O excesso de procedimentos estéticos transformou rostos a ponto de torná-los irreconhecíveis e abriu espaço para um novo movimento na estética: a desarmonização. O alerta é da Elisângela Cozzer, profissional da saúde especializada em estética avançada e dermatológica, que aponta que a busca por padrões irreais tem levado pacientes a resultados difíceis de reverter.
Autora do livro Estética Mente Saudável, lançado em 2024, Elisângela explica que a desarmonização é consequência direta de uma fase marcada pelo exagero. Segundo ela, procedimentos que deveriam realçar a beleza natural passaram a modificar traços de forma excessiva, tanto por pedidos dos pacientes quanto por falhas na condução profissional.
Quando a harmonização vira excesso
A especialista explica que a harmonização facial surgiu com a proposta de valorizar características individuais, sem descaracterizar o rosto. O problema começou quando a técnica virou moda e passou a ser repetida sem critério. “Tudo que vira tendência acaba sendo feito em excesso. Hoje vemos celebridades retirando preenchimentos e tentando reverter procedimentos do passado”, afirma.
Elisângela observa que, em muitos casos, as pessoas deixam de reconhecer a própria imagem. O rosto perde identidade e passa a seguir um padrão repetido. Para a especialista, esse é o principal sinal de alerta. “O objetivo da harmonização é realçar o que a pessoa já tem, não transformá-la em outra”.
Responsabilidade é do profissional
A profissional destaca que a desarmonização não pode ser atribuída apenas ao desejo do paciente. Em alguns casos, há distúrbios de imagem, como o dismorfismo, em que a pessoa enxerga defeitos que não existem. Ainda assim, ela reforça que a responsabilidade final é do profissional.
Elisângela compara a situação a uma consulta médica, em que não cabe ao paciente definir medicação ou dosagem. “Quem tem o conhecimento técnico é o profissional. Cabe a ele dizer quanto, como e se deve ser feito”, afirma. Quando há sinais de distúrbio de imagem, o encaminhamento para psicólogos ou psiquiatras é parte do cuidado.
Dá para corrigir depois?
Segundo Elisângela, alguns excessos podem ser revertidos, mas com limites. Ela explica que, no caso do ácido hialurônico, é possível utilizar a hialuronidase para remover o produto, porém o procedimento pode deixar sequelas. Quando a pele é esticada e o material é retirado, pode haver flacidez, e o rosto não retorna exatamente às características originais.
Mesmo a cirurgia plástica tem restrições. A especialista afirma que é possível reestruturar pele e músculos, mas sem recuperar integralmente as características originais. “Volta, mas não 100%, resume.
Redes sociais e filtros distorcem a percepção
As redes sociais têm papel central nesse processo. Elisângela relata que é comum receber pacientes com fotos de celebridades pedindo um rosto igual. Ela explica que genética, idade, sexo e até filtros digitais tornam essa comparação irreal. “Os filtros afinam o rosto, aumentam os olhos e criam uma imagem que não existe no espelho”, diz.
De acordo com a especialista, o uso constante desses recursos pode afastar a pessoa da própria imagem e favorecer o desmorfismo. Por isso, ela defende a redução do uso de filtros e a valorização do espelho, destacando a importância de a pessoa se reconhecer como realmente é.
Caminho mais seguro é a estética natural
Para evitar a desarmonização, a orientação é clara: procurar profissionais capacitados, priorizar segurança e adotar uma estética mais humanizada. Elisângela explica que tecnologias podem ajudar nesse processo, como simulações que mostram resultados sutis antes do procedimento, sempre com decisão final do profissional.
A especialista também aponta uma mudança no mercado, com produtos que duram menos tempo e permitem ajustes graduais. A lógica é fazer aos poucos, observar o resultado e evitar exageros. “O menos é mais. Quando o foco é bem-estar, saúde e naturalidade, a estética contribui para uma autoestima mais sólida e verdadeira”, conclui.


