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Sofreguidão
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Sofreguidão. Foto: jcomp/Freepik
Sofreguidão. Foto: jcomp/Freepik
Querido Arthur Little, Recentemente, ao rebater uma declaração de Fernando Haddad – o ministro afirmou que a Câmara está com muitos poderes de Grayskull –, você frisou algo que me chamou a atenção: “Não há nenhum desencontro em relação a isso. Portanto, se não houver nenhuma sofreguidão do lado de lá, penso que os deputados e líderes não gostarão.” Se os deixará insatisfeitos, não sei. Mas muito me agrada, e de maneira especial, a palavra “sofreguidão”. Como diz a moçada, você desbloqueou minha memória afetiva. Oriundo do período pós-Carlos Zéfiro, fui catequizado pelas – hum, hum – revistas adultas entre as quais adolesci, nos anos 90. Além das habituais saliências, suas páginas também traziam relatos de aventuras vividas por leitores, e o termo “sofreguidão” era recorrente nessas narrativas. Lembro-me de uma leitora que assinava seus textos com o pseudônimo “Xeque-Xeque”. Escreveu ela, certa vez: “Tirei todas as vestes do Bessias [a aventureira, na ocasião, estava com a rinite atacada], ajoelhei-me diante daquele presente de árabe, ops!, de grego, daquele deus em forma de potro, abocanhei seu Rolex e, com sofreguidão, besuntei toda aquela joia.” No livro “A casa dos budas ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro, há uma frase lapidar (de ladinho), largamente citada pelaí: “Viver é phoder”. Arthuzinho, a julgar pelo teu modus operandi no trabalho à frente – ou atrás – da presidência da Câmara, não duvido que você, seu danadinho, leve ao pé da letra a máxima da obra do escritor baiano. Com sofreguidão. Abraço, Felipe

SILÊNCIO

No que tange – e jamais “no tocante”, pois tenho alergia a locuções bozotoscas – tanto à literatura, quanto à (minha) própria vida, há momentos em que, sem pestanejar, prefiro prezar pela prosa do silêncio. Até porque é agosto e, afinal, o “Senhor da Terra” está entre nós. Atotô. É verdade que, em alguma fresta da tarde, um de meus diletos amigos, cultivador de bordões, há de irromper minha quietude com uma de suas invariáveis: “Como está o movimento?” Hei de respondê-lo, então, que ando violeiramente lento, “porque já tive pressa”. Anteontem, perguntei a outro camarada se ele estava bem. “Que motivo tenho para estar?”, devolveu-me. No que comentei que a acidez de sua franqueza me remeteu ao provocador Antônio Abujamra. “Que o velho Abu, de onde estiver, possa ‘amaldiçoar’ tua manhã”, desejei-lhe. Minutos antes, um amado irmãozinho havia me segredado que ser pescador do Rio Itapemirim é objetivo de vida (complementei que talvez seja, também, subjetivo de poesia). “Que Rubem Braga, de onde estiver, possa abençoar teu amanhã”, rezo agora, em silêncio.
*Felipe Bezerra é jornalista, escritor, letrista e, com muito orgulho, macumbeiro. Natural do subúrbio do Rio de Janeiro, Bezerra vive em Cachoeiro de Itapemirim, no ES. É autor do livro “Deu Bezerra no Milhar!” (Cachoeiro Cult, 2016) e um dos 34 coautores da antologia de crônicas “O meu lugar” (Mórula, 2015), em ocasião dos 450 anos do RJ. Atualmente, mantém a coluna semanal “Chuva Fina”, no jornal Espírito Santo de Fato.

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