Mais da metade das pessoas com diabetes não sabe que tem a doença, e alguns dos primeiros sinais podem surgir justamente na boca. O alerta ganha relevância diante do avanço dos casos no Brasil, que já soma cerca de 16,8 milhões de pessoas com diabetes, segundo dados do Ministério da Saúde.
A projeção é que esse número chegue a 21,5 milhões até 2030, de acordo com o Atlas Internacional do Diabetes, da Federação Internacional do Diabetes. Nesse cenário, a identificação precoce dos sintomas pode ajudar no diagnóstico e no controle da doença.
Segundo o cirurgião-dentista e especialista LATAM do Departamento de P&D da S.I.N., Fábio Azevedo, os sinais iniciais nem sempre são facilmente percebidos pelo paciente, mas podem se manifestar na saúde bucal.
“No começo, a diabetes geralmente não apresenta sintomas tão aparentes, mas a boca pode indicar evidências iniciais da doença, como secura, gengiva vermelha, halitose persistente e aftas”, explica. Ele acrescenta que pessoas com diabetes também apresentam maior risco de desenvolver problemas bucais.
Como a diabetes afeta a saúde bucal
O especialista aposta que a relação entre diabetes e saúde bucal está ligada ao impacto da doença sobre o controle da glicemia e a circulação sanguínea. “Isso acontece porque o diabetes afeta o controle de glicemia no organismo, atingindo a circulação sanguínea e diminuindo o fluxo salivar, o que, como consequência, deixa a boca mais seca, com alteração do PH da saliva e perda do seu efeito protetor”, afirma.
Segundo Fábio Azevedo, a redução da proteção natural da saliva favorece o surgimento de infecções e outras complicações. “Desta forma, a cavidade bucal fica mais propensa a infecções, como periodontite (infecção bacteriana dos tecidos da boca), além da maior suscetibilidade para ser atingida pelo vírus da herpes e cândida”, completa.
Entre os sinais que podem estar relacionados à diabetes estão:
Gengiva vermelha e sensível: a alta taxa de glicose no sangue facilita para que a boca fique mais vulnerável ao crescimento de bactérias, surgindo, assim, a periodontite. “Em um primeiro momento, a proliferação destes microrganismos deixa as gengivas vermelhas, sensíveis, doloridas e inchadas, podendo haver até sangramento ao escovar”, explica o especialista, acrescentando, ainda, que a presença constante de periodontite, quando não tratada, leva à degradação dos tecidos da boca (gengiva e mucosa alveolar), e pode também contribuir para aumento da resistência à insulina, agravando o quadro da doença.
Boca seca: também conhecida como Xerostomia, a secura da boca decorre da menor produção de saliva, a partir do aumento de açúcar no sangue. “A boca seca afeta a capacidade de engolir e, até mesmo, altera o paladar”, explica Azevedo. “Vale lembrar que a saliva ajuda a retirar as partículas de alimentos e bactérias dos dentes, neutralizando os ácidos da boca, o que auxilia na prevenção das cáries e da gengivite, além de contribuir para afastar infecções por fungos como cândida”, completa o especialista. Portanto, ao menor sinal de boca seca, é importante correr no dentista.
Mau hálito: o chamado hálito cetônico, de quem tem diabetes, aparece quando a doença está descontrolada, quando os níveis de glicose estão muito altos ou muito baixos. “Nesta condição, o paciente apresenta um odor na boca semelhante a frutas envelhecidas”, enfatiza o dentista. “O problema começa quando o organismo passa a armazenar energia, em resposta à falta de glicose. Quando a queima da gordura armazenada ocorre, para dar conta do funcionamento do organismo, este processo recebe o nome de cetose, sendo que o mau cheiro característico da boca é liberado pela respiração”, explica Azevedo.
Perda de dentes: a maior propensão de doenças periodontais, cáries e outras infecções faz com que a perda de dentes seja mais comum em casos onde a diabetes está descontrolada. “O processo começa com gengivas inchadas e sangramentos recorrentes. Se nenhuma providência for tomada, o problema evolui e a gengiva vai ficando mais retraída, até que a infecção progride e reabsorve o osso ao redor do dente”, explica Azevedo. “Por isso, ao menor sinal, é importante procurar um dentista para buscar um tratamento, além de fazer a higiene bucal muito bem feita”, recomenda o especialista.
Aftas e machucados: a boca seca e os altos níveis de glicose fazem com que machucados e aftas na cavidade oral sejam mais comuns entre diabéticos – sobretudo quando o quadro está descompensado. “O problema acontece em virtude da má cicatrização na cavidade oral, má circulação e disfunção das células de defesa do organismo, além da maior presença de bactérias na gengiva”, alerta Azevedo.


