Engenharia no Dia a Dia
Toda obra dá problema? Será mesmo?
Foto: Magnific

Quem já construiu, está construindo ou pretende construir provavelmente já ouviu a frase: “toda obra dá problema”. Ela é repetida com tanta frequência que passa a ser tratada como verdade absoluta. Mas, tecnicamente, isso não deveria ser normalizado.

Obra não precisa dar problema. Muitas obras começam sem planejamento adequado, projetos compatibilizados, escopo definido, orçamento realista e gestão técnica. Nesses casos, o problema não nasce no canteiro. Ele apenas aparece nele.

Estudos apontam que obras brasileiras analisadas apresentaram, em média, 6,52% de estouro de orçamento e 21,26% de estouro de cronograma. E estamos falando apenas de custo e prazo. Quando entram retrabalhos, falhas de qualidade, conflitos contratuais e perda de desempenho, o impacto pode ser maior.

Como engenheiro, é preciso falar sobre isso com responsabilidade. Atrasos e estouros têm causas conhecidas: planejamentos superficiais, projetos incompletos, mudanças de escopo, contratação pelo menor preço, baixa produtividade, logística deficiente e ausência de controle técnico.

Há ainda um fator pouco discutido: as promessas irreais.

Seja em obra pública ou privada, quem contrata quer que a obra termine antes, custe menos e tenha qualidade superior. A expectativa é compreensível. O problema é quando essa pressão substitui o critério técnico. Engenharia não pode ser guiada por otimismo comercial, promessa política ou discurso de venda.

Toda obra envolve uma equação entre prazo, custo, qualidade e escopo. Quando se tenta reduzir tudo ao mesmo tempo, sem método, alguém paga a conta. Essa conta aparece em aditivos, paralisações, retrabalhos, disputas contratuais ou queda na qualidade final.

A solução não está em aceitar que “obra é assim mesmo”, mas em mudar a forma como as obras são pensadas antes de começarem.

Em culturas construtivas disciplinadas, como a japonesa, a fase de planejamento recebe atenção especial. Antes da execução, estudam-se riscos, métodos, logística, projetos, orçamento e cronograma. A obra flui melhor porque o improviso é reduzido.

No Brasil, ainda existe o hábito de começar rápido e resolver os problemas depois. Esse é um erro caro.

A fase pré-obra precisa ser estratégica. É nela que devem ser definidos orçamento, cronograma físico-financeiro, escopo, responsabilidades, riscos, compatibilização dos projetos e critérios para escolha da executora.

Depois que a obra começa, outro ponto se torna indispensável: a fiscalização técnica.

Obra não deve ser fiscalizada apenas pelo proprietário, síndico, gestor financeiro ou por alguém sem formação técnica. Leigo não foi feito para fiscalizar obra de engenheiro, construtora ou empreiteiro. Fiscalizar exige leitura de projeto, análise de medições, controle de qualidade, cronograma e identificação de desvios antes que virem prejuízo.

Fiscalizar não é atrapalhar a obra. Fiscalizar é proteger o investimento, o contratante, os usuários e a própria empresa executora séria.

Portanto, a pergunta correta não é se toda obra dá problema. A pergunta correta é: a obra foi planejada, orçada, contratada e fiscalizada tecnicamente?

Quando a resposta é não, os problemas deixam de ser imprevistos e passam a ser consequência.

Obra bem-sucedida não é a vendida como a mais barata ou a mais rápida. É a que possui escopo claro, orçamento coerente, cronograma viável e acompanhamento técnico do início ao fim.

Só assim a construção deixa de ser uma aposta e passa a ser um processo de engenharia.

Foto de Filipe Machado

Filipe Machado

Engenheiro Civil e Ambiental, Técnico em Edificações e pós-graduado em Gerenciamento de Projetos pela FGV. Atua há mais de 14 anos nas áreas de perícias de engenharia, auditorias técnicas, consultorias especializadas, inspeções prediais e gestão de obras. É Diretor-Geral da Mútua-ES (Gestão 2025–2027), ex-conselheiro do CREA-ES e ex-coordenador nacional do CDER no Sistema Confea/Crea.

Leia também

Para melhorar a sua navegação, nós utilizamos Cookies e tecnologias semelhantes.
Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Política de Privacidade