Reação do Palácio Anchieta
Longevidade política
Conheça a incrível história de Sergio Peixoto, recordista de mandatos na Câmara da Serra, aonde chegou em 1972. Agora, ele está de volta

Quando ele chegou à Câmara da Serra para exercer seu primeiro mandato, em 1972, o município era agrário. Segundo ele, tinha 17 mil habitantes. O Brasil vivia o auge da ditadura civil-militar, com o bipartidarismo em pleno vigor. Na Câmara Municipal, vereadores trabalhavam voluntariamente – nem sequer recebiam salário.
Hoje, com quase 600 mil moradores e um denso parque industrial, a Serra tem a maior população e a maior economia do Espírito Santo. O Brasil vive em regime democrático há quase quatro décadas. Ele não só testemunhou de perto como participou de tudo isso.
Nas mais de cinco décadas passadas entre 1972 e 2026, Sergio Peixoto (PDT) exerceu nada menos que oito mandatos de vereador da Serra. Nesta segunda-feira (2), o servidor estadual aposentado tomará posse para cumprir o nono. Aos 78 anos, passou quase a metade da vida na Casa (precisamente, 36 anos). Entre os atuais vereadores da Grande Vitória, é recordista absoluto não só em número de mandatos acumulados, mas também na amplitude da trajetória parlamentar, iniciada numa Serra ainda agrícola e despovoada.
Peixoto é um dos quatro suplentes convocados pelo presidente interino da Câmara, William Miranda (União), para tomar posse no lugar dos quatro respectivos titulares, afastados no dia 23 de setembro, por decisão judicial, no curso de uma ação penal em que são acusados de corrupção passiva pelo Ministério Público Estadual (MPES).
Na última eleição municipal, em 2024, tendo obtido 2.421 votos, Peixoto ficou como 2º suplente do PDT, partido liderado no Estado pelo ex-prefeito Sérgio Vidigal. Agora, toma posse no lugar do também pedetista Teilton Valim, um dos quatro parlamentares afastados. “Deus escreve certo por linhas tortas”, recita o veterano, que também será o mais idoso em plenário, mas faz graça com a própria idade: “Tô novo!”
Com o ensino médio incompleto, Peixoto se declara um “serrano da gema”. Cresceu em Serra Sede, onde mora até hoje. Na época, o município não tinha muito mais que a “sede”. Na infância e na juventude, dedicou-se à agricultura – o bom e velho “plantar para comer”. “Sou serrano de plantar abacaxi, de comer o arroz, o feijão, o milho e a mandioca que a gente mesmo plantava. Sempre trabalhei muito na lavoura”, relembra.
Em 1972, o pequeno agricultor fez sua estreia na política, filiado à Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido que dava sustentação à ditadura. Tinha 25 anos. Com 369 votos, número que ele puxa da memória, conseguiu se eleger para o primeiro mandato na Câmara. Na mesma legislatura, tornou-se presidente da Casa. Foi quando, por meio de uma emenda, foi instituído o pagamento para os vereadores da Serra.
“Na época, vereadores só recebiam salário nas capitais. Entre 1975 e 1976, fui presidente da Câmara. Em julho de 1975, foi feita a emenda. E fui o primeiro presidente a pagar os vereadores. A Casa não tinha contabilidade, não tinha nada. O dinheiro era depositado na minha conta. Eu tinha que sacar, pagar e dar recibo para cada colega. Olha o tamanho da responsabilidade!”, rememora, entre risos.

Entre 1972 e 2004, Peixoto emendou sete mandatos consecutivos, observando por dentro as profundas transformações na política, na economia e na paisagem urbana da Serra. No fim dos anos 1980, foi colega de um então novato vereador chamado Antônio Sérgio Vidigal. Quando o jovem médico chegou à Câmara, ele já era um veterano. Peixoto presidiu a “Constituinte Municipal”, e ambos participaram da elaboração da Lei Orgânica da cidade, promulgada em 1990.
Em 1996, Vidigal elegeu-se para o primeiro de seus quatro mandatos na Prefeitura da Serra, enfrentando e derrotando uma dinastia política do município. Peixoto conta que, naquele pleito, ele próprio ficou do lado da tradição representada por João Miguel Feu Rosa.
“Em 1996, me elegi para meu sexto mandato no palanque do Feu Rosa. Ele elegeu 14 dos 21 vereadores, enquanto Vidigal elegeu sete. Vidigal virou prefeito, mas não fez a maioria na Câmara. Logo no começo do mandato, passei a apoiá-lo. Hoje o município é a potência que é graças ao trabalho dele lá atrás e à credibilidade que a gente deu para ele administrar.”
Após ter começado a carreira na Arena, Peixoto passou por vários partidos – acompanhando também as mudanças no sistema partidário brasileiro. No ano 2000, elegeu-se pelo PSDB para seu sétimo e último mandato em sequência. Chegou a ser líder de Vidigal na Câmara. Em 2004, ainda no PSDB, não conseguiu legenda e não disputou a reeleição. Em seu lugar, lançou o filho, Ricardo Peixoto, que tampouco conseguiu se eleger. Sua impressionante série foi, assim, interrompida.

No entanto, Peixoto não parou. Após tentar mais de uma vez, sem sucesso, voltar à Câmara, a urna voltou a sorrir para ele em 2020. Pelo pequeno PROS, partido que não existe mais, ele conseguiu chegar ao seu oitavo mandato, com cerca de 1,8 mil votos. Essa eleição também marcou o retorno de Vidigal à Prefeitura da Serra, para seu quarto mandato.
Durante os quatro anos da legislatura, Peixoto foi o líder do prefeito na Câmara. “Dos quatro mandatos de Vidigal, participei de três como vereador”, conta ele.
No último pleito municipal, em 2024, o “serrano da gema” decidiu se filiar ao PDT de Vidigal para buscar a reeleição. Era uma chapa pesadíssima. Mesmo com 2.421 votos, ele ficou como 2º suplente do partido.
Agora, não a urna, mas a sorte – ou, se preferirem, a Justiça – sorri para o calejado vereador, com o afastamento de dois vereadores do PDT – além de Teilton Valim, um dos quatro afastados é Saulinho da Academia, que presidia a Câmara e também se elegeu pelo partido. A vaga, assim, caiu no seu colo. Não que ele tenha feito esforço algum para que isso acontecesse. Ao contrário.
Com o afastamento de quatro vereadores pela Justiça, em setembro, três dos respectivos suplentes se uniram numa ação judicial para que a Mesa Diretora da Câmara desse posse a eles imediatamente.
Após idas e vindas, prevaleceu a decisão do desembargador Júlio César Costa de Oliveira, do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), que determinou: posse aos suplentes, somente após 120 dias de afastamento, como prevê o Regimento Interno da Câmara da Serra.
Agora, no fim de janeiro, esse prazo foi alcançado. E o presidente interino convocou os quatro suplentes.
Na citada ação judicial, Peixoto foi o único dos quatro suplentes que decidiu não tomar parte. Preferiu esperar o desenrolar dos fatos, com a paciência de quem acumula quase 80 anos de vida, mais de 50 de vereança e oito mandatos nas costas.
“Fui tantas vezes vereador… Por que vou ficar brigando para abrir a vaga? Não. Agora, a vaga foi aberta. Mas vamos ver… Prefiro esperar até a posse”, afirma, cauteloso e vacinado contra reviravoltas.
Como pedetista e aliado de Vidigal, Peixoto evidentemente apoiará a administração do prefeito Weverson Meireles (PDT).
Definindo-se também como um “político polivalente”, ele cita a “terceira idade” como uma causa à qual pretende se dedicar no novo mandato. “É uma classe que tem aumentado muito no dia a dia… Sou prova disso, não é?”, brinca.
“Sou aquele político que vive no meio do povo, ouvindo o povo, conversando com o povo. Chego a dizer para algumas pessoas: se a política fosse um automóvel, o vereador seria o para-choque. Vamos ver…”
Sim, vamos ver qual história será contada no nono mandato do vereador que é fenômeno de longevidade. Quanto à história da política serrana, dos anos 1970 para cá, não pode ser contada sem passar por Sergio Peixoto.