O Brasil atravessa um momento decisivo na economia digital. Nunca as empresas investiram tanto em transformação tecnológica, inteligência artificial, automação e conectividade. Ao mesmo tempo, nunca estivemos tão expostos.
O problema é que boa parte das organizações ainda acredita que cibersegurança é uma pauta exclusivamente técnica, restrita ao departamento de TI. Não é. Hoje, segurança digital se tornou uma questão estratégica, operacional e financeira.
Os números deixam isso evidente. O Cisco Cybersecurity Readiness Index 2025 mostra que apenas 5% das empresas brasileiras atingiram um nível considerado maduro de preparação em cibersegurança. Isso significa que 95% operam com algum grau relevante de vulnerabilidade diante de ataques cada vez mais sofisticados.
Mais preocupante do que o dado em si é a estagnação. O índice praticamente não evoluiu em relação ao ano anterior, enquanto o ambiente de ameaças se tornou exponencialmente mais complexo. A inteligência artificial acelerou produtividade, inovação e tomada de decisão, mas também ampliou a capacidade ofensiva dos criminosos digitais.
Hoje, ataques usam IA para criar fraudes hiperpersonalizadas, deepfakes, engenharia social avançada e automação de invasões em escala. Não estamos mais falando de ameaças amadoras ou isoladas. Estamos diante de operações altamente profissionais, estruturadas e cada vez mais rápidas.
Segundo o mesmo relatório, 77% das empresas brasileiras já enfrentaram incidentes de segurança relacionados à inteligência artificial. Isso mostra que a IA deixou de ser apenas uma oportunidade competitiva. Ela também se tornou uma nova superfície de risco.
Existe ainda um fenômeno silencioso que cresce dentro das organizações: o uso não monitorado de ferramentas de IA pelos próprios colaboradores. O chamado “shadow AI” cria um cenário em que informações estratégicas, contratos, dados financeiros e conteúdos sensíveis podem ser compartilhados em plataformas públicas sem qualquer governança.
Muitas empresas sequer têm visibilidade sobre isso.
Paralelamente, enfrentamos uma escassez crítica de profissionais especializados. A falta de talentos em cibersegurança já impacta mais de 80% das organizações brasileiras, limitando a capacidade de prevenção, resposta e monitoramento contínuo.
Diante desse cenário, a pergunta deixou de ser “minha empresa será atacada?”. A pergunta correta agora é: “quando isso acontecer, estaremos preparados?”.
A resposta passa por uma mudança de mentalidade.
Cibersegurança precisa deixar de ser tratada como custo operacional e passar a ocupar espaço nas decisões estratégicas das empresas. Isso inclui investimento em arquitetura integrada, inteligência aplicada à detecção de ameaças, políticas claras de governança digital e treinamento contínuo das equipes.
Também exige participação direta da liderança. Segurança não pode mais ser responsabilidade exclusiva do time técnico. O impacto de um ataque hoje atinge reputação, receita, operação, relacionamento com clientes e continuidade do negócio.
O Brasil tem potencial para liderar a nova economia digital. Temos criatividade, mercado, capacidade de inovação e um ecossistema tecnológico em expansão. Mas nenhuma transformação digital será sustentável sem segurança.
Porque no cenário atual, cibersegurança não é mais diferencial competitivo.
É sobrevivência.
Sobre o autor
Thiago Molino é CEO da Globalsys.





