Após décadas convivendo com uma miopia extrema, de 30 graus, Ângela Conceição, de 54 anos, viu a própria rotina mudar depois de passar por uma cirurgia em março. Segundo ela, a transformação foi imediata, tanto na forma de enxergar quanto de viver.
Diagnosticada ainda criança, Ângela cresceu lidando com limitações severas de visão. Com o passar dos anos, o grau aumentou e afetou diretamente sua vida pessoal, escolar e social. “Minha rotina sempre foi muito difícil. Eu não enxergava. Tive que parar de estudar porque não conseguia ver o quadro. Sempre tive vergonha”, relembra.
Limitações ao longo da vida
Sem acesso a acompanhamento oftalmológico adequado, Ângela enfrentou dificuldades que limitaram sua autonomia. Nunca conseguiu tirar carteira de motorista, evitava sair sozinha e tinha dificuldade até para reconhecer pessoas.
“Eu usava um óculos muito grosso. Casei aos 16 anos e, aos 18, meu marido conseguiu comprar uma lente de contato para mim, porque eu não conseguia mais usar o óculos, me cortava, pesava muito. Eu moro há mais de 20 anos no mesmo lugar e não conhecia meus vizinhos pelo rosto, só pela voz”, conta.
Piora após crise emocional
Em 2024, a situação se agravou após um período de depressão, motivado pela distância dos filhos, que passaram a morar no exterior. Segundo Ângela, o quadro emocional refletiu diretamente na visão.
“Eu só chorava e fui deixando de enxergar ainda mais. Quando fui ao médico, levei um susto: meu nível de miopia tinha ido para o grau 30”, relata.
Uma possibilidade inesperada
Durante anos, ela ouviu que não havia solução cirúrgica para o seu caso. Em 2025, no entanto, descobriu que poderia realizar o procedimento. Após uma tentativa interrompida pela morte do médico que a acompanhava, chegou ao Hospital dos Olhos de Vitória, onde foi atendida pelo oftalmologista Pedro Trés Vieira Gomes.
“Quando cheguei, fiz todos os exames no mesmo dia e já saí com a cirurgia marcada. Ele me passou muita segurança”, afirma.
Caso raro e avanço da medicina
De acordo com o médico, o caso exige avaliação cuidadosa. Ele explica que “esta cirurgia nós fazemos rotineiramente, porém não com tanta frequência nesse grau”, ao destacar que se trata de uma miopia extremamente alta, com grande impacto na qualidade de vida.
Segundo ele, o avanço das técnicas e das lentes intraoculares ampliou as possibilidades de tratamento. O objetivo, como explica, é não apenas melhorar a visão, mas devolver autonomia ao paciente.
Mudança imediata
A cirurgia foi realizada em março e, segundo Ângela, ocorreu de forma tranquila. “Eu não senti nada. Foi muito tranquilo. Meu marido estava mais nervoso do que eu. O resultado veio logo depois e superou expectativas. É muito melhor do que eu imaginava. Minha vida começou agora”, afirma.
Nova rotina
Com a visão recuperada, atividades simples passaram a fazer parte do dia a dia. Ela conta que hoje consegue sair sozinha, caminhar com segurança e se orientar com mais facilidade.
“Eu nunca pude andar sozinha, principalmente à noite. Tinha medo de sair, de bater em alguma coisa, de não reconhecer as pessoas”, relata. Situações que antes eram comuns ficaram no passado. “Uma vez bati de frente com uma porta de vidro porque não enxerguei. Hoje eu consigo ver, consigo me orientar. Parece que estou começando a viver agora”.
Planos e recomeço
Com a mudança, Ângela começou a tirar planos antigos do papel. Já iniciou o processo para tirar a carteira de motorista e começou um curso de estética, algo que sempre quis fazer.
“Eu sempre fui muito fechada por causa disso. Hoje não. Hoje eu me sinto mais livre”, diz.
Para o médico, histórias como a dela mostram a importância de buscar alternativas. Ele afirma que “não estamos falando apenas de visão, mas de devolver dignidade, autoestima e liberdade”, ao destacar o impacto direto na vida do paciente.


