Nas últimas semanas, uma notícia que circulou no Espírito Santo me chamou atenção, principalmente pela insistência com que apareceu. Em Castelo, no sul do estado, a gestão municipal tem apostado na reprodução de ícones europeus como estratégia para ganhar visibilidade. Primeiro veio a proposta de instalar uma versão da Fontana di Trevi, fonte romana. Agora surge uma cabine telefônica, réplica do modelo londrino. Isso expõe uma forma de pensar a cidade baseada na cópia de equipamentos externos. Quem passa por ali talvez ache curioso, tire uma foto, compartilhe. Mas vale a pergunta: o que exatamente estamos consumindo quando fazemos isso? Longe de configurar uma homenagem, esse tipo de iniciativa se aproxima mais de um pastiche, uma repetição literal deslocada de contexto, que evidencia certo desespero por atrair visitantes a qualquer custo.
Reconheço que a circulação de referências culturais entre países não é algo novo. Ao longo da história, diferentes sociedades se influenciaram mutuamente, seja por meio de rotas comerciais, processos coloniais ou intercâmbios artísticos. Pense em quantos hábitos do seu dia a dia vieram de fora, na comida, na música, nas roupas. Isso não é, por si só, um problema. Aquilo que somos também nasce daí. No entanto, no contexto contemporâneo da globalização, essa troca ganha outra escala e pode intensificar processos de esvaziamento simbólico dos lugares.
Se você já caminhou pelo Centro de Castelo, talvez se lembre de um antigo casarão que existia ali, pertencente à família Vivacqua. Ele foi demolido após a prefeitura indicar danos estruturais e risco para quem passava pelo local. A justificativa é técnica, mas me pergunto: diante do risco, só existia mesmo a opção de apagar essa história do mapa? Ora, a própria cidade é conhecida por ter sua história marcada por imigrantes italianos, o que torna a alusão à Fontana di Trevi, ainda que discutível, ao menos compreensível em algum nível. Apesar disso, é importante que decisões como essa levem em conta a diferença entre referência e reprodução.
O Teatro Carlos Gomes, um dos marcos culturais capixabas, é um exemplo de como o arquiteto André Carloni utilizou referências europeias, dialogando com a tradição dos teatros italianos sem se limitar à cópia. Já a escolha por reproduzir a cabine inglesa parece ainda mais deslocada. Isso fica mais evidente quando lembramos que o Brasil produziu seus próprios ícones urbanos, como o orelhão, criado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, em 1971, e reconhecido internacionalmente. Ou seja, não faltam símbolos capazes de gerar identidade.
Em um país relativamente jovem como o Brasil, cuja riqueza cultural é vasta e ainda está em construção, esse tipo de escolha pode sinalizar a dificuldade de reconhecer e valorizar a própria produção cultural, especialmente quando decisões públicas deixam de cumprir esse papel.
Talvez o desafio não esteja em buscar referências fora, mas em aprender a olhar para dentro com mais atenção. Da próxima vez que você encontrar um desses cenários que tentam simular “outros lugares”, muitas vezes de forma superficial, vale se perguntar: o que da minha cidade poderia estar aqui no lugar disso? O que ainda não foi visto, valorizado, reconhecido? Porque, no fim, copiar é fácil, mas cidades que nos marcam positivamente são aquelas que conseguem ser autênticas e, ainda assim, fazer com que a gente se reconheça nelas, sem se limitar a replicar o que não lhes pertence.

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