“No sistema eleitoral brasileiro, o povo vota em quem os políticos escolhem. Primeiro, você combina com os políticos. Depois, com o povo. Essa é a regra do jogo.”
Um influente líder político capixaba fez essa leitura ao analisar a nova tentativa do deputado estadual Sérgio Meneguelli (PSD) de disputar o Senado. E foi exatamente o combinado com os políticos, na verdade com um político, que levou o ex-prefeito de Colatina à tão sonhada disputa.
Passada a euforia e os desabafos da convenção do PSD, que decidiu lançar Sérgio ao Senado e abrir mão de indicar a esposa do prefeito de Colatina, Renzo Vasconcelos, Lívia Vasconcelos, como candidata a vice-governadora na chapa de Lorenzo Pazolini, a coluna conversou, nesta manhã, com o último candidato ao Senado lançado nessas convenções partidárias. “Foi aos 45 do segundo tempo”, diz o agora aliviado Meneguelli.
Como ele mesmo diz, para chegar ao Senado, ele tem duas eleições: a primeira já venceu, que foi ser indicado pelo partido, segundo o compromisso assumido com Renzo de lhe dar legenda. A segunda é agora, no voto. Mas a relação de Meneguelli com a Câmara Alta começou bem antes dos últimos seis anos. Segundo ele, seu pleito pela candidatura começou dois anos antes de ser rifado pelo Republicanos, seu antigo partido, na última eleição. Na verdade, essa história começou em casa, há 48 anos.
Senta que lá vem história…
Ainda adolescente, Sérgio trabalhou para o histórico líder político do Noroeste do Estado, Moacyr Dalla. Em pouco tempo, conquistou a amizade, a confiança e a admiração da tradicional família de Colatina. “Eu fui um funcionário que vivia na casa dele. Antigamente, a gente usava o termo ‘filho do coração’, mas eu não era filho porque só fui mesmo para a casa dele aos 16 anos. Mas é como se fosse. Ele é a minha grande referência e o meu padrinho político”, contou Meneguelli sobre o político que faleceu em 2006.
Moacyr Dalla foi o último senador natural das regiões Norte e Noroeste do Estado. Exerceu o mandato entre 1979 e 1987. Vale lembrar que, naquela época, dois terços do Senado eram compostos por senadores eleitos pelo povo. O outro terço era formado por pessoas indicadas indiretamente, sem o voto popular: os chamados “senadores biônicos”. Na eleição de 1978, Dalla, então filiado à Arena, foi eleito pelo voto popular, enquanto o senador João Calmon (também da Arena) foi escolhido por uma espécie de colégio eleitoral estadual, que sofria grande influência do Regime Militar.
Moacyr Dalla chegou ao cargo mais alto do Congresso Nacional ao presidir o Senado entre 1983 e 1985, posto que nenhum outro capixaba alcançou. Antes também foi deputado federal. Em Brasília, foi a primeira vez que, de fato, Meneguelli morou na casa de Moacyr, quando ele ainda era deputado federal.
“Eu aprendi muito na época em que ele foi presidente do Congresso Nacional. Eu participei de todo aquele movimento com Tancredo Neves e tantos outros políticos influentes. Quando eu tinha uma folga, ficava conversando com todos eles. Assim fui aprendendo. Naquela época, eles falavam que eu era o filho do Dalla. Saiu até uma reportagem no Jornal do Brasil falando sobre isso”, contou Meneguelli, que lembrou histórias inusitadas que testemunhou em Brasília.
“Eu ia para as galerias do Senado e adorava assistir àqueles debates. Teve um entre Franco Montoro e Eurico Rezende de que eu nunca esqueço. O Franco Montoro falou: ‘Vossa Excelência é um purgante!’. Ele disse isso porque o Eurico era líder do Geisel (ex-presidente no período da Ditadura Militar). Aí o Eurico olhou para ele e devolveu: ‘Vossa Excelência disse-te bem, pois Vossa Excelência é o resultado do meu purgante’”, lembrou, ao recordar a forma “classuda” como Eurico chamou Montoro de “excremento”.
Senador do Noroeste
“Moacyr foi eleito em 1978 e o mandato dele acabou em 1987. Daí em diante, nunca mais o Norte e o Noroeste do Espírito Santo tiveram um senador”, enfatizou.
O deputado lembrou que o ex-senador Gerson Camata era de Venda Nova e tinha ligação com Marilândia, no Noroeste. “Mas Camata foi viver em Vitória ainda adolescente. O Sul tem senador. Agora, nós, do Norte e Noroeste, também merecemos ter um”, completou Meneguelli, já indicando qual deve ser um dos motes de sua campanha.
Meneguelli diz que, se for eleito, viverá uma emoção especial ao repetir a história do padrinho. “Se eu chegar lá no Senado, vai ser muito legal. Vai passar um filme na minha cabeça, porque eu morei em Brasília, com 20 anos de idade, na casa do Moacyr. Foi, de fato, o único ano em que morei direto dentro da casa dele”, lembrou.
O deputado estadual mais votado da história do Espírito Santo, com 138.523 votos, diz que, se for eleito, vai trabalhar para dar mais visibilidade ao Estado.
“Um dos meus principais objetivos como senador é lutar para divulgar o Espírito Santo. A maior empresa que pode se desenvolver aqui é o turismo. Somos cortados pela BR-101. O pessoal passa por aqui para ir ao Nordeste, mas não conhece o Espírito Santo como deveria. Quero divulgar o Espírito Santo para trazer grandes projetos para cá. Não quero ser senador só para ficar distribuindo emendas. Quero trazer grandes projetos. E a Câmara Alta é o lugar para esse debate mais qualificado. Por isso, sempre quis o Senado”, salientou.
Disputa acirrada
Vencida a primeira eleição, como ele mesmo classificou o duro processo pelo qual passou para ver cumprida a promessa feita por Renzo Vasconcelos, Meneguelli sabe que a segunda disputa será ainda mais acirrada. Afinal, terá pela frente nomes de peso, como o ex-governador Renato Casagrande (PSB), a ex-senadora Rose de Freitas (MDB), o deputado federal Evair de Melo (Republicanos) e o atual senador Fabiano Contarato (PT).
“Casagrande tem tudo para ser o mais votado. Contarato também é forte e tem a vantagem de contar com os eleitores do PT. A disputa vai ser muito dura. Mas isso me anima ainda mais. Eu sempre entro nas minhas eleições sem fundo partidário, sem apoio de coligações, e isso me motiva. Vou rodar os 78 municípios capixabas com uma equipe de apenas quatro pessoas para distribuir meu material de campanha. Vou imprimir tudo em preto e branco para gastar menos e vou gastar, nesta campanha para o Senado, menos do que muitos gastam em campanhas de vereador. Vou gastar muita sola de sapato”, garantiu o deputado.
Na verdade, ele vai gastar sola de All Star. Junto da camiseta com os dizeres “Eu amo Colatina”, o tradicional tênis é outra marca registrada de Meneguelli. “Os dois que usei no meu mandato de prefeito, que estão furados de tanto que andei, eu guardo como recordação até hoje. Pelo jeito, vou furar mais alguns nesta campanha”, finalizou.