou de forma consistente nas últimas décadas, apoiada em escala, integração às cadeias globais e políticas industriais voltadas à inovação. O resultado é uma estrutura produtiva mais eficiente, com maior capacidade de diluir custos e incorporar tecnologia. No Brasil, por outro lado, a produtividade industrial cresce de forma lenta, limitada por baixa difusão tecnológica, menor escala e dificuldades estruturais de modernização.
Esse diferencial se soma ao chamado custo Brasil, que continua sendo um dos principais entraves à competitividade. A combinação de carga tributária complexa, infraestrutura logística deficiente, custo elevado de capital e insegurança regulatória encarece a produção local. Na prática, isso significa que produzir no Brasil pode ser mais caro do que importar, mesmo quando há proteção tarifária.
O avanço das montadoras chinesas também evidencia uma mudança no padrão competitivo global. A disputa deixou de ser apenas por preço e passou a envolver tecnologia, domínio de cadeias estratégicas e velocidade de inovação. Empresas chinesas operam com forte integração vertical e controle sobre insumos críticos, como baterias, o que amplia ainda mais sua vantagem competitiva.
Do ponto de vista macroeconômico, os efeitos são ambíguos. A maior concorrência pode beneficiar o consumidor, com preços mais baixos e maior acesso a novas tecnologias. Por outro lado, pressiona a indústria nacional, com possíveis impactos sobre investimento, emprego e encadeamentos produtivos. No limite, há o risco de aprofundamento da perda de densidade industrial, fenômeno já observado no país nas últimas décadas.
Esse movimento traz uma reflexão importante. A proteção de mercado, isoladamente, não é suficiente para garantir competitividade no longo prazo. Sem ganhos de produtividade e redução de custos estruturais, a indústria brasileira tende a perder espaço justamente nos segmentos mais dinâmicos e intensivos em tecnologia.
A presença crescente de veículos chineses, portanto, deve ser vista como um diagnóstico. Mais do que um problema do setor automotivo, ela revela os limites do ambiente econômico brasileiro. Enfrentar esse desafio exige uma agenda consistente de aumento de eficiência, melhoria do ambiente de negócios e estímulo à inovação. Caso contrário, o país corre o risco de se consolidar como consumidor de tecnologia produzida no exterior, reduzindo sua capacidade de gerar crescimento sustentado no longo prazo.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.
Sobre o autor

Felipe Storch Damasceno é economista-chefe do IBEF-ES.





