O avanço do El Niño acendeu um alerta para a agricultura capixaba. As projeções técnicas apresentadas pelo Governo do Estado nesta quarta-feira (8) indicam que o fenômeno deve atingir seu pico entre outubro, novembro e dezembro e permanecer influenciando o clima até fevereiro. O cenário previsto é de menos chuva, temperaturas mais altas e estiagem prolongada justamente no período em que os reservatórios costumam ser recarregados, condição que pode comprometer a produção agrícola.
O plano de enfrentamento foi apresentado pelo governador, Ricardo Ferraço, durante coletiva de imprensa. As ações envolvem diferentes órgãos estaduais e incluem medidas de preparação, mitigação e resposta para reduzir os impactos do fenômeno sobre a economia e o abastecimento.
Durante o evento, Ferraço também assinou o decreto que institui o Centro Integrado de Comando e Controle. A estrutura será responsável por acompanhar a evolução do El Niño, coordenar as ações entre os órgãos do governo e divulgar boletins semanais sobre o cenário climático.
Calor preocupa mais do que a falta de chuva
Embora a estiagem seja um dos principais efeitos esperados do El Niño, o aumento das temperaturas é visto como um fator ainda mais preocupante para parte da produção agrícola.
Segundo o secretário de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca, Enio Bergoli, o Espírito Santo reúne condições que tornam o Estado mais preparado para enfrentar períodos de seca, principalmente pelo avanço da irrigação nas propriedades rurais.
“O Espírito Santo é o Estado mais resiliente para enfrentar secas na agricultura. Cerca da metade das propriedades rurais capixabas já faz irrigação. É o maior percentual do Brasil.”
Ainda assim, ele alerta que o prolongamento da estiagem pode reduzir a disponibilidade de água justamente quando as barragens deveriam estar sendo reabastecidas.
“A água a gente tem para fazer as nossas irrigações sempre no período seco. Mas, quando se estica o período em que precisamos de água nas barragens a partir de outubro e novembro, pode ser que não tenha água.”
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Além da redução da disponibilidade hídrica, o calor excessivo pode provocar abortamento de flores, diminuição da formação dos frutos, redução do metabolismo das plantas e grãos menores.
“A temperatura hoje preocupa mais os agricultores do que a falta de chuva”, afirmou Bergoli, ressaltando que ainda é cedo para medir os possíveis impactos sobre a próxima safra de café.
Regiões e culturas exigem atenção
De acordo com a Secretaria da Agricultura, os efeitos tendem a ser mais sentidos no norte e no noroeste do Espírito Santo. Nessas regiões estão concentradas lavouras irrigadas de café conilon, mamão e pimenta-do-reino, culturas nas quais o Estado ocupa posição de destaque nacional na produção e nas exportações.
Também há preocupação com a produção de hortaliças e com áreas da região sul e do Caparaó, onde a combinação entre temperaturas elevadas e redução da disponibilidade de água pode aumentar os desafios para os produtores.
Governo prepara medidas de apoio
Durante a apresentação do plano estadual, Ricardo Ferraço afirmou que o principal desafio previsto para o Espírito Santo não são as chuvas intensas, mas uma estiagem prolongada, capaz de afetar tanto o abastecimento de água quanto a atividade agropecuária.
“A evidência não é para incidência de chuvas. A evidência é para uma seca, um período muito prolongado de estiagem, que traz impacto para o consumo humano de água e para a irrigação das nossas lavouras.”
Segundo o governador, o Estado também articulou uma rede de apoio financeiro para atender produtores que eventualmente sejam afetados. “Estamos com uma aliança muito bem feita com as agências de crédito, com as cooperativas e com o Banco do Brasil. Não faltarão meios e condições para socorrer nossos proprietários rurais”.
Ferraço destacou que a prioridade será atender principalmente os agricultores familiares, predominantes no Espírito Santo. Ele afirmou ainda que o Estado ampliou sua capacidade de reserva de água nos últimos anos e que seguirá monitorando a evolução do fenômeno para ajustar as medidas de enfrentamento.
Planejamento acompanha evolução do fenômeno
As projeções apresentadas pela Defesa Civil indicam que o El Niño deve permanecer ativo durante o verão, período mais importante para a recarga hídrica no Estado. A expectativa é de redução das chuvas, aumento das temperaturas, ondas de calor mais frequentes e maior risco de incêndios em vegetação.
O governador pontuou que o planejamento vem sendo estruturado desde 2022 e será atualizado continuamente conforme a evolução das condições climáticas. O Centro Integrado de Comando e Controle ficará responsável por acompanhar os indicadores e divulgar informações periódicas à população e aos setores produtivos.


