Poucas eleições têm impacto institucional tão duradouro quanto a do Senado. Com mandatos de oito anos e competências exclusivas, os senadores exercem influência muito além da votação de projetos: participam da escolha de autoridades, julgam processos de impeachment e ajudam a definir os rumos da República. Com as peças no tabuleiro, a disputa pelas duas vagas para representar o Espírito Santo na Câmara Alta do Congresso Nacional começa a ganhar forma e dá claros sinais de que teremos uma eleição muito disputada no Estado.
Com o fim das convenções partidárias, 11 candidatos foram apresentados. Nomes de peso, como atuais senadores, ex-governador, ex-prefeitos e deputados, disputam simultaneamente o voto do eleitor. Diante do tamanho dos nomes envolvidos, estamos caminhando para um cenário em que devemos ter uma eleição apertada pela segunda cadeira, já que existe uma grande possibilidade de os votos se pulverizarem entre vários candidatos.
Os candidatos são: Carlos Fabian (PSOL), Evair de Melo (Republicanos), Fabiano Contarato (PT), Leonardo Monjardim (Novo), Maguinha Malta (PL), Marcos do Val (Avante), Renato Casagrande (PSB), Rodney Miranda (PRTB), Rose de Freitas (MDB), Sérgio Meneguelli (PSD) e Wellington Callegari (DC).
O favorito
Neste ano, o mercado político aponta que dificilmente a primeira vaga escapará das mãos do ex-governador Renato Casagrande. Depois de oito anos no Palácio Anchieta — sem contar os outros quatro do seu primeiro mandato, entre 2011 e 2015 —, Casagrande saiu com boa aprovação e colocou praticamente todos os prefeitos do Estado em seu palanque. Como governador por três mandatos, naturalmente, Casagrande tem o nome mais lembrado na cabeça dos capixabas.
Ele está na coligação que pretende reeleger o governador Ricardo Ferraço (MDB), ao lado da outra candidata do grupo ao Senado, a ex-deputada e ex-senadora Rose de Freitas.
Poucos políticos têm a bagagem de Rose. Em 50 anos de vida pública, ela acumula o recorde de sete mandatos parlamentares no Congresso Nacional, com um jeito muito peculiar de fazer política. Ela não costuma ser fã de entrevistas e não possui um grande reduto eleitoral concentrado em uma cidade. Seus votos sempre foram pulverizados por praticamente todos os municípios do Estado. É reconhecida por ser uma parlamentar municipalista, com ótimo trânsito entre os prefeitos do interior.
Sua candidatura já é uma vitória. Afinal, existiam outros nomes que tinham a preferência dos líderes da coligação. Mas Rose se manteve firme e nunca desistiu da candidatura. Já disse, em eventos, que está animada e vai rodar o Estado pedindo voto para Ricardo, Casagrande e, é claro, para ela. É sempre uma candidata forte e, depois do esforço e da vitória que conquistou na pré-campanha, ninguém pode descartar a força de Rose.
Com a benção de Bolsonaro
Na chapa encabeçada pelo ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos) para o Governo do Estado, dois candidatos ligados à família Bolsonaro esperam conquistar os votos dos eleitores da direita “raiz”. Evair de Melo e Maguinha têm a bênção do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) e trabalham com o discurso de “Deus, Pátria e Família”.
Também são candidatos fortes. Maguinha está em sua primeira eleição, mas tem rodado o Estado, principalmente as igrejas, com seu pai, o senador Magno Malta (PL), a tiracolo. Já Evair está em seu terceiro mandato como deputado federal e também tem trânsito muito bom no interior do Estado. É o político capixaba mais próximo do ex-presidente Bolsonaro e apontado como um dos favoritos para a segunda vaga.
Ainda no campo da direita, o senador Marcos do Val tenta a reeleição. Depois de um mandato tumultuado, marcado pelas constantes brigas com o STF, que lhe renderam bloqueios em suas redes sociais e uma série de problemas, o instrutor da Swat vem para esta eleição sem coligar com ninguém e apenas com a estrutura do seu partido. Declarando-se um candidato contra o sistema e perseguido pelo tal sistema, Do Val não terá vida fácil nesta eleição. Principalmente porque os outros dois candidatos da direita citados acima contam com estruturas partidárias e coligações mais poderosas. Este ano, ele também não terá o apoio de Casagrande, que foi um trunfo importante para sua eleição.
Ainda no campo declaradamente de direita, estão o deputado estadual Wellington Callegari, o ex-secretário estadual de Segurança e ex-prefeito de Vila Velha Rodney Miranda e o vereador de Vitória Leonardo Monjardim.
Policial Federal aposentado, Rodney surgiu de surpresa na disputa. Ele estava em Goiás e ninguém no meio político esperava que retornasse. Em um acordo com a direção nacional do PRTB, aceitou voltar para Vila Velha e reestruturar o nanico partido. Os três estão em legendas menores e não devem passar de figurantes na disputa.
Com a benção de Lula
Saindo da esfera bolsonarista para o grupo que vai defender a reeleição do presidente Lula (PT), o Partido dos Trabalhadores aposta todas as suas fichas na reeleição de Fabiano Contarato. O senador estreou na política com uma votação histórica há oito anos. Em uma eleição em que a palavra “renovação” estava em voga, o delegado que ficou famoso por combater os crimes de trânsito obteve 1.117.039 votos, tornando-se o senador mais votado da história do Espírito Santo.
“Ele é um candidato muito forte porque vai concentrar todos os votos da esquerda. Quem é petista ou de qualquer ala da esquerda vai votar nele”, analisou um dos adversários de Contarato. Vale lembrar que o outro candidato declaradamente de esquerda é o desconhecido Carlos Fabian.
O campo de batalha das redes sociais
Quem também surgiu, como ele mesmo definiu, “aos 45 do segundo tempo”, é o deputado estadual Sérgio Meneguelli. Para realizar o sonho de disputar o Senado e seguir os passos de seu padrinho político e último senador eleito nascido no Noroeste do Espírito Santo, Moacyr Dalla, Meneguelli aguarda na fila há seis anos. A campanha mal começou e já mostra que será a batalha política mais dura que o ex-prefeito de Colatina irá enfrentar.
Assim que foi referendado pelo PSD para disputar o Senado, Meneguelli foi alvo de vídeos críticos de políticos da direita que também possuem muitos seguidores em suas redes. O deputado federal Gilvan da Federal (PL) e o vereador de Vitória Armandinho Fontoura (PL) não pouparam críticas a Meneguelli. Entre os adjetivos publicáveis, os dois o chamaram de “Contarato 2.0”, dizendo que o colatinense se declara de direita, mas, na verdade, é de esquerda.
As críticas sinalizam que alguns partidos de direita já têm um “alvo” para esta eleição. E esse será realmente um teste de fogo para a popularidade de Meneguelli, que, além de ter sido o deputado estadual mais votado, também é um fenômeno nas redes sociais.
Como muitos políticos têm receio de partir para o enfrentamento com Meneguelli por causa de sua popularidade na internet, ele praticamente nunca teve que enfrentar uma oposição de verdade. Nem quando era prefeito e, muito menos, como deputado. Praticamente surfou sozinho durante todos os seus mandatos. Agora, ele vai enfrentar algo que nunca enfrentou: críticas de quem segue à risca uma ideologia política e também é bom nas redes sociais.
Mas ninguém descarta a força de Meneguelli.
Pulverização
Essa configuração é mais fragmentada do que a observada em 2018 e 2022. Nesses anos, vimos as eleições diretas mais acirradas desde a redemocratização. Em 2022, Magno Malta venceu Rose de Freitas por apenas 2,18 pontos percentuais.
Em 2018, última vez em que a disputa envolvia duas vagas simultaneamente, a dinâmica foi diferente. Naquele ano, foram eleitos Contarato e Marcos do Val. Eles derrotaram os então senadores Magno Malta e Ricardo Ferraço, mas a disputa pela segunda vaga terminou com uma vantagem confortável de Marcos do Val sobre Ricardo Ferraço, superior a 150 mil votos. Naquele pleito, Contarato recebeu 1.117.039 votos, enquanto Marcos do Val teve 863.359.
O senador norte-americano George Frisbee Hoar deu uma das definições mais conhecidas sobre o papel do Senado. Em 1897, escreveu que “o Senado foi criado para que a vontade deliberada, o sóbrio segundo pensamento do povo, pudesse encontrar expressão”. Segundo Hoar, a Casa deveria resistir aos desejos apressados, passionais e intempestivos da população.
No Espírito Santo, porém, a partir de agora, serão os eleitores — e não os senadores — que terão a palavra.
Então, que comecem os jogos!