Muito se falou apenas da compra como grande alvo apenas para a Medicina da UVV. Mas, não é isso que a negociação apresentou como a estratégia para aquisição pela Clariens Educação, do fundo Mubadala Capital. Agora, ela entra no Espírito Santo com o controle da universidade capixaba
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou sem restrições, nesta sexta-feira (31), a compra da Universidade Vila Velha (UVV) pela Clariens Educação, empresa do grupo Mubadala Capital. A decisão, publicada no Diário Oficial da União, derruba a última barreira regulatória para a conclusão do negócio.
Agora, a transação aguarda apenas os trâmites finais entre as partes para ser oficializada.
O aval do Cade veio de forma rápida, como era esperado, já que a operação não apresenta complexidade concorrencial – não há sobreposição entre as atividades da compradora e da vendedora. O processo tramitou em rito sumário, modalidade reservada a negócios que não oferecem riscos à concorrência.
A Clariens Educação atua hoje nos mercados da Bahia, Goiás e Minas Gerais. Com a compra da UVV, a empresa amplia sua presença geográfica e chega ao Espírito Santo. A universidade, com maior campus localizado em Vila Velha, é uma instituição consolidada no mercado capixaba, com uma ampla gama de cursos presenciais e semipresenciais.
E aqui neste ponto mora o diferencial desta coluna sobre a informação do negócio. A UVV oferece o curso de medicina no município de Vila Velha. E, justamente, medicina é central na estratégia de atuação da Clariens, sendo que várias de suas instituições são dedicadas exclusivamente ou majoritariamente a este curso.
Vale também reportar que o curso de medicina possui critérios de análise específicos pelo CADE devido à sua particularidade de mercado: enquanto outros cursos presenciais são analisados em âmbito municipal ou por raios de influência, o CADE entende que, devido à alta procura, é razoável analisar o cenário geográfico de medicina em âmbito estadual.
Então, mesmo com essa análise estadual, não há conflitos na negociação.
A justificativa estratégica (da própria compradora) para o negócio é outra!
O que chama mais atenção na transação, porém, é outro movimento. A Clariens vai estrear no mercado de ensino a distância (EAD) em âmbito nacional. Até então, nem a compradora nem suas subsidiárias atuavam nesse segmento.
Com a UVV, a empresa herda uma estrutura que já oferta cursos na modalidade remota – e, com isso, ganha um novo canal de crescimento que antes não fazia parte do seu portfólio.
Do lado da instituição capixaba, a justificativa para a venda integral da participação na Sociedade Educação e Gestão de Excelência / Vila Velha S.A. (Segex) – a mantenedora da UVV – é a possibilidade de realocar recursos e concentrar esforços em outros projetos.
A Clariens Educação é o único veículo de investimento do Mubadala Capital no setor de ensino superior brasileiro. A empresa é integralmente detida pelo FIP MC Brazil Clariens, que faz parte dos ativos sob gestão da Mubadala Capital – uma plataforma global de gestão de ativos alternativos, subsidiária da Mubadala Investment Company, pertencente ao governo de Abu Dhabi.
Para se ter ideia do tamanho do grupo, a Mubadala Capital gere mais de US$ 600 bilhões em ativos globais. Os negócios de propriedade integral da gestora, que incluem o setor de private equity onde a Clariens se insere, investem mais de US$ 60 bilhões. É uma estrutura de peso, e isso traz implicações para o futuro da UVV.
O valor específico da transação, no entanto, não foi divulgado. O formulário de notificação ao Cade classifica as informações sobre preço e forma de pagamento como confidenciais, restritas ao tribunal e às partes envolvidas.
A coluna também demandou um posicionamento da Clariens sobre o negócio com a instituição do Espírito Santo há mais de uma semana, mas ainda não houve resposta.
Para a UVV, a entrada no grupo Clariens/Mubadala representa acesso a uma estrutura de investimentos e gestão de maior escala. A universidade capixaba, que tem tradição no ensino presencial, ganha musculatura para expandir sua atuação no EAD – um mercado em crescimento, que exige investimentos em tecnologia e plataformas digitais.
É um movimento que pode colocar a UVV num patamar diferente daqui para frente.
O Espírito Santo também tende a se beneficiar. Com a chegada de um grupo de peso no setor educacional, a expectativa é que a UVV amplie sua oferta de cursos, gere mais empregos e se consolide como uma das principais instituições de ensino superior do país.
Com a aprovação do Cade, a transação agora depende apenas da conclusão dos procedimentos contratuais entre as partes. A expectativa é que o negócio seja finalizado nos próximos dias, com a Clariens assumindo o controle da UVV e iniciando a integração das operações.
A entrada no Espírito Santo e no mercado de EAD representa um novo capítulo na trajetória de expansão da compradora – e, para a universidade capixaba, a chance de crescer com o respaldo de um dos maiores grupos de investimento do mundo.







