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Super El Niño pode desafiar a economia brasileira em 2027

Enquanto boa parte do mercado acompanha a trajetória da Selic, o equilíbrio das contas públicas e as incertezas geopolíticas, um novo fator começa a ganhar espaço nas projeções macroeconômicas: a possibilidade de um El Niño de forte intensidade entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027.

A preocupação não vem apenas dos institutos meteorológicos. A Organização Meteorológica Mundial (WMO) elevou para 80% a probabilidade de formação do fenômeno ainda neste ano, enquanto a NOAA, agência climática dos Estados Unidos, já trabalha com cenário de fortalecimento do evento e estima 63% de chance de que ele alcance intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. 

Porém, para o investidor, a pergunta mais importante não é se teremos um Super El Niño, mas como ele pode afetar inflação, crescimento econômico e resultados das empresas.

Ao contrário de outros países da América Latina, o Brasil não aparece entre os mais vulneráveis em termos de atividade econômica. Um estudo recente do Santander estima que, mesmo em um cenário de El Niño forte, o impacto sobre o PIB brasileiro seria relativamente limitado, próximo de 0,6 ponto percentual. O principal canal de transmissão seria outro: a inflação de alimentos, que poderia sofrer um impacto adicional de aproximadamente 2,4 pontos percentuais no pico do fenômeno. Essa diferença faz toda a diferença para a política econômica.

Em um ambiente em que o Banco Central busca consolidar a convergência da inflação para a meta, qualquer choque sobre alimentos tende a contaminar expectativas e reduzir o espaço para cortes mais agressivos da Selic. Não se trata apenas de um aumento temporário no preço de frutas ou grãos, mas de um fator que pode alterar a dinâmica da política monetária ao longo de 2027.

O agronegócio também entra naturalmente no centro dessa discussão. Mas o efeito dificilmente será uniforme. O histórico mostra que o El Niño produz vencedores e perdedores, dependendo da cultura, da região e, principalmente, da distribuição das chuvas. Em alguns casos, o excesso de precipitação reduz produtividade e atrasa o plantio; em outros, melhora as condições para determinadas lavouras. O resultado costuma ser aumento da volatilidade dos preços agrícolas, e não necessariamente uma quebra generalizada de safra.

Os impactos também chegam às empresas listadas em Bolsa. Um relatório publicado pelo Santander destaca que companhias ligadas ao agronegócio, crédito rural, seguros agrícolas e logística de grãos tendem a ser as mais sensíveis ao fenômeno. Por outro lado, empresas de distribuição de energia, saneamento e bebidas podem se beneficiar do aumento das temperaturas e do maior consumo em determinadas regiões. A conclusão do estudo é que o El Niño deve gerar uma forte dispersão de resultados entre setores, muito mais do que um impacto homogêneo sobre toda a economia. 

O componente internacional também merece atenção. Peru, Equador e Colômbia apresentam exposição muito maior aos efeitos físicos do fenômeno, seja por enchentes, secas ou impactos sobre a geração de energia. Como esses países são importantes produtores de alimentos, minerais e outras commodities, parte desses choques acaba sendo transmitida ao restante da economia global por meio dos preços internacionais. 

Talvez essa seja a principal mudança em relação ao passado. Eventos climáticos deixaram de ser apenas uma preocupação ambiental e passaram a integrar o conjunto de variáveis acompanhadas por economistas, bancos centrais e investidores. Em uma economia como a brasileira, altamente dependente do agronegócio e das commodities, acompanhar o comportamento do clima deixou de ser um exercício de curiosidade e passou a fazer parte da análise macroeconômica.

Se o cenário projetado pelos principais modelos climáticos se confirmar, o Super El Niño dificilmente provocará uma recessão no Brasil. Mas poderá manter a inflação mais resistente, influenciar o ritmo dos juros, alterar a rentabilidade de setores inteiros da Bolsa e criar oportunidades e riscos para quem investe.


Sobre o autor

 

Foto: Divulgação

 

 

Gabriel Mattedi Cecco é sócio e assessor da Valor Investimentos.

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