Trecho de sete quilômetros da Estrada de Ferro Leopoldina será transformado em avenida de mão única; projeto beneficia bairros de Cruzeiro do Sul, Campo Grande e Rosa da Penha
O prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio, apareceu num vídeo nas redes sociais comemorando o que ele mesmo chama de “realização do sonho da nossa cidade”. O motivo da celebração é a confirmação de que os sete quilômetros da Estrada de Ferro Leopoldina que cortam o município poderão – enfim – ser usados para um projeto de revitalização no trânsito, principalmente na região do bairro Campo Grande.
A ideia é desafogar o trânsito na ligação da Avenida Expedito Garcia e bairros vizinhos como Cruzeiro do Sul, Rosa da Penha e São Geraldo. Esse centro nervoso da cidade – além de ter um dos maiores centros comerciais do Espírito Santo, é justamente onde hoje o motorista perde tempo precioso no vai e vem de minusculos trajetos.
“Vamos fazer o binário de Campo Grande, sentido único da revitalização da Avenida Expedito Garcia e voltando pela antiga linha Leopoldina, a linha de ferro. Mais um sonho, mais mobilidade pro nosso povo”, disse Euclério, sem esconder a empolgação.
O negócio começou a se desenhar há algum tempo. Representantes da prefeitura e de outros municípios capixabas já haviam ido a Brasília desde 2023 pedir que o trecho ocupado pela malha ferroviária da VLI fosse cedido. A empresa, que opera a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), pediu a devolução da Leopoldina para a União no ano passado. Foi a brecha que a prefeitura esperava.
Na terça-feira (30), o ministro dos Transportes, George Santoro, assinou acordos de cooperação técnica que autorizam a cessão de trechos ferroviários inoperantes para estados e municípios. O ministro explicou que a ideia é reaproveitar ativos que hoje não têm serventia. “Quando não há viabilidade para a operação ferroviária de cargas, faz mais sentido permitir que estados e municípios desenvolvam projetos que atendam às necessidades das pessoas”, declarou.
O modelo já foi testado em outros lugares, como Araraquara, no interior de São Paulo, e também está sendo levado para Aracaju e Campina Grande. Santoro afirmou que a expectativa é deixar projetos consolidados que possam ser levados ao mercado e contribuir para a mobilidade nacional.
No Espírito Santo, a iniciativa deve beneficiar moradores de 11 municípios: Vila Velha, Cariacica, Viana, Domingos Martins, Marechal Floriano, Alfredo Chaves, Vargem Alta, Cachoeiro de Itapemirim, Atílio Vivácqua, Muqui e Mimoso do Sul. São cerca de 260 quilômetros de ferrovia que podem ganhar novos usos, como parques lineares, espaços de lazer ou até gastronomia, com vagões antigos convertidos em quiosques.
O governador Ricardo Ferraço também comemorou. Em nota do ministério, Ferraço aponta que o Espírito Santo está pronto para assumir esse patrimônio e desenvolver projetos capazes de integrar os municípios, fortalecer o turismo e a economia.
“A ferrovia atravessa grande parte do território capixaba e representa uma oportunidade de promover desenvolvimento, melhorar a qualidade de vida da população e dar uma nova destinação a uma infraestrutura que hoje está subutilizada”, afirmou.
O deputado federal Gilson Daniel, um dos articuladores do processo desde o início, explicou o termo desde a VLI entregar a concessão ao governo federal e, com isso, a União poderá ceder o trecho aos municípios por meio de um comodato – uma espécie de empréstimo formal. “A partir daí, possivelmente será dado um comodato, autorizando os municípios a utilizarem o trecho onde passa a linha férrea”, detalhou.
Em Cariacica, a transformação da ferrovia em um braço do binário deve melhorar o fluxo de veículos numa região que é um dos gargalos do trânsito municipal.
A obra ainda depende das formalizações da cessão, mas a prefeitura já trabalha com a expectativa de que o processo ande rápido após a confirmação do Ministério dos Transportes.
Movimento histórico
Para quem convive com a linha férrea em Campo Grande como eu, desde a infância, quando o trem realmente atravessava o bairro, é uma mudança histórica. Até hoje, no acesso de Campo Grande para Cruzeiro do Sul a loucura do cruzamento sobre a antiga ferrovia nos faz pensar em cenas clássicas do trânsito da Índia – confuso e arriscado.
O binário deve pôr fim à disputa por espaços entre carros, os ônibus coletivos, pedestres, motos, bicicletas e os tradicionais carros de som que fazem propagandas das lojas. Essa organização – inclusive para o comerciante e os lojistas – é fundamental para a Expedito Garcia voltar a ser desejada para os negócios.
Sem contar que valorização imobiliária para um trecho desses bairros que sempre teve marcas de poucas melhorias justamente por um ativo nacional praticamente enterrado ali. Essa é uma das consequências que também vamos acompanhar.






