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Fim da escala 6×1: a conta que inevitavelmente chega ao consumidor
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Fim da escala 6x1 já é debatido em diversas esferas sociais. Foto: Divulgação
Fim da escala 6x1 já é debatido em diversas esferas sociais. Foto: Divulgação

O debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil voltou ao centro da agenda econômica e política. A proposta de acabar com a escala 6×1, abraçada como vitrine eleitoral pelo governo federal, reacende uma discussão legítima sobre qualidade de vida, mas que precisa ser enfrentada com responsabilidade econômica.

A redução da jornada, embora socialmente atraente, gera custos adicionais para as empresas. Não se trata de resistência ao avanço das relações de trabalho, mas de reconhecer um dado central da economia brasileira. Em um país que convive há décadas com baixa produtividade e perda de competitividade, qualquer aumento estrutural de custos tende a ser absorvido pela cadeia econômica e, ao final, repassado ao consumidor. Ignorar essa relação de causa e efeito é fechar os olhos para a dinâmica real do mercado.

Esse impacto, no entanto, não se restringe ao setor empresarial. A redução da carga horária, sem ajustes estruturais, também pressiona as contas públicas e reverbera em áreas essenciais como educação, saúde e segurança. Escolas, hospitais, forças policiais e demais serviços públicos, que igualmente dependem de força de trabalho intensiva, teriam seus custos ampliados, exigindo mais contratações ou aumento de despesas. Em última instância, isso também recai sobre a sociedade, seja por meio de impostos, seja pela limitação da capacidade de investimento do Estado. A população precisa entender que isso é diminuir o atendimento do seu posto de saúde, da qualidade da educação dos seus filhos etc.

No setor de bares e restaurantes, esse impacto é ainda mais sensível. Trata-se de um segmento intensivo em mão de obra, com margens apertadas, alta carga tributária e forte dependência do consumo das famílias. Qualquer alteração que aumente o custo do trabalho, sem uma contrapartida de ganho real de produtividade, pressiona diretamente os preços finais, do cafezinho ao prato principal.

É importante deixar claro que o setor não é contrário à modernização das relações de trabalho nem ao bem-estar dos trabalhadores. Pelo contrário. Bares e restaurantes empregam milhões de brasileiros, muitos deles em seu primeiro emprego formal. Mas discutir redução de jornada sem enfrentar gargalos estruturais, como produtividade, qualificação profissional, custo do crédito e ambiente tributário, é inverter a ordem dos fatores.

Hoje, o Brasil já opera, na prática, com uma jornada média de cerca de 38 horas semanais. Avançar para um novo modelo exige planejamento, transição e, sobretudo, condições econômicas que sustentem essa mudança. Caso contrário, o efeito colateral é previsível. Aumento de preços, retração do consumo e, em alguns casos, fechamento de postos de trabalho, exatamente o oposto do que se pretende alcançar.

No Espírito Santo, onde bares e restaurantes desempenham papel relevante na economia, no turismo e na geração de renda, o debate precisa ser ainda mais cuidadoso. O setor já enfrenta desafios como juros elevados, dificuldade de acesso a crédito e instabilidade no consumo. Acrescentar novos custos, sem um ambiente favorável ao crescimento, é comprometer a sobrevivência de milhares de pequenos e médios negócios.

A discussão sobre jornada de trabalho é legítima e necessária. Mas não pode ser tratada como slogan. Precisa estar inserida em uma agenda econômica mais ampla, que contemple aumento de produtividade, redução do custo Brasil, segurança jurídica e estímulo ao investimento. Além disso, é fundamental que o próprio governo participe da equalização dessa transição, adotando medidas concretas que reduzam o impacto sobre os setores produtivos — como a desoneração da folha de pagamento e a revisão de encargos que incidem sobre o trabalho formal. Sem esses fundamentos e sem a corresponsabilidade do poder público, o discurso pode até soar bem, mas a conta, no fim do mês, continuará recaindo sobre quem consome e sobre quem empreende.


*Rodrigo Vervloet é presidente do Sindbares/Abrasel ES

 

 

 

 

 


 

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