Radar Social
O protagonismo feminino como motor de desenvolvimento  econômico dentro das Favelas capixabas
Foto de Gabriel Nadippeh

Gabriel Nadippeh

Gabriel Nadippeh assina a coluna Radar Social, publicada às quintas-feiras, com um olhar atento e plural sobre as favelas e periferias capixabas. A coluna se propõe a amplificar vozes, iluminar desafios e sugerir soluções a partir de temas como política, economia, cultura e outras dimensões que atravessam o cotidiano periférico, além de destacar o papel do terceiro setor. Partindo do entendimento de que as periferias são espaços de diversidade, criatividade e resiliência, o Radar Social busca provocar reflexão, apontar caminhos e dar visibilidade a conteúdos, iniciativas e causas que historicamente permanecem à margem do debate público.

Dentro das Favelas o empreendedorismo não costuma nascer a partir de um plano de negócios com metas estabelecidas de médio e longo prazo, mentorias ou termos como valuation, Break Even e Bootstrapping e outras expressões do universo dos grandes negócios. Na verdade, essas iniciativas dentro das periferias nascem da urgência de se gerar renda diante dos desafios cotidianos, exigindo muita resiliência e criatividade, qualidades que, aliás, nas Favelas as pessoas têm especialização. Esse é o que chamo de empreendedorismo de sobrevivência — ou se gera renda ou seus filhos passarão fome.

Grande parte desses negócios são geridos por mulheres, em sua maioria negras e mães, que desde cedo precisam ajudar nas tarefas domésticas e desenvolver habilidades essenciais como cozinhar, fazer unha, cabelo, reaproveitar o óleo usado para produzir sabão caseiro, customizar roupas e desenvolver diversas outras atividades. Com o tempo, para muitas delas, esses conhecimentos se tornam a forma mais rápida de gerar renda e iniciar o próprio negócio, atendendo a demanda por serviços dentro da própria comunidade.

A grande questão é que muitos desses empreendimentos fracassam por falta de acesso ao crédito, pouca qualificação e baixa autoestima. Muitas empreendedoras lidam com a sobrecarga de trabalho, o que afeta diretamente sua saúde mental, gerando estresse e frequentemente o encerramento das suas atividades. É necessário recomeçar mais uma vez, se reinventar, e esse processo vai se tornando cada vez mais difícil e doloroso. Aqui não estou falando de pessoas incapacitadas, e muito menos coitadas, mas sim de indivíduos altamente resilientes que, sem o suporte adequado, ficam sem alternativas para estruturar seus negócios e alcançar autonomia financeira.

Para muitas mães que empreendem, o trabalho convencional de carteira assinada e com horário fixo, se torna inviável. Elas precisarem cuidar dos filhos, ser o braço de apoio dos familiares e ainda prover os recursos da própria subsistência. Cabe ao Estado desenvolver e executar políticas públicas de geração de emprego e renda, e garantir que as mais vulneráveis tenham apoio e protagonismo em seus negócios. Não dá para abandonar essas mulheres à própria sorte, e esperar que resolvam todos os problemas sozinhas. O poder público precisa fazer a sua parte, uma vez que não é possível que outros setores assumam a sua responsabilidade e atribuição.

Nesse cenário, a parceria entre as Organizações da Sociedade Civil, como o Instituto das Favelas e Periferias, a CUFA Espírito Santo e as empresas privadas se faz necessária. As OSCs trazem a expertise e legitimidade de atuação dentro desses territórios, enquanto as empresas possuem a força econômica capaz de fomentar projetos de impacto real. Muitas têm suas fábricas e escritórios dentro das regiões periféricas, mas se mantêm afastadas do desenvolvimento e da realidade local dessas comunidades. Se não desempenham a responsabilidade social, se tornam como um corpo sem alma, sem propósito.

Reunião entre CUFA e Suzano. Foto: Divulgação
Reunião entre CUFA e Suzano. Foto: Divulgação

Nesse contexto da importância das parcerias, um exemplo de como a iniciativa privada pode atuar efetivamente, é a colaboração da Suzano no projeto Central de Valores, iniciativa voltada ao empreendedorismo feminino nas Favelas. Essa semana, participando de uma reunião com representantes da área de sustentabilidade da empresa [André Becher, Paulo Rocha, Nivea Patrocínio e Tábatta Andrade], foi apresentado o balanço dos resultados positivos dessa parceria que de 2022 a 2026 atendeu mais de 5 mil empreendedoras em 9 municípios capixabas, em locais que a empresa e a OSC têm atuação. Mais do que números, foi falado do que isso representa: histórias de pessoas reais que mudaram de vida a partir do apoio recebido, outras que encontraram no projeto a força necessária para saírem da depressão, e que para além do desenvolvimento econômico, encontraram uma rede de apoio e solidariedade junto a outras mulheres.

Histórias como essas, reforçam que o investimento em projetos de fomento ao empreendedorismo feminino é uma estratégia vital para o desenvolvimento econômico e construção de um futuro mais equitativo e sustentável nas Favelas capixabas. É um chamado à ação para todos nós, estabelecendo uma parceria eficaz entre o poder público, as empresas e a sociedade civil.


Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Sim Notícias.

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