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Coronel Caus veste a farda de candidato a deputado estadual

Entrando no rol de cotados para ser candidato a vice-governador de Ricardo Ferraço, ex-comandante-geral da PMES já dá mostras do discurso de campanha a uma vaga na Assembleia Legislativa, enquanto segue prestigiado no Palácio Anchieta e revela entrosamento político com atual governador

Escrito por Vitor Vogas

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Coronel Douglas Caus com Ricardo Ferraço. Foto: Vitor Vogas
Coronel Douglas Caus com Ricardo Ferraço. Foto: Vitor Vogas

Mais longevo comandante-geral da história da Polícia Militar do Espírito Santo (PMES), cargo exercido por ele por seis anos, o coronel Douglas Caus passou a vestir uma nova farda: a de político e pré-candidato a deputado estadual.

No fim de março, Caus entregou o comando ao colega Ríodo Rubim, coronel escolhido pelo governador Ricardo Ferraço (MDB) para substituí-lo. Desligou-se do cargo, justamente, para poder se candidatar a um lugar na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales). Ao deixar o comando-geral, passou automaticamente à reserva remunerada da PMES. Ato contínuo, filiou-se ao Podemos, partido presidido no Espírito Santo pelo deputado federal Gilson Daniel. E passou, então, a conduzir não mais uma tropa, tampouco campanhas militares, mas a própria campanha a deputado estadual.

A campanha do coronel, por sinal, está muito intimamente ligada Ricardo Ferraço e à campanha do próprio governador à reeleição no Palácio Anchieta. Caus é um grande apoiador de Ricardo, e vice-versa.

O partido escolhido por ele, Podemos, fez parte da base do governo Casagrande, segue na base do atual governo e foi um dos primeiros a declarar apoio à reeleição de Ricardo, em abril do ano passado – oito meses antes de Casagrande anunciar oficialmente o então vice-governador como seu pré-candidato à sucessão.

A escolha de Caus também passou por esse fator, já que ele foi incentivado pelo próprio Casagrande e por seu sucessor a disputar sua primeira eleição, trocando a farda de comandante-geral pelo figurino de candidato. É como soldado desse movimento político que ele vem para esse pleito.

Comandante-geral da PMES durante quase toda a última passagem de Casagrande pelo Palácio Anchieta – seis anos num período de sete anos e três meses – e portanto corresponsável pela redução de índices de violência nos últimos anos no Estado, Caus, mesmo fora do cargo, segue extremamente prestigiado pela cúpula do Palácio Anchieta, como ficou explícito, por exemplo, em cerimônia realizada na sede do Governo do Estado na última quarta-feira (6).

Durante o ato de assinaturas dos decretos de Ricardo que criaram companhias e batalhões na PMES – incluindo uma companhia independente especializada no combate a facções criminosas –, Caus ocupou lugar de destaque, sentando-se à primeira fila, ao lado de Ricardo e Casagrande. Além do assento especial bem perto dele, o atual governador lhe reservou elogios nominais: em seu discurso, chamou-o de “eterno comandante-geral da Polícia Militar”.

“Da mesma forma que eu chamo o nosso sempre governador Casagrande de governador Casagrande, eu vou sempre chamar o nosso ex-comandante Caus de comandante Caus, pelo legado que deixou na nossa Polícia Militar”, disse Ricardo.

Ao final, os dois tiraram fotos juntos para as redes sociais (acima). Ricardo aproveitou para praticar seu novo slogan na área de segurança: “Aqui no Espírito Santo, quem dita a regra é a lei”. Por sua vez, usando as conhecidas frases de efeito, o coronel mandou recado à bandidagem:

“Com essa companhia, você, faccionado, compra uma passagem e vaza do Espírito Santo, porque essa companhia só vai caçar gerente e liderança de facções criminosas. Ou seja, os dias das facções criminosas estão contados aqui no Estado do Espírito Santo”.

Falando a este colunista, o ex-chefe da PMES antecipou o principal mote de sua campanha à Assembleia:

“Uma coisa que quero deixar muito clara e que vou enfatizar até o meu último dia de campanha: eu não tenho promessas, tenho resultados entregues. Aquilo que proponho fazer eu já fiz durante seis anos. A sociedade já me conhece. Estou entregando um currículo com coisas concretas já feitas. Vou dar continuidade àquilo que já fiz, mas em outra instância”.

Caus passa a ser cotado para vice. O que ele diz sobre isso?

A proximidade política é tamanha que já acende especulações sobre uma possível escalação de Caus como companheiro de chapa de Ricardo. O nome do ex-chefe da PMES passou a figurar entre os cotados para ser candidato a vice-governador.

A favor dessa hipótese, conta o fato de que o Podemos terá lugar à mesa em que será definido esse nome, ao lado da Federação União Progressista. Hoje, essas duas forças aliadas são as principais cotadas para emplacarem o/a vice de Ricardo. Mas as motivações vão além.

Com perfil midiático e discurso notoriamente linha dura na área do combate ao crime – cristalizados para os capixabas ao longo de seis anos de muitas operações, entrevistas e aparições na TV –, Caus se define como um político de centro-direita (“mais para a direita e um pouco de centro”) e, o que é mais importante, sua cara virou quase metonímia de enfrentamento a criminosos no Espírito Santo.

Seja como companheiro de chapa, seja como aliado e apoiador, isso pode ser um ativo muito útil a Ricardo numa eleição em que a segurança pública desponta como uma das maiores preocupações dos brasileiros e tende a ter um peso fortíssimo na tomada de decisão do eleitor.

Hoje, mais até que preocupação, o brasileiro e sobretudo a brasileira têm medo da violência urbana, a ponto de mais da metade dos entrevistados admitir ter mudado sua rotina por esse motivo, na última pesquisa Datafolha.

Caus pode ajudar Ricardo a atrair votos de eleitores fundadamente revoltados e assustados com a violência urbana, principalmente eleitores de direita. Pode, ainda, ser um importante porta-voz junto à própria categoria, um canal de adesão de militares à campanha de Ricardo, ajudando a quebrar eventuais resistências.

Oportuno lembrar aqui que essas tropas em geral se identificam muito com o bolsonarismo, e o PL, partido de Flávio e Jair Bolsonaro, não estará no palanque de Ricardo: ou virá sozinho na disputa majoritária, ou apoiará Lorenzo Pazolini (Republicanos) para governador.

E quanto ao próprio Caus, como avalia a possibilidade de vir a ser candidato a vice de Ricardo? Ele responde assim:

“Até agora, a mim, não chegou nenhum tipo de convite nem conversa sobre essa perspectiva. Eu desconheço. Ninguém me chamou para tratar desse assunto. Então, neste momento, o Coronel Caus é pré-candidato a deputado estadual. É nessa linha que eu tenho trabalhado”.

Ele, assim, não está se alistando. Mas e se for “convocado para a missão”?

“Se eu for chamado para esse debate, essa avaliação não passa só por mim. Passa pelo partido, passa pelo grupo do governador e por uma série de atores. Sou iniciante na política. É claro que a gente entende muito de política, mas, como é do meu caráter e do meu pragmatismo, a gente precisa fazer uma conversa bem pra dentro do Podemos. Essa decisão não depende do Coronel Caus”.

Coronel Douglas Caus com Ricardo Ferraço e Renato Casagrande. Foto: Vitor Vogas
Coronel Douglas Caus com Ricardo Ferraço e Renato Casagrande. Foto: Vitor Vogas

Por que não a deputado federal?

Quando começou a examinar a ideia de se lançar a um cargo parlamentar, Caus tendia a concorrer a uma vaga na Câmara Federal. Afinal é lá, somente lá, que pode ser alterada a legislação penal do país, pois o tema é de escopo federal. Qualquer proposta de mudança no Código Penal e no Código de Processo Penal precisa ser deliberada no Congresso Nacional.

E Caus advoga por mudanças, a exemplo de muitos agentes de segurança pública que operam na linha de frente do combate ao crime, capturam e prendem criminosos e depois se sentem frustrados com decisões de uma Justiça que consideram leniente, no estrito cumprimento de uma lei igualmente “frouxa”.

Por isso, perguntamos ao agora ex-comandante: se ele pugna por mudanças na legislação penal, por que ser candidato a deputado estadual?

“Acho que é preciso mudar muitas das leis processuais. A lei é frouxa. Mas, como deputado estadual, eu poderei fazer muito mais pela segurança pública, mais do que estando em Brasília, mandando emendas e ajudando a mudar as leis processuais. O Estado do Espírito Santo provou que instituições fortes é que fazem a diferença na vida dos capixabas. Então essa interlocução do deputado estadual com o Governo do Estado, com investimento, recomposição do efetivo, treinamento e fortalecimento, chega na sua casa, chega na minha casa e ajuda mais a sociedade e a instituição.”

Entrosamento com as tropas e contraste com Ríodo Rubim

Usando camiseta preta, Caus provou, no evento da última quarta-feira (6), que preserva forte entrosamento e ascendência sobre as tropas da PMES. Logo depois da solenidade no Salão São Tiago, com governador e ex-governador já ausentes, ele permaneceu no salão com uma equipe sua de filmagem para as redes sociais, em meio às dezenas de homens que passaram a integrar, naquele momento, a Companhia Independente de Operações Especiais e Combate ao Crime Organizado.

Postado bem no meio da tropa, ele fez vídeos e posou para fotos, enquanto, bem ao lado, seu sucessor no comando da PMES, o Coronel Ríodo Rubim, concedia entrevistas à imprensa. Em seguida, Caus chamou Rubim para se juntar a ele, e a sessão de fotos foi completada, com o comandante e o ex lado a lado, entre os homens.

Basta uma rápida entrevista com o Coronel Ríodo Rubim para se comprovar algo que, reservadamente, fontes da alta cúpula da PMES observaram à coluna por ocasião do anúncio da troca no comando da corporação: o gritante contraste de estilos do Coronel Douglas Caus para seu sucessor no posto. Enquanto Caus é dado a frases de efeito e um tom de fala enérgico, Rubim é de fala mansa, semblante calmo, postura serena… Fica até difícil imaginá-lo elevando o tom de voz.

Como não é segredo, Caus influiu pessoalmente na escolha do próprio sucessor. Para um experiente coronel da PMES, sua opção por alguém com esse estilo bem mais low profile não foi nem um pouco gratuita: como seu sucessor é dez vezes mais discreto, Caus não correrá o risco de ser apagado, ofuscado, muito menos esquecido nos próximos meses (de campanha eleitoral).

Como evidenciou o evento no Palácio Anchieta, ele seguirá de certa forma dividindo com Rubim o protagonismo em algumas situações (quando não “roubando a cena”) e, mesmo sem o cargo, preservará sua imagem de líder da PMES, como se ainda fosse ele o comandante-geral. Um comandante sem as armas e brasões; de fato, mas não de direito.

Semelhanças com o discurso de Ramalho

No discurso de que “a lei é frouxa” e é preciso mudá-la em Brasília, Caus se assemelha a seu antigo “superior” no governo, o ex-secretário estadual de Segurança Pública Alexandre Ramalho.

Também coronel da reserva e ex-comandante-geral da PMES, Ramalho é outro que, notoriamente, defende o endurecimento do Código Penal. Mas, nesta eleição, ele vem pela tropa adversária à do Palácio Anchieta: filiou-se ao Republicanos e apoia Lorenzo Pazolini.

Curiosamente, Ramalho fez um deslocamento em sentido contrário ao de Caus: entrou neste processo querendo ser candidato a deputado estadual, mas topou assumir candidatura a deputado federal na chapa do Republicanos.

Caus nas redes sociais

Nas redes sociais, o Coronel Caus tem feito postagens bem profissionais, preparadas por uma equipe de marketing que o tem acompanhado, com direito a um logotipo de campanha, nas cores da bandeira capixaba e com o slogan “A nossa missão é servir com coragem”.

Nos posts, ele surge usando o mesmo traje que vestia no evento da última quarta (6) no Palácio Anchieta, ao mesmo tempo informal e fechado: camiseta preta com o nome “Coronel Caus” de um lado do peito e, do outro, o emblema de um crânio atravessado por uma faca (“faca na caveira”).

Em um dos vídeos, com a nova companhia de combate ao crime organizado, uma frase impactante para os criminosos: “Ao ver estes homens e mulheres, joga a arma no chão imediatamente, porque, se enfrentar, o seu destino ou é sistema prisional ou é caixão, literalmente”.

Na legenda, a parceria com Ricardo: “Ao lado do nosso Governador Ricardo Ferraço, reafirmamos o nosso respeito e reconhecimento pela forma séria, firme e comprometida com que vem conduzindo a segurança pública do Espírito Santo”.

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