Numa festa imodesta como esta Vamos homenagear Todo aquele que nos empresta sua festa Construindo coisas pra se cantar… Os versos de Chico Buarque em “Festa Imodesta” vão desaguar em uma saudação para uma “tradição da qual devemos verdadeiramente nos orgulhar”, como definiu Caetano Veloso em seu belíssimo show “Fina Estampa”. Para ser mais preciso, Chico festeja os responsáveis por essa tradição: os compositores da música brasileira. O Dia do Compositor é comemorado neste 7 de outubro. Uma boa maneira de homenageá-los seria selecionar os mais belos versos do nosso cancioneiro. No entanto, a tarefa é impossível. Primeiro, porque a seleção seria grande demais. Depois, ela sempre estaria sujeita ao gosto de cada um, e, portanto, seria incompleta. Então, a relação abaixo é formada por versos aleatórios, escolhidos pela sua beleza ou pela sua importância para o desenvolvimento de nossa música. Em alguns momentos, beleza e importância se encontram, algo corriqueiro em uma obra tão vasta quanto rica. Batuque é um privilégio Ninguém aprende samba no colégio Sambar é chorar de alegria É sorrir de nostalgia Dentro da melodia (Os versos de Noel Rosa em “Feitiço da Vila” resumem a evolução do samba, saindo das comunidades, onde ainda estava encastelado no início do século passado, para se tornar, ao longo dos anos, o mais brasileiro dos ritmos.) Meu coração, não sei por quê Bate feliz quando te vê (O início de “Carinhoso” dispensa apresentações. A música foi feita por insistência de Braguinha, responsável pela letra. Pixinguinha, autor da melodia, resistia em cedê-la porque a considerava um “choro incompleto”, por ter apenas duas partes. Gravado, virou clássico absoluto.) Queixo-me às rosas Mas que bobagem, as rosas não falam Simplesmente as rosas exalam O perfume que roubam de ti” (“As Rosas Não Falam, de Cartola. Citar um só verso de Cartola é difícil. A escolha ficou para o mais conhecido deles.) Tire seu sorriso do caminho Que eu quero passar com a minha dor” (A letra de “A Flor e o Espinho é de Guilherme de Brito. A melodia é de Nelson Cavaquinho. Nelson era contemporâneo de Cartola na Mangueira. Fizeram apenas um samba juntos. Nelson vendeu o samba. Cartola nunca mais o quis como parceiro.) Deus dá o frio conforme o cobertor (Ensinamento de Joca, um dos muitos personagens criados por Adoniran Barbosa, desta vez em “Saudosa Maloca”. Adoniran será sempre a voz do samba paulistano.) Saudade assim faz doer E amarga que nem jiló Mas ninguém pode dizer Que me viu triste, a chorar Saudade, o meu remédio é cantar (Tão conhecida no Nordeste quanto “Asa Branca”, “Que Nem Jiló”, é mais uma das muitas parcerias de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, dois gênios. Gonzagão dispensa apresentações. Humberto Teixeira foi eleito, em concursos de rádio, o maior compositor do país, em concursos de rádio, no início dos anos 50.) Negue que me pertenceu E eu mostro a boca molhada Ainda marcada por um beijo seu (“Negue”, música de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos, é um clássico do samba-canção, movimento musical antecessor e, de certa forma, provocador da Bossa Nova.) E assim adormece esse homem Que nunca precisa dormir pra sonhar Porque não há sonho mais lindo Do que sua terra, não há (Versos de “João Valentão”, de Dorival Caymmi. É o maior artesão de nossa música. Compunha lentamente, e só dava tudo como concluído quando estava perfeito. A letra de “João Valentão” começou a ser feita em 1936. Só foi concluída em 1945, quando estes versos finais vieram à mente de Caymmi quando ele estava em um bonde em Grajaú, no Rio.) Vai, minha tristeza, e diz a ela Que sem ela não pode ser” (A música brasileira se divide entre antes e depois de “Chega de Saudade”. A invenção de João Gilberto ensolarada por Tom Jobim abriu as portas para quase todos os compositores da fase mais rica de nossa música, da década de 60 em diante. Tom e Vinícius de Moraes não tinham ideia da revolução causada pela sua obra, principalmente por ter sido gravada da maneira como foi, com o violão de João. Ela é a base do movimento depois batizado de MPB, formado por alguns dos nossos maiores nomes.) É sal, é Sol, é Sul São mãos se descobrindo Em tanto azul (O carioca Ronaldo Bôscoli e o capixaba Roberto Menescal em uma de suas muitas parcerias. “Rio” consegue traduzir boa parte de uma cidade tão bonita e hoje, infelizmente, tão castigada.)








