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GWM em Aracruz: a nova geografia da indústria automotiva passa pelo Espírito Santo?

A escolha de Aracruz para receber a nova fábrica da GWM vai além da instalação de uma montadora. Ela revela como a transição para veículos eletrificados está redesenhando o mapa industrial brasileiro — e colocando o Espírito Santo em uma posição que poucos imaginavam há alguns anos.

 

O mapa da indústria automobilística brasileira sempre teve seus endereços fixos. São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia, Goiás. O Espírito Santo, nessa história, aparecia em outra seção. Era lembrado pelos portos, logística, pela exportação de minério, aço, celulose e café. Movimenta cargas, conecta mercados. Mas não rompia o muro de fabricante de automóveis.

A confirmação da fábrica da GWM em Aracruz começa a mexer com essa moldura – como numa ideia da imagem do terreno acima.

E não é só pelo motivo de que a montadora chinesa escolheu o Estado para sua nova unidade. É porque essa decisão acontece num momento em que a indústria mundial está mudando de página. Os carros estão diferentes. E os critérios para decidir onde produzi-los também.

Proximidade dos grandes centros consumidores já foi praticamente uma regra. Hoje, fatores como acesso a portos, disponibilidade de áreas industriais, integração com cadeias globais de suprimentos e capacidade de expansão ganharam peso. Foi nesse novo cenário que Aracruz demoliu muros.

A negociação com a GWM se arrastou por cerca de três anos. O anúncio oficial, feito na terça-feira (30), chamou atenção não só pelo volume de investimentos – pode chegar a até R$ 6 bilhões – ou pelos milhares de empregos prometidos. O que mais impressionou quem esteve presente no local com a diretoria da empresa e do Governo do Espírito Santo foi o papel que a unidade vai exercer na estratégia internacional da empresa.

Não é uma linha de montagem de kits importados, é uma planta industrial completa, com estamparia, soldagem, pintura e montagem final. E os primeiros modelos que vão sair de lá – o Ora 5 e o Haval H6 – não são carros de fim de linha. São veículos eletrificados, conectados, com tecnologia de ponta. Representam exatamente a nova geração com a qual a indústria chinesa quer crescer no mercado internacional.

Isso muda a forma de ler o investimento.

A GWM não está colocando em Aracruz uma fábrica para produzir modelos com custo baixo. Está instalando uma unidade preparada para atravessar diferentes ciclos tecnológicos. Uma fábrica dessas não se planeja para dois ou três anos. Ela nasce para durar.

E aí a escolha do Espírito Santo ganha um significado que vai além. O Estado, que sempre teve vocação logística, passa a ser visto também como lugar onde essa produção começa a nascer. A infraestrutura que antes servia para escoar produtos fabricados em outras regiões agora serve como argumento para atrair uma indústria que agrega valor antes da carga chegar ao porto.

O diretor de Assuntos Institucionais da GWM Brasil, Ricardo Bastos, destacou durante o evento que a logística foi um dos fatores determinantes. A proximidade com os portos de Barra do Riacho e a conexão com a BR 101, segundo ele, pesaram na balança. Mr. Meng, Chief Production Officer da GWM Global, que visitou o terreno, mencionou a mesma coisa: a infraestrutura capixaba oferecia condições que outros estados não tinham.

Há outro movimento acontecendo ao redor da fábrica. A GWM trabalha com um modelo verticalizado – produz internamente boa parte dos componentes que usa. Isso significa que, com o tempo, a tendência é que fornecedores se instalem nas proximidades. Não é algo que acontece da noite para o dia, mas a oportunidade está posta. Empresas de logística, metalmecânica, automação, embalagens e transporte já começam a olhar para a região com outros olhos. Aracruz pode ser o endereço da fábrica, mas os efeitos tendem a se espalhar.

A própria localização ajuda a entender esse movimento. A área escolhida tem mais de 1,7 milhão de metros quadrados e está inserida numa região que já concentra infraestrutura e tradição industrial.

A construção da fábrica deve seguir até 2028. A formação da cadeia de fornecedores talvez um pouco mais. Mas o movimento já começou e o anúncio da fábrica da GWM não é propriamente o ponto alto dessa história.

Na indústria automobilística é agora que as coisas começam a ficar interessantes.

Foto de Fabio Botacin

Fabio Botacin

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