Vitória-Buenos Aires sem escalas: o voo que inaugura uma nova rota — e uma estratégia para tirar o Espírito Santo do mapa regional e colocá-lo na vitrine internacional. Em outubro, o primeiro voo direto entre a capital capixaba e a Argentina quebra uma barreira histórica. Mas a operação é apenas a ponta mais visível de um projeto que você confere abaixo.
Não é exagero dizer que o Espírito Santo nunca esteve tão perto de deixar de ser coadjuvante no mapa do turismo internacional brasileiro. Nesta terça-feira (28), um conjunto de instituições que raramente senta à mesma mesa com um propósito tão alinhado anunciou, no Hotel Senac Ilha do Boi, em Vitória, os detalhes do Projeto de Internacionalização do Destino ES. O carro-chefe da estreia é um voo experimental direto entre Vitória e Buenos Aires, operado pela Gol Linhas Aéreas, com partida em 17 de outubro e retorno em 24 do mesmo mês.
Mas quem enxergar ali apenas uma rota de avião vai perder o que de fato está em jogo.
A operação é o gesto mais concreto de uma engrenagem que começou a girar meses antes e que vai muito além do ir e vir de passageiros. O projeto, coordenado pela Secretaria de Estado do Turismo (Setur), Conselho Estadual de Turismo (Contures), Sebrae/ES e Fecomércio-ES, com a entrada da Zurich Airport Brasil (administradora do Aeroporto de Vitória), da Gol e da CVC Viagens, prevê um conjunto de ações que se estende pelo segundo semestre inteiro e que mira, sem meias-palavras, a criação de demanda consistente para que voos sazonais — e, mais adiante, regulares — liguem o Espírito Santo a mercados estrangeiros.
Um plano que não é de gaveta
A iniciativa não nasceu de um insight isolado. Ela se apoia em duas estruturas de planejamento recém-concluídas: o Plano de Marketing Turístico do Espírito Santo (2026–2030) e o Plano Brasis, da Embratur, que mapeou as vocações internacionais de cada estado brasileiro. Foi a partir desse mapeamento que a Argentina entrou no radar como primeiro alvo — e a escolha não obedece a uma preferência afetiva, mas a um conjunto de dados que torna o movimento quase óbvio.
A Argentina é, há anos, o principal emissor de turistas para o Brasil. São mais de 3,3 milhões de argentinos cruzando a fronteira anualmente. O perfil desse visitante não poderia ser mais compatível com o que o Espírito Santo tem a oferecer: busca por praia e mar, dois ativos que o litoral capixaba entrega em abundância, com a vantagem de um custo-benefício competitivo quando comparado a outros destinos consolidados do Sudeste.
Some-se a isso uma característica que o Plano Brasis identificou como o trunfo inexplorado do estado: a possibilidade de, em 90 minutos, sair do litoral e chegar à montanha, combinando experiências de sol, areia, clima serrano, gastronomia e cultura numa mesma viagem curta.
Guarapari e Pedra Azul, para citar o exemplo mais emblemático, estão a uma hora e meia de carro uma da outra — uma raridade geográfica que nenhum concorrente direto no Cone Sul consegue replicar.
“Graças ao esforço coletivo de diversas instituições, esse plano vem sendo construído e agora colocado em prática de uma forma mais acelerada do que se imaginava. Essas ações estão mudando os rumos, não só do turismo, mas do desenvolvimento econômico do Espírito Santo”, afirmou Pedro Rigo, superintendente do Sebrae/ES, durante a apresentação.
O voo é só o começo? Como?
O voo direto Vitória-Buenos Aires será comercializado pela CVC Viagens, que deve divulgar pacotes nos próximos dias. A aeronave da Gol partirá do Aeroporto de Vitória no dia 17 de outubro e retornará no dia 24. Mas, na mesma semana, acontece a chamada Semana do Espírito Santo na Argentina, uma ofensiva promocional que inclui ativações em shoppings, rodadas de negócios entre empresas capixabas e argentinas, eventos no Palacio de la Reconquista, em Buenos Aires, e a vinda de operadoras, agentes de viagens e jornalistas argentinos para um famtour pelo estado.
“Na mesma semana do voo, serão realizadas ativações em shopping centers para apresentar o destino Espírito Santo. É preciso criar demanda para essa rota, para que possa vir a receber voos sazonais, e, quem sabe em um futuro próximo, voos regulares. Daqui para lá já existe demanda. Esse trabalho de promoção é para fazer que o argentino queira vir para o Espírito Santo”, explicou Rigo.
A ideia é que o avião não viaje vazio na volta — e que também não seja um evento isolado.
Para isso, o cronograma do segundo semestre foi desenhado como uma escada: em agosto, roadshows em quatro cidades argentinas e a vinda de jornalistas do país vizinho para conhecer o Espírito Santo; em setembro, presença capixaba na FIT América Latina, a principal feira de turismo do continente, com estande integrado ao da Embratur, além de campanhas de promoção do verão capixaba e webinars com o Comitê Visit Brasil.
A engrenagem inédita
Chama atenção, no anúncio, o grau de alinhamento entre atores que, em outros contextos, operam com agendas distintas. A Zurich Airport Brasil, que administra o aeroporto da capital desde a concessão, participa diretamente do esforço de captação de voos. “Iniciativas como esta demonstram a importância de construir estratégias de longo prazo para o desenvolvimento do turismo no Espírito Santo. O fortalecimento da conectividade aérea é um dos principais pilares para aumentar a competitividade dos destinos”, destacou Artemis Papanika, diretora de Operações da concessionária.
A Fecomércio-ES, por sua vez, articula a integração empresarial que pode fazer do turismo uma porta de entrada para negócios entre capixabas e argentinos. “O anúncio do movimento de internacionalização do turismo do Espírito Santo representa um marco histórico para o nosso estado. É resultado do fortalecimento de um trabalho contínuo e sustentável que reúne vários atores em torno de um propósito comum: transformar o turismo em uma das grandes alavancas do desenvolvimento econômico capixaba”, disse Idalberto Moro, presidente do Sistema Fecomércio-ES – Sesc e Senac, e presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae/ES.
O secretário de Estado do Turismo, Luciano Machado, amarrou o discurso à diversidade de produtos turísticos que o estado pode oferecer: “Temos um destino diverso, com praias, montanhas, cultura, gastronomia, patrimônio histórico, turismo de natureza, negócios e experiências autênticas, que podem conquistar visitantes de diferentes partes do mundo. O trabalho de promoção internacional é fundamental para posicionar o Espírito Santo no mapa global do turismo”.
Por que a Argentina, e por que agora
A escolha do mercado argentino como ponto de partida da internacionalização não foi um palpite. Ela combina três fatores que raramente se alinham com tanta clareza: tamanho do mercado emissor, aderência do perfil do turista ao produto local e janela de oportunidade gerada pelo fortalecimento institucional do setor. O presidente da Embratur, Bruno Reis, que apresentou o Plano Brasis no Espírito Santo durante o ESTour — Salão Capixaba de Turismo, já havia cravado que o estado era um dos próximos grandes destaques do Brasil no exterior.
“No Espírito Santo, encontramos um destino preparado, com governança organizada, diversidade de experiências e um trade comprometido. Tenho convicção de que o estado será um dos próximos grandes destaques do Brasil no mercado internacional”, afirmou Reis.
O Plano Brasis trouxe também uma leitura estratégica que ajuda a entender o movimento: o ativo mais valioso e ainda pouco explorado do Espírito Santo é a combinação litoral-montanha em curta distância, algo que nenhum concorrente direto do Cone Sul oferece com a mesma praticidade.
Para o turista argentino, que valoriza praia, mas também aprecia gastronomia, cultura e experiências ao ar livre, esse é um argumento de venda poderoso.
O que esperar dos próximos meses
O cronograma apresentado nesta terça-feira é denso. Em agosto, além dos roadshows em cidades argentinas, está prevista uma press trip com jornalistas do país vizinho percorrendo o Espírito Santo. Em setembro, a participação na FIT América Latina deve colocar o destino capixaba diante de operadoras e agentes de viagens de todo o continente, enquanto campanhas digitais e webinars aquecem o mercado para o verão. Em outubro, o voo experimental e a Semana do Espírito Santo na Argentina concentram as ações mais visíveis, com eventos promocionais, rodadas de negócios e a vinda de profissionais argentinos para conhecer o estado in loco.
Há um realismo na fala dos envolvidos que impede euforias prematuras.
Um voo experimental não garante, por si só, uma rota regular. Mas o fato de que a Gol aceitou operá-lo, de que a CVC entrou na comercialização, e de que a Embratur incluiu o estado em sua estratégia de promoção internacional sinaliza que, desta vez, o movimento tem mais musculatura do que iniciativas anteriores.
“É preciso criar demanda para essa rota”, repetiu Rigo. A frase, dita com a simplicidade de quem conhece o setor, resume o jogo: oferta de assentos existe; o que se planta agora é o desejo do passageiro argentino de desembarcar em Vitória — e, uma vez ali, descobrir que entre uma praia e uma montanha capixaba cabem muito mais do que 90 minutos de estrada.






