O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, mas ainda convive com um paradoxo importante: a energia chega cara ao consumidor final. Para as famílias, isso reduz renda disponível e pesa mais fortemente sobre os orçamentos de menor renda. Para as empresas, encarece a produção, reduz margens, compromete investimentos e diminui a competitividade. Em setores intensivos em energia, como metalurgia, química, fertilizantes, papel e celulose, processamento de dados e combustíveis sustentáveis, o custo da eletricidade pode definir se um projeto será viável no Brasil ou se será deslocado para outro país.
Esse custo elevado não decorre apenas da geração de energia. A conta de luz incorpora transmissão, distribuição, encargos, tributos, subsídios, perdas e decisões de política pública financiadas pela tarifa. Algumas dessas políticas podem ter justificativa social ou regional, mas, quando pouco transparentes, acabam reduzindo a eficiência do sistema e transferindo custos para toda a sociedade. Por isso, discutir energia competitiva não significa defender artificialismo tarifário, mas sim eficiência, previsibilidade regulatória e melhor alocação dos custos.
Outro ponto central é a infraestrutura de transmissão. A expansão das fontes renováveis mudou a geografia da energia no Brasil. A geração eólica e solar cresce em regiões muitas vezes distantes dos grandes centros de consumo e dos polos industriais. Sem redes robustas, inteligentes e bem planejadas, o país pode ter energia limpa disponível em uma região e gargalos de atendimento em outra. Isso gera desperdício, aumenta custos e limita a capacidade brasileira de transformar sua matriz renovável em vantagem produtiva.
A segurança do fornecimento também se tornou um ativo econômico estratégico. Em uma economia digitalizada, falhas no suprimento de energia não afetam apenas o conforto dos consumidores. Elas comprometem fábricas, hospitais, sistemas financeiros, telecomunicações, comércio eletrônico e cadeias logísticas. Para data centers, por exemplo, energia contínua, estável e escalável é condição básica de localização. O Brasil tem potencial para atrair esses investimentos, especialmente por sua matriz limpa, mas precisa oferecer confiabilidade compatível com padrões globais.
Nesse sentido, instrumentos como o leilão de reserva de capacidade e o futuro leilão de sistemas de armazenamento ganham importância. A reserva de capacidade permite contratar potência firme para momentos críticos, enquanto baterias e outras tecnologias de armazenamento ajudam a deslocar energia no tempo, reduzir desperdícios de geração renovável e dar mais flexibilidade ao sistema. O desafio é equilibrar segurança e custo. Contratar pouco aumenta o risco de instabilidade. Contratar em excesso pressiona a tarifa.
Mais do que uma agenda elétrica, essa é uma agenda de desenvolvimento. A infraestrutura de estabilização energética precisa ser pensada em conjunto com investimentos produtivos voltados à nova economia. Fertilizantes verdes, aço verde, hidrogênio, amônia, combustíveis sustentáveis de aviação, data centers e créditos de carbono dependem de energia limpa, mas também de transmissão, armazenamento, estabilidade, logística, licenciamento ágil e segurança jurídica.
O Brasil tem ativos raros: matriz renovável, potencial eólico e solar, base hidrelétrica, biomassa, experiência em biocombustíveis, agronegócio sofisticado e posição relevante no comércio internacional. Mas recursos naturais, sozinhos, não garantem liderança. A vantagem precisa ser construída por meio de infraestrutura, regulação e planejamento.
A transição energética será uma disputa por capital, tecnologia, cadeias produtivas e confiança. O país que conseguir oferecer energia limpa, barata, estável e conectada à produção terá vantagem na nova geoeconomia mundial. O Brasil tem condições de ocupar esse espaço. Para isso, precisa tratar o setor energético não apenas como fornecedor de eletricidade, mas como base da produtividade, da reindustrialização verde e da competitividade de longo prazo.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.
Sobre o autor

Felipe Storch Damasceno é economista-chefe do IBEF-ES.




