A comparação entre Espírito Santo e Holanda ajuda a desmontar uma ideia ainda comum no debate agrícola: a de que competitividade no campo depende principalmente de território. A Holanda, mesmo com área menor que a do Espírito Santo, consolidou-se como uma das maiores exportadoras agrícolas do mundo. O segredo não está na abundância de terras, mas na capacidade de produzir mais valor por hectare.
A experiência holandesa mostra que agricultura moderna é cada vez menos sinônimo de expansão territorial e cada vez mais resultado de tecnologia, capital, pesquisa, logística, energia e gestão. Ao longo de décadas, o país estruturou um sistema integrado entre universidades, centros de pesquisa, produtores, empresas, infraestrutura e financiamento. O agro deixou de ser apenas atividade primária e passou a operar como setor altamente tecnológico, conectado às cadeias globais de valor.
Essa reflexão é especialmente importante para o Espírito Santo. O Estado possui limitações naturais de expansão territorial, mas reúne atributos relevantes para um modelo agrícola baseado em produtividade. Sua proximidade com portos, sua forte inserção no comércio exterior e suas cadeias agrícolas consolidadas criam condições para uma agenda de desenvolvimento fundada em eficiência, inovação e agregação de valor.
A agricultura intensiva em capital muda a lógica produtiva. O foco deixa de ser apenas ampliar área cultivada e passa a ser elevar produtividade, qualidade, previsibilidade e renda por unidade de terra. Isso exige irrigação, mecanização, genética, conectividade, inteligência de dados, armazenagem, crédito e gestão profissionalizada.
O café conilon capixaba é um exemplo concreto. O Espírito Santo tornou-se referência nacional em produtividade porque parte relevante da cadeia incorporou pesquisa, tecnologia e modernização. A valorização do conilon também elevou o valor das terras em diversas regiões, mostrando que a capacidade de gerar renda passou a pesar mais na dinâmica econômica do campo.
Os efeitos da modernização agrícola vão além da propriedade rural. Uma agricultura mais intensiva em capital demanda máquinas, energia, manutenção, logística, armazenagem, serviços financeiros, tecnologia e mão de obra qualificada. Isso amplia encadeamentos econômicos e fortalece setores urbanos ligados ao agro.
O desafio é evitar a ilusão de que vantagens climáticas ou vocações históricas serão suficientes. O mercado internacional valoriza cada vez mais rastreabilidade, sustentabilidade, qualidade e previsibilidade. Regiões que continuarem dependentes apenas da produção de commodities tendem a enfrentar margens menores e maior vulnerabilidade. Já aquelas capazes de incorporar tecnologia e gestão ampliam valor agregado e resiliência.
Para o Espírito Santo, a oportunidade passa por integrar agro, logística, energia e inovação. Portos competitivos, projetos ferroviários, energia renovável e possíveis cadeias de fertilizantes verdes podem reforçar essa estratégia. Mas isso exigirá segurança jurídica, financiamento de longo prazo, conectividade rural, gestão hídrica e qualificação da mão de obra.
O futuro do agro capixaba não está em tentar ser grande pela extensão territorial. Está em ser grande pela produtividade, pela tecnologia e pela capacidade de gerar valor. A Holanda mostra que território pequeno não impede ambição econômica. O que limita o desenvolvimento é a falta de coordenação, planejamento e investimento em produtividade.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.
Sobre o autor

Felipe Storch Damasceno é economista-chefe do IBEF-ES.





