Se tinha uma palavra que não saía da boca de ninguém na ESX 2026, sexta e sábado passados na Praça do Papa, era “conexão”. Ela estampava painéis, apresentações, estandes e até as entrevistas. Faz sentido: eventos de inovação vivem de juntar gente que, fora dali, talvez nunca se encontrasse no Espírito Santo.
Mas, terminada a feira, uma outra palavra começou a rondar quem prestou mais atenção: resultado.
Não que os números tenham sido ruins. Pelo contrário. Público cresceu, visitantes de fora do Estado aumentaram, os corredores lotaram. E os R$ 41 milhões em intenções de negócio viraram manchete na hora. É um número bonito e merece crédito – a organização do Sebrae ES e do MCI caprichou.
A reflexão que propomos aqui, após absorver a empolgação, é questionar algo que pode até nos sacudir: e agora, quanto disso vira contrato real?
Daqui a seis meses, um ano, quantas daquelas conversas viraram investimento, emprego, escala de startup? Ninguém tem essa resposta hoje – nem os organizadores, que fizeram um trabalho excelente, mas não são mágicos. Resultado pós-evento demora a aparecer.
Mas é justamente aí que a ESX pode dar um próximo passo. Se a inovação virou pauta estratégica para o ES, talvez o debate precise evoluir de “quantos vieram” para “o que aconteceu depois que foram embora”. Porque cartão de visitas trocado não paga boleto.
A edição de 2026 deixou claro que a feira já superou a fase de ser medida só por público, palestrantes e barulho nas redes. Ninguém duvida mais da capacidade de mobilização do evento. A dúvida agora é outra: qual é a capacidade de transformação econômica desse ecossistema?
Quem andou pela Praça do Papa percebeu uma mudança sutil, mas importante. Há alguns anos, uma feira de inovação era coisa de startup, desenvolvedor e empresa de TI. Desta vez, a inovação aparecia misturada com logística, agronegócio, indústria, comércio e serviços. A tecnologia parecia menos estrela e mais ferramenta – uma busca por soluções práticas para problemas reais. Isso, sim, é sinal de amadurecimento. Quando a inovação deixa de ser um setor e vira recurso para vários, o impacto econômico tende a disparar.
Outra coisa que passou meio batida foi a presença do interior. É natural que a atenção se concentre na Grande Vitória – ela segue o polo econômico do Estado. Mas projetos de Colatina, Cachoeiro, São Mateus e outras regiões apareceram com força.
Ainda não dá pra cravar que a inovação capixaba está se descentralizando, mas a movimentação sugere uma pergunta interessante para os próximos anos: a ESX só reúne quem já está no circuito ou está ajudando a criar novos polos? Se for só o primeiro caso, o impacto fica concentrado. Se for o segundo, o efeito pode ser bem maior que os R$ 41 milhões anunciados.
O Espírito Santo vem, nos últimos anos, disputando espaço em agendas que antes pareciam coisa de São Paulo, Minas ou Santa Catarina – tecnologia, empreendedorismo, inovação aberta, atração de investimentos. A ESX virou um termômetro desse movimento. Mostra que tem interesse, tem gente, tem ecossistema.
Mas o próximo termômetro precisa ser outro: eficiência. No mundo dos negócios, atividade gera movimento; resultado gera desenvolvimento. A ESX já mostrou que sabe gerar movimento – as filas, os corredores cheios, os números divulgados provam isso.
O desafio agora é saber quantos investimentos nasceram daquelas conversas. Quantas empresas cresceram. Quantas startups escalaram. Quantos empregos vieram depois.
Porque a força de um ecossistema não aparece no fim de semana do evento. Aparece nos meses seguintes, quando as conexões viram contratos e as oportunidades viram negócio de verdade.
E, olhando a trajetória da ESX, fica claro que essa é a discussão que vem por aí. Vai além de quantas pessoas passaram pela Praça do Papa – mas quantas oportunidades continuaram caminhando juntas depois que os estandes foram desmontados.





