André Andrès
Dia do Compositor: versos marcantes para festejar nossa música
Foto de Antonio Carlos Leite

Antonio Carlos Leite

 

Numa festa imodesta como esta Vamos homenagear Todo aquele que nos empresta sua festa Construindo coisas pra se cantar… Os versos de Chico Buarque em “Festa Imodesta” vão desaguar em uma saudação para uma “tradição da qual devemos verdadeiramente nos orgulhar”, como definiu Caetano Veloso em seu belíssimo show “Fina Estampa”. Para ser mais preciso, Chico festeja os responsáveis por essa tradição: os compositores da música brasileira. O Dia do Compositor é comemorado neste 7 de outubro. Uma boa maneira de homenageá-los seria selecionar os mais belos versos do nosso cancioneiro. No entanto, a tarefa é impossível. Primeiro, porque a seleção seria grande demais. Depois, ela sempre estaria sujeita ao gosto de cada um, e, portanto, seria incompleta. Então, a relação abaixo é formada por versos aleatórios, escolhidos pela sua beleza ou pela sua importância para o desenvolvimento de nossa música. Em alguns momentos, beleza e importância se encontram, algo corriqueiro em uma obra tão vasta quanto rica. Batuque é um privilégio Ninguém aprende samba no colégio Sambar é chorar de alegria É sorrir de nostalgia Dentro da melodia (Os versos de Noel Rosa em “Feitiço da Vila” resumem a evolução do samba, saindo das comunidades, onde ainda estava encastelado no início do século passado, para se tornar, ao longo dos anos, o mais brasileiro dos ritmos.) Meu coração, não sei por quê Bate feliz quando te vê (O início de “Carinhoso” dispensa apresentações. A música foi feita por insistência de Braguinha, responsável pela letra. Pixinguinha, autor da melodia, resistia em cedê-la porque a considerava um “choro incompleto”, por ter apenas duas partes. Gravado, virou clássico absoluto.) Queixo-me às rosas Mas que bobagem, as rosas não falam Simplesmente as rosas exalam O perfume que roubam de ti” (“As Rosas Não Falam, de Cartola. Citar um só verso de Cartola é difícil. A escolha ficou para o mais conhecido deles.) Tire seu sorriso do caminho Que eu quero passar com a minha dor” (A letra de “A Flor e o Espinho é de Guilherme de Brito. A melodia é de Nelson Cavaquinho. Nelson era contemporâneo de Cartola na Mangueira. Fizeram apenas um samba juntos. Nelson vendeu o samba. Cartola nunca mais o quis como parceiro.) Deus dá o frio conforme o cobertor (Ensinamento de Joca, um dos muitos personagens criados por Adoniran Barbosa, desta vez em “Saudosa Maloca”. Adoniran será sempre a voz do samba paulistano.) Saudade assim faz doer E amarga que nem jiló Mas ninguém pode dizer Que me viu triste, a chorar Saudade, o meu remédio é cantar (Tão conhecida no Nordeste quanto “Asa Branca”, “Que Nem Jiló”, é mais uma das muitas parcerias de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, dois gênios. Gonzagão dispensa apresentações. Humberto Teixeira foi eleito, em concursos de rádio, o maior compositor do país, em concursos de rádio, no início dos anos 50.) Negue que me pertenceu E eu mostro a boca molhada Ainda marcada por um beijo seu (“Negue”, música de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos, é um clássico do samba-canção, movimento musical antecessor e, de certa forma, provocador da Bossa Nova.) E assim adormece esse homem Que nunca precisa dormir pra sonhar Porque não há sonho mais lindo Do que sua terra, não há (Versos de “João Valentão”,  de Dorival Caymmi. É o maior artesão de nossa música. Compunha lentamente, e só dava tudo como concluído quando estava perfeito. A letra de “João Valentão” começou a ser feita em 1936. Só foi concluída em 1945, quando estes versos finais vieram à mente de Caymmi quando ele estava em um bonde em Grajaú, no Rio.) Vai, minha tristeza, e diz a ela Que sem ela não pode ser” (A música brasileira se divide entre antes e depois de “Chega de Saudade”. A invenção de João Gilberto ensolarada por Tom Jobim abriu as portas para quase todos os compositores da fase mais rica de nossa música, da década de 60 em diante. Tom e Vinícius de Moraes não tinham ideia da revolução causada pela sua obra, principalmente por ter sido gravada da maneira como foi, com o violão de João. Ela é a base do movimento depois batizado de MPB, formado por alguns dos nossos maiores nomes.) É sal, é Sol, é Sul São mãos se descobrindo Em tanto azul (O carioca Ronaldo Bôscoli e o capixaba Roberto Menescal em uma de suas muitas parcerias. “Rio” consegue traduzir boa parte de uma cidade tão bonita e hoje, infelizmente, tão castigada.)
Gilberto Gil ao lado de Caetano no exílio em Londres, na época da ditadura militar
Porque gado a gente marca Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente (“Disparada”, de Geraldo Vandré e Theo de Barros, empatou em primeiro lugar no Festival da Canção da Record em 1966, ao lado de “A Banda”, de Chico Buarque de Hollanda. O júri havia dado a vitória para a música de Chico, mas ele considerava “Disparada” superior à sua própria canção e forçou a decisão pelo empate, aceito pelos organizadores do festival, revelador de talentos do final dos anos 60.) Vem, vamos embora, que esperar não é saber Quem sabe faz a hora, não espera acontecer (A música de Geraldo Vandré perdeu o festival de 1968 para “Sabiá”, de Tom e Chico. Mesmo assim, “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” virou um hino contra a ditadura instalada do país. Tempos duros.) Morreu na contramão Atrapalhando o tráfego (Trecho de “Construção”, de Chico Buarque, letra feita toda com rimas em proparoxítonas. Para muitos, a mais bem elaborada da MPB.) Pensando ter amor nesse momento Desesperada você tenta até o fim E até nesse momento, você vai Você vai lembrar de mim (Versos de “Detalhes”, música capaz de resumir toda o romantismo da extensa obra de Roberto e Erasmo Carlos) Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo (O ano de 1973 foi, provavelmente, o mais rico da MPB. Raul Seixas lançava seu primeiro disco, com “Metamorfose Ambulante”, assim como Francis Hime, Luiz Melodia, João Bosco, Raimundo Fagner, Raul Seixas, Secos & Molhados, entre outros nomes, além de ter tido lançamentos de discos fundamentais de artistas como Beth Carvalho, Gal Costa e João Donato, só para citar alguns. A MPB desabrochava definitivamente. E as letras ganharam ainda mais importância e beleza…)
Os autores de "Chega de Saudade"
Tom Jobim e Vinicius de Moraes, autores de “Chega de Saudade”, divisor de águas na música brasileira. Foto: Divulgação
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro (“Sujeito de Sorte”, de Belchior, recentemente revisitada por Emicida) À mente apavora o que ainda não é mesmo velho (“Sampa”. Com domínio total da língua, Caetano mostra como se deve usar a crase…) Qualquer maneira de amor vale a pena Qualquer maneira de amor vale amar (“Paula e Bebeto”, primeiro encontro musical de Milton Nascimento e Caetano Veloso, autores da música.) A saudade é o revés de um parto Saudade é arrumar o quarto De um filho que já morreu (Pedaço de Mim, de Chico Buarque. A gravação original serviu para apresentar ao país uma cantora iniciante. E afinadíssima: Zizi Possi.) O samba é o pai do prazer, O samba é o filho da dor O grande poder transformador (Em 1993, Caetano e Gil comemoram os 25 anos do lançamento do disco “Tropicália ou Panis et Circenses” cm uma revisita ao Tropicalismo. O disco e o show Tropicália 2 trouxeram várias pérolas, como “Haiti”, “Nossa Gente” e eram encerrados com “Desde que o Samba é Samba”.) Quem poderá fazer, aquele amor morrer, se o amor é como um grão Morre, nasce trigo. Vive, morre pão (“Drão”, a mais bela canção feita para marcar uma separação. “Drão” é o apelido de Sandra, ou Sandrão, ex-mulher de Gilberto Gil, autor da música.)  
MIlton Nascimento
Milton Nascimento: poesia e voz marcantes na história da música brasileira. Foto: Divulgação
Você sonhava acordada um jeito de não sentir dor prendia o choro e aguava o bom do amor (“Codinome Beija-flor”, de Cazuza.) Nosso suor sagrado É bem mais belo que esse sangue amargo E tão sério E selvagem. (“Tempo perdido”, de Renato Russo, trovador de uma geração.) Miséria é miséria Em qualquer canto Riquezas são diferentes (“Miséria”, de Arnaldo Antunes, um dos muitos compositores dos Titãs, grupo no qual todos fazem tudo.) “Ando devagar porque já tive pressa E levo esse sorriso porque já chorei demais” (“Tocando Em Frente”, de Renato Teixeira e Almir Sater, música feita em menos de 15 minutos, segundo seus autores.) “E o tempo se rói com inveja de mim Me vigia querendo aprender Como eu morro de amor Pra tentar reviver No fundo é uma eterna criança Que não soube amadurecer Eu posso, ele não vai poder Me esquecer” (“Resposta ao Tempo”, de Aldir Blanc.) “Não se afobe, não Que nada é pra já Amores serão sempre amáveis Futuros amantes, quiçá Se amarão sem saber Com o amor que eu um dia Deixei pra você” (“Futuros Amantes”, de Chico Buarque..) “Solidão é lava que cobre tudo Amargura em minha boca Sorri seus dentes de chumbo” (“Desilusão”, do príncipe de samba, Paulinho da Viola) “Viver e não ter a vergonha de ser feliz” (“O que é, o que é”, o samba-exaltação à vida,  de Luiz Gonzaga Jr.) “Assim como viver Sem ter amor não é viver Não há você sem mim Eu não existo sem você” (“Eu não existo sem você”, de Tom Jobim.) “Gente é pra brilhar Não pra morrer de fome” (“Gente”, de Caetano Veloso.) “VIVA AQUELE QUE SE PRESTA A ESTA OCUPAÇÃO SALVE O COMPOSITOR POPULAR” (“Festa Imodesta”, de Chico Buarque de Hollanda.) (A lista é, obviamente, incompleta. Pelo menos ela serve para provocar um bom debate sobre nossa obra artística de maior qualidade…)

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