O Brasil deve colher aproximadamente 353 milhões de toneladas de grãos. Trata-se de uma das maiores produções do mundo. No entanto, quase 40% desse volume não possui capacidade adequada de armazenagem. A fotografia é paradoxal: potência produtiva e fragilidade estrutural.
O debate costuma ser simplificado como falha logística. Não é suficiente. O problema é intertemporal.
Armazenagem é investimento em capital fixo. Exige desembolso elevado, retorno gradual e previsibilidade macroeconômica. Seu valor econômico está na capacidade de suavizar oferta, melhorar poder de barganha e capturar preço ao longo do tempo. É decisão estratégica ancorada em horizonte longo.
E horizonte, no Brasil, é variável escassa.
A taxa real de juros permanece estruturalmente elevada quando comparada a economias desenvolvidas. Isso não é fenômeno isolado da política monetária. É reflexo de prêmio de risco soberano persistentemente alto, associado à trajetória da dívida pública, à rigidez de despesas obrigatórias e à recorrente fragilidade das âncoras fiscais.
Com dívida bruta próxima a 80% do PIB e despesas primárias fortemente indexadas e rigidamente comprometidas, o espaço fiscal é comprimido. O arcabouço fiscal vigente busca estabilização, mas sofre frequentes tensionamentos políticos que reduzem sua credibilidade. Mercados precificam risco com base em expectativas, não em discursos.
O resultado é uma curva de juros estruturalmente inclinada e um custo médio ponderado de capital (WACC) elevado para o setor privado.
Em termos financeiros, o valor presente de qualquer projeto é função da taxa de desconto. Quando essa taxa é alta, fluxos futuros perdem relevância. Investimentos de maturação longa tornam-se menos atraentes frente a alternativas de curto ciclo ou simples preservação de liquidez. Não é ideologia. É matemática.
Esse fenômeno dialoga com o conceito clássico de crowding-out. Quando o setor público absorve parcela relevante da poupança nacional para financiar déficits recorrentes, ele eleva o custo marginal do capital para o setor privado. A poupança é finita. O prêmio aumenta.
Somado a isso, o Brasil opera com carga tributária superior a 33% do PIB, complexidade regulatória elevada e custo de conformidade significativo. O investimento produtivo não enfrenta apenas juros altos, mas também fricção institucional constante. O capital não apenas custa caro; ele é onerado ao longo do caminho.
Nesse ambiente, a decisão empresarial torna-se racionalmente defensiva.
Armazéns competem, no orçamento do produtor, com capital de giro, com amortização de dívida, e com proteção contra volatilidade de preços. Se o custo do dinheiro é elevado e a previsibilidade fiscal é limitada, a preferência intertemporal desloca-se para o curto prazo. Liquidez passa a ser prêmio.
A consequência aparece na colheita.
Sem armazenagem suficiente, o produtor é forçado a escoar rapidamente. A pressão logística aumenta. A formação de preço ocorre sob concentração de oferta. O poder de barganha diminui. Parte da eficiência produtiva é transferida ao longo da cadeia.
Não se trata de incapacidade técnica do campo. Trata-se de ambiente que desestimula imobilização estratégica.
A comparação internacional reforça o argumento. Nos Estados Unidos, a capacidade de armazenagem supera a produção anual. Isso é viabilizado por mercado de capitais profundo, crédito rural estruturado, taxa real previsível e risco soberano comprimido. O custo do capital de longo prazo é substancialmente inferior. O horizonte é maior.
Infraestrutura floresce onde o tempo não é penalizado.
É importante reconhecer que há também um componente de responsabilidade empresarial. Investimento em armazenagem exige governança financeira, planejamento multissafra e estruturação adequada de passivos. Incentivos influenciam decisões, mas não substituem estratégia. Ainda assim, ambiente macroeconômico define o piso sobre o qual essas decisões são tomadas.
Se o custo sistêmico é elevado, a prudência se impõe.
O Brasil demonstra capacidade extraordinária de produzir. Mas produção sem infraestrutura captura apenas parte do valor gerado. A economia agrícola amadureceu tecnologicamente; o ambiente fiscal ainda amadurece lentamente.
Enquanto a trajetória da dívida pública pressionar expectativas, as despesas obrigatórias limitarem flexibilidade orçamentária e a credibilidade fiscal oscilar ao sabor da conjuntura, o prêmio de risco permanecerá incorporado ao custo do capital. E capital caro significa horizonte curto.
Safra recorde é mérito produtivo.
Infraestrutura é consequência de estabilidade intertemporal.
O Brasil não carece de grãos. Carece de tempo financiado a custo compatível com investimento de longo prazo.
Porque desenvolvimento não é apenas produzir mais.
É conseguir planejar além da próxima estação.
E planejamento, em economia, começa pelo preço do futuro.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.
Sobre o autor

Brunela Chiabai do Nascimento é advogada tributarista com formação pelo Instituto Brasileiro de Estudos Tributários e Membro do Ibef Academy.





