Quando uma anta se arrisca ao atravessar uma rodovia, ou quando um bando de queixadas se movimenta pela paisagem e enfrenta ameaças como caça e retaliações, o impacto se espalha pela floresta e reverbera na vida de todos nós. Esses grandes mamíferos herbívoros são essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas brasileiros. Sua preservação é, hoje, um dos grandes desafios contemporâneos, especialmente em regiões onde áreas urbanas e infraestrutura viária convivem lado a lado com ambientes naturais, como no Espírito Santo.
A anta brasileira, maior mamífero terrestre do país, enfrenta um cenário crítico, sendo classificada como vulnerável em nível global e nacional. A espécie atinge categorias mais severas de ameaça em escala regional: encontra-se em perigo na Mata Atlântica e criticamente em perigo em estados como o Espírito Santo, onde a espécie está restrita a apenas duas áreas florestais: a Reserva Biológica do Córrego do Veado e o Complexo Florestal Linhares-Sooretama.
Um estudo publicado em 2022 indica que, nesse bioma, a espécie ocupa hoje menos de 2% de sua distribuição histórica, o que reflete décadas de perda de habitat, caça e atropelamentos. Sua extinção traria uma perda inestimável ao bioma, considerando seu papel como a “jardineira das florestas”, responsável por dispersar sementes e contribuir diretamente para a regeneração ambiental.
Já a queixada é um mamífero cuja alimentação é baseada principalmente em frutos, que anda em bandos numerosos e atua como uma verdadeira “engenheira da floresta”. Ao fuçar e pisotear o solo, e ao mastigar e dispersar sementes, acaba por determinar a estrutura da vegetação e até modificar o comportamento de outras espécies.
No entanto, assim como a anta, a queixada sofre os efeitos da fragmentação do habitat e da pressão humana, sobretudo na Mata Atlântica, onde está criticamente em perigo. No Espírito Santo, a espécie encontra-se em perigo de extinção, sobrevivendo em apenas três blocos florestais do estado, sendo um deles o Complexo Florestal Linhares–Sooretama.
Em relação aos atropelamentos, os números ajudam a dimensionar o problema. No Brasil, estima-se que cerca de 475 milhões de animais silvestres sejam atropelados por ano, segundo o estudo da Universidade Federal de Lavras. Outro levantamento posterior, do pesquisador Alex Bager, estima que mais de dois milhões desses animais são de médio e grande porte, com atropelamentos registrados inclusive dentro de unidades de conservação. Esses acidentes representam uma perda significativa para a biodiversidade e impactam diretamente a segurança viária.
Nas áreas protegidas o cenário também é preocupante. Levantamentos realizados em unidades de conservação brasileiras mostram que espécies como o cachorro-do-mato, a anta, o tamanduá-bandeira e a capivara estão entre as vítimas recorrentes de atropelamentos. E há um agravante importante: estudos da USP indicam que muitos dos animais mortos são saudáveis e em idade reprodutiva, o que compromete a capacidade de recuperação das populações.
No Espírito Santo, esse desafio ganha contornos ainda mais estratégicos. O estado abriga espaços relevantes de Mata Atlântica, como o Complexo Florestal Linhares-Sooretama, um dos principais refúgios de biodiversidade do país, com cerca de 50.000 hectares distribuídos em quatro municípios do norte capixaba. Essa região concentra grupos importantes de mamíferos, ao mesmo tempo em que é cortada por rodovias com fluxo intenso e estradas vicinais, criando um cenário sensível de interação entre fauna, comunidades e infraestrutura.
É justamente nesse contexto que iniciativas como o projeto “Grandes Herbívoros de Sooretama”, que acaba nascer fruto de uma parceria entre a Ecovias Capixaba e o Instituto Pró-Tapir para a Biodiversidade, se tornam fundamentais. Mais do que uma ação ambiental, trata-se de um compromisso com a ciência, a segurança e o futuro.
Compreender e enfrentar os impactos das rodovias sobre essas espécies exige, antes de tudo, conhecimento sólido sobre sua ecologia, sua saúde e seus padrões de movimento na paisagem. É justamente essa base que o “Grandes Herbívoros de Sooretama” se propõe a construir: ao investigar como esses animais se deslocam e utilizam o território, a iniciativa visa gerar informações capazes de subsidiar, no futuro, decisões práticas e políticas voltadas à conservação dessas populações.
Esse tipo de conhecimento é insumo essencial para que empresas, órgãos e instituições responsáveis possam, em suas respectivas esferas de atuação, avaliar medidas de mitigação, desde a identificação de pontos críticos de travessia até soluções como passagens de fauna e revisão de limites de velocidade. Afinal, associar conhecimento técnico, inovação e gestão responsável é o melhor caminho para reduzir os riscos tanto para os animais quanto para os usuários das rodovias.
Proteger a anta e a queixada é proteger a própria floresta e os resultados ambientais que sustentam a vida, como a regulação do clima, a produção de água e a conservação do solo. São espécies que, mesmo discretas, desempenham funções indispensáveis.
O desafio é grande. Por isso, investir em ações estruturadas de produção de conhecimento aplicável e em iniciativas concretas de proteção é um passo importante para garantir que esses animais continuem a percorrer as florestas, e não apenas as estatísticas.
Sobre os autores
Thiago Cardoso Pinto é coordenador de Sustentabilidade da Ecovias Capixaba, e Andressa Gatti é diretora executiva do Instituto Pró-Tapir para a Biodiversidade.





