Num país altamente polarizado há cerca de uma década, o debate político, de forma extremada e simplista, tem sido resumido a uma divisão maniqueísta entre direita e esquerda, como se o país estivesse cindido ao meio entre essas duas categorias ideológicas e não houvesse nada fora disso (nenhuma alternativa possível senão essas duas classificações estanques).
O peso da polarização ideológica se faz sentir mais fortemente na eleição presidencial, mas também “desce” e se espraia pelas disputas locais nos estados, até porque as corridas para governador coincidem, no calendário eleitoral, com a corrida ao Palácio do Planalto. Foi o que se observou nas últimas duas eleições gerais, em 2018 e 2022, inclusive no Espírito Santo.
Nos dois pleitos, a definição dos governos estaduais foi muito influenciada pela batalha política nacional entre “direita” e “esquerda” – traduzida no caso concreto, de forma ainda mais rasa, em “bolsonarismo” versus “petismo”, ainda que a família Bolsonaro não responda por toda a direita, assim como o PT e Lula não correspondem a toda a esquerda. Tanto em 2018 e 2022 (principalmente na última), o debate sobre o Espírito Santo ficou refém desse Fla-Flu ideológico.
Para as eleições gerais, ainda não se pode dizer nem mensurar o tamanho da influência que a polarização ideológica nacional terá sobre as disputas nos estados, inclusive ao Palácio Anchieta. Mas algum peso terá – certamente, nem um pouco desprezível.
Considerando todo esse contexto, perguntamos ao governador do Espírito Santo, Ricardo Ferraço (MDB), pré-candidato à reeleição: como o senhor se define do ponto de vista ideológico?
Fugindo de “rótulos”, ele evitou dar uma resposta mais taxativa, mas não se esquivou da pergunta. Respondeu da seguinte maneira:
“Somos aquilo que nossa trajetória revela. Você é na política o que você é na vida privada. E o que a minha trajetória revela, em primeiro lugar?”, perguntou retoricamente, para ele mesmo responder:
“Sou um cristão, que trabalha pelos princípios e valores que são fundamentais para a preservação daquele ministério que é o mais importante para mim: o ministério da família. Sou uma pessoa que acredita na liberdade de expressão e na liberdade de mercado. Sou pela concepção da vida desde o feto. Não sei como você classifica uma pessoa assim. O rótulo, cada um faz uma interpretação, mas essa é a minha trajetória e esses são os meus valores e princípios”.
Conclusão
Como prefere evitar “rótulos”, pelo menos neste momento, o governador não respondeu, simplesmente, “direita”. Mas sua resposta poderia ser assim sintetizada.
A resposta é uma combinação de “liberalismo na economia com conservadorismo nos costumes”, o que, basicamente, no Brasil atual, virou sinônimo de direita, ou passou a ser tratado como a definição mais simplificada da direita à brasileira.
Como Ricardo está evitando “rótulos”, que dirá “slogans ideológicos”… Mas, se quisermos ir um pouco além, contidos na resposta dele, estão “Deus, família e liberdade”.
Só faltou a “pátria”.