A região do cerrado no Brasil por muito tempo foi vista como uma região infértil, popularmente referida como “nem dado nem herdado”. Contudo, durante o período militar, o Brasil enviou ao exterior centenas de agrônomos para a Europa e para os Estados Unidos, cujo objetivo era construir as bases da Embrapa e todo o ecossistema necessário para o desenvolvimento de uma agricultura moderna.
Estes brasileiros voltaram para casa e transformaram ao longo de décadas essa região historicamente infrutífera em referência mundial. Não foi apenas a melhor forma de trabalhar o solo, a irrigação ou o melhoramento genético, mas a combinação em escala desses fatores. A produtividade agrícola brasileira seguiu crescendo ano após ano, resiliente aos ciclos econômicos e ocupando cada vez mais espaço em nossa pauta de exportação. No século 21, os mercados asiáticos, em especial o chinês, abriram os portos para nossas commodities agrícolas gerando um fluxo constante de dólares para nossa economia. Esse movimento contribuiu para o fortalecimento das reservas nacionais de moeda americana, essencial para afastar o fantasma da crise cambial.
Mesmo com esses investimentos em pesquisa e tecnologia, não conseguimos construir uma cadeia logística que facilitasse o escoamento dessa produção em escala. As rodovias dessas regiões eram precárias e por décadas foram o único caminho para levar a produção aos portos. Alguns projetos ferroviários se desenvolveram para encurtar parte das distâncias percorridas, mas sempre foram aquém do necessário. As duas principais obras de infraestrutura do setor agrícola com o potencial de reduzir 20% o custo do frete, as ferrovias Ferrogrão e Norte-Sul, ainda não foram concluídas após décadas do início. As questões institucionais (judicialização e regulamentação excessiva) e de financiamento foram os principais fatores que atrasaram a expansão do setor ferroviário e de alternativas, como o transporte hidroviário.
No entanto, não é esse o calcanhar de Aquiles do agronegócio, e sim os fertilizantes, elemento essencial que o Brasil jamais foi autossuficiente, pelo contrário, nós importamos quase 90% do que precisamos de outros países, como por exemplo Rússia, Ucrânia e os países do golfo pérsico.
A maior parte dessas nações está envolvidas direta ou indiretamente em conflitos bélicos atualmente. O primeiro problema surge com a guerra na Ucrânia em 2022 e agora um novo conflito nos países do golfo, acendendo a luz vermelha para os fazendeiros nacionais, pois essa contração repentina do leque de fornecedores não pode ser rapidamente substituída por alguma fábrica local. A ironia nessa situação é que o Brasil possui uma das maiores reservas mundiais desses fertilizantes, e mesmo assim há pouquíssimas plantas operacionais, com algumas inclusive desativadas.
A falta de empreendimentos locais expôs o calcanhar do agronegócio, é um sufocamento inédito de matérias-primas próximo ao período de plantio de soja e milho já em setembro, cujo estoque atual é limitado e insuficiente. Este é mais um caso de tantos em nossa realidade de como a burocracia, excessiva regulamentação e insegurança jurídica impedem que empreendimentos locais sejam viáveis aos
empresários.
Mateus Rios é formado em Economia pela Universidade Federal do Espírito Santo e atua como assessor de investimentos na Valor Investimentos





